Campanha Lula deve manter a iniciativa


Publicado em: 19 de setembro de 2026

Coluna Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

Coluna Valerio Arcary

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

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Crédito Ricardo Stuckert/PR
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Não repita as mesmas táticas que o levaram à vitória,
mas mude seus métodos de acordo com a infinita variedade de situações.
Sun Tzu, A arte da guerra

1 Tudo se decidirá em duas semanas. Mas quem tem iniciativa tática conquista vantagem. Prevaleceu, finalmente, no comando da campanha o sentido de máxima urgência diante de uma eleição indefinida. As decisões de aumentar o valor do Bolsa-Família, de assumir o acesso às canetas emagrecedoras, gratuitamente, pelo SUS, e enfrentar a epidemia de endividamento pelas bets como uma tragédia de saúde pública vieram atrasadas, mas ainda a tempo de incidir na disputa da pauta das eleições, ao lado do fim da jornada 6×1. A apresentação da biografia de Lula e, mais importante, a defesa do legado do governo, em especial diante da inescapável comparação com as calamidades da gestão Bolsonaro, foram necessárias nas primeiras semanas de campanha. Foi, também, uma decisão justa fazer a defesa da soberania, diante da interferência de Trump, e da democracia, diante do perigo autoritário do retorno do bolsonarismo ao poder, ambicionando uma maioria absoluta no Congresso, em especial no Senado, e o controle do STF (Supremo Tribunal Federal) com a nomeação de ministros “terrivelmente” reacionários.

2 Mas a dinâmica da disputa exigia um reposicionamento emergencial, assumindo novos compromissos para o futuro, porque esta eleição é diferente da campanha de 2022. Um giro era necessário, e oxalá se mantenha. O que não avança, recua. Propostas como a defesa da regulamentação de imposto sobre as grandes fortunas e o passe livre, como exemplos de compromissos para o quarto mandato, mereceriam ser, também, consideradas. Não só têm audiência de massas e podem energizar a mobilização da militância que será indispensável, mas respondem a expectativas adiadas por décadas que podem fazer a diferença em uma eleição que será definida por uma margem de votos, dramaticamente, estreita. A resposta ao medo deve ser a agitação da esperança de que dias melhores virão.

3 A sessão do STF foi um escarcéu confirmando que não havia remédio jurídico para um julgamento político. Mas o desfecho permitiu ganhar tempo. Foi evitado que as duas últimas semanas de campanha eleitoral tivessem como pauta a corrupção. Devemos ter sentido de perspectiva considerando a correlação de forças no Tribunal e na sociedade. Pior teria sido se fosse iniciada a investigação somente contra Xandão, porque este desenlace iria eletrizar o núcleo duro bolsonarista associando Lula a Alexandre de Moraes em um amálgama manipulador e desonesto. Melhor teria sido, evidentemente, se tivesse vencido a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, e todos os ministros suspeitos de envolvimento com favores de Vorcaro, todos sem exceções, fossem investigados. Mas isso era impossível. A solução de impasse pelo pedido de vistas de Dino foi um mal menor. Impasse é muito melhor do que derrota. O objetivo de Fachin era abrir a investigação contra Alexandre de Moraes antes do primeiro turno, o que turbinaria, inevitavelmente, a campanha “Fora Xandão, Fora Lula”. Ninguém deveria se surpreender que tenha sido apoiado por Fux o ministro que absolveu Bolsonaro no julgamento por golpismo. Mas é bom lembrar que foi por um triz. Felizmente, as informações disponibilizadas no celular de Vorcaro, na véspera e sob intensa pressão, provocaram pânico em Nunes Marques, que se declarou impedido. Mas estão equivocados aqueles que na esquerda se uniram à louvação de Carmem Lúcia deixando-se “hipnotizar” pela defesa da “dignidade” do Supremo. O voto dela contra um julgamento unificado de todos os envolvidos em relações suspeitas com Vorcaro favoreceu a manobra de Mendonça, e revelou uma completa incompreensão do perigo neofascista colocado por uma possível volta do bolsonarismo ao poder.

