Luta pela educação pública é uma luta feminista


Publicado em: 11 de outubro de 2026

Alice Pereira, do Semear Norte Fluminense

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Esquerda Online

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Crédito Sinesp/Reprodução
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O resultado eleitoral do último domingo deixou um gosto amargo no campo progressista, mas especialmente pras mulheres. A vitória de Flávio Bolsonaro poderá significar retrocessos inéditos no campo educacional e nas lutas das mulheres. Nesse sentido, é importante entendermos como essas duas frentes estão ligadas e como reconhecer suas interseções pode qualificar nossos posicionamentos e nos preparar para as batalhas que seguirão, ainda que a vitória de Lula seja possível e seja nossa principal tarefa nesse momento.

O neoliberalismo educacional e a extrema direita encontram nos movimentos organizados de educadores e estudantes uma forte barreira, que impede a realização de seu projeto autoritário, mercadológico, excludente e homogeneizador. Sindicatos, associações, centros acadêmicos, grupos de pesquisa e agremiações estudantis têm sido fundamentais em defender a educação pública e seus princípios contra seus detratores e inimigos. Projetos de lei como Escola sem Partido e tentativas de censurar a discussão sobre gênero nas escolas não foram aprovados graças às mobilizações da sociedade civil.

Porém, existem aspectos dos ataques sofridos pela educação que atingem especialmente meninas e mulheres. A lógica patriarcal desses ataques tem como objetivo, seja ele principal ou secundário, reforçar desigualdades de gênero e violências já tão perenes nas vidas das mulheres brasileiras. Ao olharmos para esse conjunto de discursos, posturas e ações, fica patente como a misoginia é instrumento e alicerce do projeto da extrema direita.Em primeiro lugar, a discussão sobre homeschooling tem um viés particularmente perverso para as mulheres. O Projeto de Lei 1.338/2022, de iniciativa articulada por setores da bancada bolsonarista, voltou a aparecer na mídia após um pedido de urgência na votação ter sido protocolado no Senado no dia 30 de junho. A retomada do projeto de ensino domiciliar, que reflete tanto uma tentativa de afastar as crianças do pensamento crítico, do conhecimento científico e da diversidade encontradas na vivência escolar, também traz em seu bojo o retorno das mulheres para o trabalho doméstico não remunerado, ainda que implicitamente. Afinal, se haverá crianças e adolescentes recebendo instrução em casa, quem ficará responsável por desempenhar esse papel? Parece evidente que as mães e avós serão encarregadas de mais uma tarefa que as afastará do trabalho formal, dos estudos, dos espaços de decisão política e do tempo de lazer e descanso, entre outros. Na divisão sexual do trabalho, são majoritariamente as mulheres encarregadas de cuidar da educação dos filhos. Em um contexto de ataque às escolas públicas, falta de investimentos adequados e desvalorização dos profissionais da educação, o discurso a favor da educação domiciliar, reflexo de conservadorismo e uma falsa ideia de liberdade, ganham tração.

Temos testemunhado também o crescimento da violência e perseguição contra professores na escola do ensino básico, onde a maioria do corpo docente é de mulheres. Gravar, intimidar e expor professores e professoras tem sido uma estratégia da extrema direita para capitalizar politicamente uma parcela do eleitorado que vê na escola um local de doutrinação ideológica da esquerda. Até mesmo no programa de governo de Flávio Bolsonaro isso é citado explicita e repetidamente, já deixando claro que o ataque à autonomia pedagógica, o pensamento crítico e à pluralidade serão alvos de um possível futuro governo. Tivemos recentemente um caso no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, em que um campus foi paralisado porque país ameaçaram uma professora. Tivemos também caso de feminicídio do CEFET., em que duas servidoras foram assassinadas à tiros dentro da instituição em 2025 por um colega que não aceitava ser chefiado por mulheres. Esse clima de medo é mais um fator da precarização das condições de trabalho dos profissionais de educação, podendo resultar em adoecimento, afastamentos e abandonos da carreira. Segundo uma reportagem da BBC Brasil publicada no dia 21 de julho deste ano, o Brasil lidera o ranking de violência contra professores. De acordo com um levantamento feito em 2024 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 47% dos entrevistados no país afirmam já ter sido abusados verbalmente por alunos. Ainda que não tenhamos dados concretos de um recorte de gênero, sabemos que quase 80% do corpo docente é constituído por mulheres.

Outro aspecto é o da proliferação de escolas cívico-militares. Atualmente, a presença de militares nas escolas em nome de uma suposta imposição de disciplina, melhoria no desempenho acadêmico e combate à violência tem sido uma bandeira da extrema direita, que diz defender a ordem e a família. Uma falácia espalhada pelos detratores da escola pública e dos educadores, Muitos país e responsáveis acreditam que essas escolas são melhores e mais seguras. No entanto, as mazelas do sistema público de ensino tem origem na falta de investimentos, ausência de gestão democrática e na desvalorização contra os profissionais da educação. Na prática, escolas militares limitam a liberdade de aprender e ensinar, em especial em se tratando de temas como machismo, racismo e homofobia. Uma demanda central de educadores e do movimento feminista para o próximo governo deve ser enterrar de vez esse formato de escola, devolvendo a escola pública ao poder público. Sua existência continua sendo um perigo para a democracia do país, além de reforçar um modelo educacional autoritário e machista.

No entanto, a extema direita não está alheia ao fato de que a violência contra as mulheres pode se tornar também capital eleitoral e essa pauta vem sendo incorporada ao seu discurso, ainda que de maneira contraditória e oportunista. Nas eleições para o legislativo da última semana, por exemplo, várias mulheres de extrema direita foram eleitas, embora suas falas sejam, muitas vezes, no sentido de atacar os direitos das mulheres, até mesmo o direito ao voto. Em seu plano de governo, Flávio Bolsonaro não apenas dedicou um capítulo para o tema, como incluiu um programa chamado Escola Brasil por Elas, que têm a mesma proposta do Mulheres Mil, porém integrados ao Sistema S e parcerias público-privadas, supostamente para mulheres a empreender. Nesse sentido, a proposta deixa claro não só um esvaziamento dos IFs, como também está alinhado ao projeto neoliberal de precarização do trabalho em nome da falsa autonomia que o empreendedorismo promete, mas nunca realmente entrega.

O movimento feminista e o campo progresista barraram retrocessos em propostas legislativas contra os direitos reprodutvos e sexuais e tem pautado a o combate à violência contra as mulheres como um tema central desse momento histórico. Tivemos uma vitória significativa com a aprovação da lei 14.164/21 que inclui conteúdos sobre a prevenção e combate à violência contra mulheres, crianças e adolescentes nos currículos escolares, além de promover a produção e distribuição de materiais didáticos adequados a cada nível de ensino. Para termos espaço para alcançar mais conquistas e barrar retrocessos, precisamos buscar a vitória do governo Lula, mas também precisamos buscar uma vitória política das mulheres. E para isso a gente precisa defender a educação pública pautada no pensamento crítico, universal, democrática antissexista e socialmente referenciada.


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