Mesmas cores mesmos valores? O hip hop no meio da disputa eleitoral
Publicado em: 30 de setembro de 2026
“Voto no Lula, sou fã do Oruam, fumo maconha boa e faço umas rima.
Eles jamais serão tão quente” Dudu Mc
O ano era 2004 e o hip hop entra no Palácio do Planalto. Nomes como KL Jay, Edi Rock, Rappin Hood, Mv Bill, se reuniram com o então ministro da cultura Gilberto Gil e com o Presidente Lula, que estava em seu primeiro mandato. Lá, eles discutiram sobre políticas públicas específicas para o hip hop, demandas do movimento, e sobre o país.
O ano é 2026. Abebe Bikila, vulgo Bk, se torna o primeiro rapper brasileiro da história a fazer um show solo num grande estádio. Foram mais de 50 mil pessoas presentes em um evento que entrou pra história.
Mesmas cores?
Nas últimas semanas aconteceu um movimento de artistas que passaram a se somar à campanha do Presidente Lula. Entre figuras do cinema, teatro, televisão e música, estavam alguns cantores de rap. Nomes como Xamã, BK, Ebony e Delacruz, gravaram vídeos de apoio ou estiveram no encontro com o atual presidente.
Após esta iniciativa surgiram nas redes sociais dos presentes e em páginas de rap milhares de comentários e posts contrários à participação dos rappers no encontro com Lula, acusando os mesmos de terem se vendido e afirmando se sentirem decepcionados.
Muitas páginas visivelmente patrocinadas e impulsionadas para produzir conteúdos direcionados a criticar o governo reforçaram os comentários negativos à participação destes artistas.
Outros grandes nomes da cena, como Froid, Djonga, Leviano, Dudu, também passaram a se posicionar, todos afirmando que o rap tem um lado político, tensionando e polarizando o tema. Até figuras ligadas ao partido Missão entraram no assunto, defendendo que o rap não pertencia à esquerda.
Esta situação, um número de ouvintes de rap e de uma “fanbase” de artistas que recusam o elemento político do rap e se identificam com a direita, é um elemento novo e inédito na cultura hip hop. Esse fato não é menor. Ele responde a dilemas e contradições de nosso tempo. O rap se tornou pop e se inseriu na indústria cultural. Estamos vivendo uma nova condição do rap no país.
Mesmos valores?
Na virada do século, escritores como bell hooks e Lewis Gordon já levantavam a hipótese do rap ser ganho pela lógica neoliberal e deixar de representar um movimento social subalterno, para ser exclusivamente uma possibilidade para o subalterno ascender socialmente. Estes autores afirmavam que era isto que acontecia com o hip hop estadunidense durante os anos 2000. Acredito que é isto que vemos acontecer no Brasil.
Hoje o rap, e suas vertentes, é uma dos gêneros musicais mais ouvidos no Brasil. Um número que cresce se passarmos a contar o funk nessa equação. Este ritmo, genuinamente brasileiro, ocupa o posto de artistas mais escutados e música mais ouvidas nas plataformas digitais.
Quando o rap surgiu na década de 80, ao longo dos anos 90, e da primeira década do século XXI, de forma estigmatizada, como sinônimo de “música de bandido”, “coisa de favelado”, “violento”. Uma visão norteada e marcada por um nítido teor racial e classista. O rap seria música dos negros e periféricos, dos indesejados, dos “manos” em São Paulo, dos pivete e maloqueiros no Nordeste.
Atualmente podemos observar que o rap alcançou um público policlasista. Jovens brancos de classe média e alta são presença em shows, e arrisco a dizer, maior parte do público dos grandes festivais de rap. Um público que desconhece o passado da cultura hip hop e que nega seu lado político. É possível vermos também que o rap alcançou uma classe média intelectualizada, ligada a posições de esquerda. Se durante os anos 90 Chico Buarque disse que o rap era “a morte da canção brasileira”, hoje o artista carioca e nomes do rap como Emicida e Criolo dividem o mesmo público e realizam shows no mesmo ambiente. O vínculo dos rappers com o mercado se modificou, do mesmo modo que também mudou a relação do mercado com os rappers.
O “assalto” cantado por Brown em Nego Drama se concretizou:
“Esse não é mais seu, oh, subiu. Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu. Nóis é isso ou aquilo, o quê? Cê não dizia? Seu filho quer ser preto, ah, que ironia”
O rap ajudou uma geração de brancos a entenderem as desigualdades sociais e raciais que os mesmos estavam inseridos no Brasil.
Agora, o rap adentra livrarias, teatros, eventos de moda, vestibulares, programas televisivos das grandes redes. Contraditoriamente, não é apenas o rap que toma a consciência do jovem branco como cantou Brown. A desgraça e contradição que a dialética impõe, é que agora, é um novo jovem branco de classe média que passa a tomar o rap de assalto.
Em menos de 15 anos, o rap e a “cultura periférica” passaram a ser consumidos por uma juventude de classe média e alta, e assim passou a ser interpretado a partir das demandas destes grupos sociais.
Quanto vale o show mesmo?
O rap é uma crônica social. As letras, desde seus primórdios, refletem desejos, aspirações, realidades concretas e materiais daqueles que a escrevem e expõem. É possível entender o Brasil e suas mudanças nos últimos 40 anos a partir da história do rap nacional e suas grandes produções e mudanças.