4 A fração liberal da classe dominante apoiou, irresponsavelmente, a manobra de Mendonça de manipular a eleição associando Lula a Alexandre de Moraes como denúncia de um “sistema podre de corrupção”. Facilitaram a tentativa de subverter a pauta do debate eleitoral para elevar o nível de exigências à candidatura Lula. Não têm muitos votos além da classe média abastada, mas têm peso político-social. Ninguém pode desconhecer que a pauta da corrupção favorece a extrema-direita. Este paradoxo é escabroso porque é um fato inescapável que o candidato Flávio Bolsonaro manteve relações indefensáveis com banqueiro preso Vorcaro. Mas grandes grupos capitalistas que se expressam através da Rede Globo e Folha de São Paulo, além de outras empresas de comunicação social, estão fazendo, despudoradamente, um ultimato para que Lula se comprometa com um ajuste fiscal que garanta pelo menos entre 2% e 3% de superavit fiscal. Encontraram acolhida em setores do governo, como o ministro da Fazenda Dario Durigan, que sinalizou até a desvinculação do salário mínimo como piso da remuneração dos benefícios da Previdência Social. A grande mídia comercial está flertando com a catástrofe: o perigo de uma nona vitória da extrema-direita (Argentina, El Salvador, Equador, Chile, Bolívia, Honduras, Colômbia e Peru), desde que Trump voltou ao poder é real e imediato. A chantagem da Casa Branca vai ficar mais ameaçadora nas próximas duas semanas, a pretexto do discurso de Lula na abertura da Assembleia das Nações Unidas. Já ficou demonstrado que a agitação de represálias contra o Brasil para disseminar o medo é funcional. Devemos estar conscientes de que a interferência dos EUA, que começou há um ano em julho de 2025 com o tarifaço, pode ser decisiva.

5 O resultado da campanha eleitoral está imprevisível. Tanto podemos vencer quanto perder. A mais recente pesquisa Datafolha revelou, pela terceira semana seguida, apesar do tumulto no STF, que se mantém um empate técnico no segundo turno de Lula 46% contra 44% de Flávio Bolsonaro, e rejeição de ambos em 47%. Confirmou, também, que é muitíssimo provável que haja um segundo turno, e que a diferença a favor de Lula no primeiro turno veio diminuindo. Mas sinaliza um aumento da aprovação do governo, e esta é a informação mais animadora. Todas as oscilações são nos limites da margem de erro. Dados desagregados mais relevantes são que Lula mantém maioria entre os mais pobres (46% a 29%) que representam gigantescos 49% do eleitorado, no Nordeste (56% a 26%) que correspondem a 27%, defende um empate técnico, ainda que numericamente atrás, no Sudeste que concentra 42% da população (35% a 37%), vantagem entre os menos instruídos (47% a 30%), que são 28% do da sociedade, e católicos (43% a 34%) que são metade do povo. Bolsonaro mantém vantagem entre os remediados (41% a 33%) que ganham entre 2 e 5 salários-mínimos, e são 34% da classe trabalhadora e, sobretudo, na classe média acima de R$7.500,00 reais (44% a 28%) que são 12% do eleitorado, embora a margem de erro da pesquisa nos dois segmentos seja de 6 pontos. Mantém vantagem no Sul (45% a 27%), que são 15% dos eleitores. A extrema-direita tem maioria entre os brancos e quem tem escolaridade média, além de diminuir a desvantagem entre as mulheres. Mas Lula tem 35% na pesquisa espontânea, menos 4% que na estimulada, e Flávio 26%, menos 10% que na estimulada, uma adesão menos consolidada, em um contexto em que 21% não fizeram sua escolha. Isso significa que há ainda um espaço grande de disputa. Aonde a votação de Lula pode crescer? O que a história dos últimos dez anos nos sugere é que será entre os trabalhadores, negros e mulheres, considerando que na classe média se consolidou um anti-lulismo ressentido. Devemos esperar, também, que uma parte dos 15% de preferências que se distribuem entre Cury, Caiado, Renan e Zema se deslocarão para Bolsonaro já no primeiro turno.


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