Crônica: UPA, um passeio arriscado

Jonathan de Oliveira Mendonça, de Rio das Ostras, RJ

UPA Rio das Ostras. Ela não queria ter de estar ali. Por razão da pandemia, tem se mantido no isolamento máximo possível. Mas há momentos em que o risco é necessário. Mesmo assim, seguiu intransigentemente todos os seus próprios protocolos. Mesmo com o dinheiro faltando, optou pelo transporte individual, mais um pequeno sacrifício. Entrou com certa dificuldade de mobilidade, abriu os vidros e higienizou as mãos. A máscara dupla no rosto, a máscara extra na bolsa.
O caminho foi assim: o rosto ao vento. O olhar para fora era entristecido. A beleza de outrora era sombria, ver as crianças brincando na rua com sua inocência, soltando pipa, as linhas com cerol, os pescoços em risco. O cabelo emaranhado, o rosto sujo. A frente dos bares mesas cheias de homens de meia idade, e alguns já avançados na idade e no risco. As igrejas abarrotadas, o amor à vida, a Deus, a hipocrisia. O carro pega a avenida. Estranhamente a cidade está pulsando, nada está ocorrendo. Nem parece haver crise.
Busca não puxar assunto, mas o motorista insiste em iniciar alguma conversa em que possa defender o governo baseado em informações pré-fabricadas, a tal moeda que gruda no braço por conta da vacina. Ignora-o e o enunciado no vácuo gera o constrangimento necessário para reinar o silêncio.
Chega à Unidade de Saúde, paga o motorista com as notas que possui, que estão há dias em local reservado para que o tempo leve consigo suas impurezas. Fecha a porta, higieniza a mão. A primeira visão: a parte externa da UPA está lotada, o preâmbulo do cenário interno. Portas fechadas, janelas fechadas. Que medidas então estão sendo tomadas?
Não há mais a zona de desinfecção com pulverizador que havia sido instalada no início da pandemia, quando morriam 300 pessoas por dia. Agora que a situação está estável, as bandeiras melhorando de vermelha para laranja, amarela, e morrendo 2.000 diariamente.
Entra na UPA. Abre a maçaneta, higieniza as mãos. As cadeiras pregadas umas às outras impedem o distanciamento. Todas estão ocupadas, paulatinamente as cadeiras dançam, quem estava em pé ocupa a mais próxima e se sente com sorte de sofrer agora com encosto. Não há medida, há conformidade de óbitos, enquanto não há óbito, depois, há uma tristeza infinita, inexplicável e há um sentimento de culpa enfiado com força no passado para que não seja necessário lidar com a responsabilidade que cada um tem sobre a morte.
O primeiro atendimento é o burocrático: cinco minutos de risco para o atendente que pegou os documentos de sua mão preencher a ficha. Ele não higienizou as próprias mãos depois de devolver os documentos. Ela os higieniza, guarda na bolsa. E prefere manter sua dor de pé que disputar a vaga da cadeira. Ali, abaixo de bocas e narizes é mais perigoso.
O segundo atendimento é a triagem. Uma hora de risco para decidirem se o seu estado é grave, moderado ou leve. O médico utiliza os aparelhos que utilizou nos outros pacientes e que não passou por qualquer processo de higienização entre as consultas. A depender da cor que marcarem o seu cartão, a espera para o terceiro atendimento, o clínico geral, ganhará mais uma, duas ou três horas de risco. Era amarela.
Em todo momento, a busca pela autodefesa a faz preferir sempre o ambiente externo. Mas é obrigada a ficar voltando ao salão para verificar se foi chamada, ou ficar próxima à porta. Lá fora há menos gente e o ambiente é aberto. Mas lá também as pessoas se sentem mais livres para retirar a máscara para assoar o nariz ou falar no celular. Agora é uma “doutora” de traje branco quem busca o ambiente externo para matar a saudade de algum familiar, retira a máscara para poder conversar melhor, a chamada é de vídeo e a outra pessoa deve querer ver seu rosto. Ela se sente em casa naquele ambiente. Por isto, anda de um lado pro outro falando com o ente querido, enquanto espalha micropartículas de saliva sabe-se lá com que microrganismos.
Ela pensa em desistir, em voltar para casa. Mas já se passaram duas horas de risco e a dor não passa. Gritam seu nome. Caminha em direção ao som da voz que parece cansada. Sempre olhando para a ficha, o médico.
_Oi! O que você tem.
_Não sei doutor, uma dor aqui. – O médico não olha. E parece perguntar em afirmativas.
_Está sentindo isso há quanto tempo.
_Acho que três ou quatro dias. – O médico anota.
_Está tomando que remédio.
_Este aqui. – O médico não olha, mas anota.
_Você vai fazer exame de sangue que vai sair em três horas e vai tomar este medicamento.
_Doutor, mas o que é? O que pode ser?
_ Não sei! Só posso saber depois do exame. O médico anota.
Ela olha os rabiscos indecifráveis e tenta lê-los inutilmente. São feitos assim para que pessoas normais não possam ler. Depois enfrentará uma hora de risco na fila do medicamento e do exame, três horas de risco para o exame sair. E quando isto ocorrer, o plantão do médico terá acabado. Outro médico irá perguntar enquanto anota:
_Então você está com dor. Onde? – Ela mostra, ele não olha e anota.
_ Eu vou passar aqui este medicamento e um encaminhamento para outro médico, um especialista.
_Mas Doutor, o que eu tenho?
_ Isso só um especialista pode dizer.