É perceptível uma mudança do conteúdo das rimas das letras de rap, e da forma que as músicas são feitas nas últimas décadas. A possibilidade de ascensão social, as melhorias de vidas geradas pelos governos Lula e Dilma, o avanço da consciência racial e da subjetividade negra, fez com que muitos artistas escolhessem não rimar apenas sobre suas dores, sobre a violência, ou sobre a miséria. Agora, esses assuntos aparecem, mas marcados por um outro lugar na letra. A revolução iniciada com “Pra quem já mordeu um cachorro até que eu cheguei longe” de Emicida, mas principalmente com “Cores & Valores” dos Racionais MC’s, se permitiu que se tenha no rap o direito à festa, ao amor, ao desejo de bens e também ao consumo.
Esse desejo ao consumo é o centro de grande parte das letras produzidas nos últimos anos. Com a explosão do trap nos Estados Unidos e sua importação ao Brasil, temas como dinheiro, carros, vida de luxo, mulheres, se tornaram ainda mais recorrentes nas rimas.
Aqui não cabe afirmar que estas letras, beat e tipo de rap é melhor ou pior, apenas que se tornaram predominante na cultura, se tornaram hegemônica no sentido gramsciano do termo, se tornaram mainstream. Este fato permitiu romper ainda mais o distanciamento do rap, visto como música marginalizada com a música pop, com a indústria cultural brasileira e com as classes médias brancas. Se torna possível, inclusive, jovens de classe média se identificarem com aquilo que é falado na letra, da mesma forma que permite o jovem periférico, pois as rimas abordam o desejo: seja do consumo, do objeto material, ou carnal.
A presença deste público, que até 15 anos atrás era alheio à cultura hip hop e inclusive a olhava com desdém, gera modificações na própria cultura. Um dos elementos é a negativa de reconhecer o passado, e buscar afirmar que o rap é contra a política. Estes passam a afirmar que “música não tem lado político”.
Vale aqui afirmar que hoje, nas esferas da produção, circulação e recepção do rap, o público do rap masculino se tornou um antro de conservadores. ADestacou ainda o caso de um vereador de Porto Alegre, de partido de direita, abertamente conservador e ligado a extrema direita da cidade, que foi recentemente preso por desvio de dinheiro de emendas parlamentares, mas que manteve nos últimos anos uma relação aberta com nomes do hip hop local, seja com artistas, com “militantes” da causa, e com produtores de festivais de rap.
Somos o que somos
As próprias mudanças dentro da cultura hip hop e a possibilidade de ascensão que a mesma permite distância cada vez mais o rap do movimento social. Seja dos movimentos sociais organizados que caminharam lado a lado com a cultura. Ou, do próprio hip hop como um movimento social específico.
A história do rap no Brasil sempre foi marcada por caminhar ao lado dos movimentos sociais. Uma das parcerias mais bonitas e marcantes entre ambos foi o projeto “rappers” do Instituto Geledés.
Após uma série de violências racistas cometidas pelo aparato de segurança pública de São Paulo e proibições de shows, o Geledés passou a ofertar orientações jurídicas, formações em direitos humanos e também formação políticas de temas como racismo, machismo, desigualdade social, para grupos de rap. Este fato contribuiu para a ampliação da visão de mundo, melhoria da qualidade das letras, e fortalecimento do rap em sua ligação com as comunidades periféricas, pois cada vez mais os grupos se tornaram porta-vozes destas comunidades.
Outro feito importante deste projeto foi a criação da revista “Pode crê!”. A primeiro mídia exclusiva de rap no Brasil com foco nos jovens e adolescentes negros. Grandes nomes passaram pelo projeto, como Rappin Hood, Thaíde, Dj Hum, Kal, Racionais MC, Sharylaine, entre outros.
A coisa mais esperançosa e mais dilacerante são a mesma
O rap surge como uma manifestação pública e política das condições que a população negra e periférica se encontraram no Brasil. Ao longo das décadas continua narrando as mudanças na vida e nos desejos dessa parcela do país. O rap, como toda arte, é político por excelência. Não existe um rap que não seja político. Até mesmo uma neutralidade se tornaria uma opção política.
Cabe examinar quais as consequências da massificação e popularização da cultura negra e periférica e do próprio rap na experiência contemporânea de negros e negras no mercado cultural. Além de quais as implicações disso para a luta antirracista, que teve no hip hop um aliado contra o mito da democracia racial.
Entender as mudanças no rap e a nova condição do rap hoje, contribui ainda para pensarmos sobre os limites dos debates sobre raça e racismo quando mediados pelo mercado.
Hoje, tomado em parte pela indústria cultural e fazendo parte do imaginário pop, o rap continua um instrumento político para expressão da subjetividade e da realidade da população negra e pobre do país.
O rap é e será sempre um reflexo de seu tempo, e este é o ponto chave. Os tempos atuais são marcados por uma predominância do individualismo, da subjetividade neoliberal, do egoísmo como regra, da morte do desejo do outro e da extrema direita como força política. Esses elementos entram de assalto no rap, pelo público e acabam se infiltrando em nossas letras, cabe a nós enxergar estas contradições antes de tomarem a mesma.
A questão é, se o rap como um espécie de crônica social será no futuro próximo um elemento positivo para a consciência social e racial da juventude brasileira ou se tornará um elemento que alimentará os aspectos mais reacionários desta conjuntura.
Pelas recentes movimentações de artistas e de grandes nomes da cena, eu diria que o rap, apesar de parte de seu público, continuará sendo um elemento educador, e mais do que isso, o hip hop seguirá com sem papel como um elemento civilizatório da sociedade brasileira e construção de um Brasil possível.
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