Não há outro lugar: um mundo em chamas
Publicado em: 24 de agosto de 2026
Mike Newbry
Traduzido por Anderson Santana, do Eol
A Colúmbia Britânica, no Canadá, é meu lar e, mais uma vez, está em chamas. Mais de 100 incêndios estavam ativos em toda a província quando a Colúmbia Britânica decretou estado de emergência.
Do outro lado da fronteira, Washington e Oregon também estão em chamas, com incêndios florestais se alastrando pelo oeste americano. Do outro lado do Atlântico, incêndios florestais devastam a França, a Espanha, a Grécia, a Croácia e a Alemanha.
E apesar de tudo isso, grande parte do debate público sobre as mudanças climáticas é insuficiente. Fala-se muito de carbono, mas quase nada sobre poder. E, se quisermos entender o poder que está levando o planeta a queimar, em algum momento teremos que falar sobre supremacia branca.
A supremacia branca não é apenas a crença de que uma raça é superior a outra. É um sistema de poder que determina quais relações com a terra importam, quais conhecimentos contam, para que serve a terra, quem tem o direito de extrair dela e quais vidas e comunidades podem ser sacrificadas para arcar com as consequências. É a lógica que permite que a prosperidade de alguns advenha da desapropriação, da exploração e do sofrimento de outros.
A grande pegadinha do Império era que o benefício ficaria no centro enquanto a consequência seria empurrada para a periferia.
Terras poderiam ser tomadas em algum outro lugar, florestas poderiam ser derrubadas em algum outro lugar, a água poderia ser envenenada em algum outro lugar, a poluição poderia ocorrer em algum outro lugar. As pessoas que arcariam com essas consequências poderiam ser pessoas indígenas, africanas, povos colonizados, racializados, pobres. Suas terras poderiam se tornar zonas de sacrifício para que outro lugar pudesse se considerar próspero.
Esse arranjo torna-se moralmente possível porque a supremacia branca já havia estabelecido que algumas vidas importam menos do que outras, e assim as zonas de sacrifício passaram a fazer parte de sua estrutura.
As Mudanças Climáticas Destroem a Possibilidade de Existirem Outros Lugares
As mudanças climáticas estão expondo os limites físicos do arranjo da supremacia branca porque o clima não obedece à mesma pegadinha geográfica.
NÃO EXISTE OUTRO LUGAR e a zona de sacrifício agora é planetária.
Porque o carbono não permanece apenas sobre a comunidade que o produziu, e o calor e a fumaça não reconhecem nenhum tipo de fronteira.
O fogo atravessa terras da Coroa, propriedades privadas, territórios indígenas, vinhedos, florestas, subúrbios e cidades turísticas sem reconhecer as distinções que os seres humanos criaram entre elas.
O sistema podia, um dia, colocar a mina e o rio envenenado em algum outro lugar, e as pessoas adoecidas pela exploração em outro lugar. Podia até transferir as consequências para outro tempo, fazendo das gerações futuras outra espécie de zona de sacrifício.
As mudanças climáticas estão desmoronando ambos os arranjos, e um mundo construído em torno da extração de benefícios, enquanto desloca as consequências, finalmente se deparou com uma consequência que não pode ser deslocada para sempre.
Não há nenhum lugar fora do sistema para onde os danos possam ser enviados para sempre porque a atmosfera não tem colônia.
A Moralidade que Criou a Crise ainda Define a Resposta
E esta é a parte que deveria ser muito mais perturbadora do que aparentemente é.
Mesmo com o colapso da ideia de um “outro lugar”, a moralidade que criou esta ideia permanece no comando e definea resposta.
Continuamos a proteger, em primeiro lugar, o crescimento, a extração e a rentabilidade, e pedimos às florestas, às comunidades e ao clima que se “adaptem”.
Sob a lógica da supremacia branca, o conhecimento europeu foi elevado à categoria de ciência, enquanto o conhecimento indígena foi rejeitado como algo folclórico ou supersticioso. A extração corporativa é enquadrada como desenvolvimento econômico, mas viver dentro dos limites ecológicos é tratado como atraso.
Portanto, tudo deve se ajustar à ideia de que o crescimento é “razoável” e a extração é “necessária”. Precisamos aprender a conviver com a fumaça e nos tornarmos resilientes, assim como as florestas. O governo precisa de melhores planos de evacuação e as cidades precisam se preparar para o calor. Em outras palavras, todos precisamos nos adaptar à economia, mas ela não precisa se responsabilizar pelos danos causados ao mundo.
E é por isso que a supremacia branca precisa ser entendida como algo maior do que o racismo em si. Ela normalizou um mundo no qual sempre se pode fazer com que alguém pague o preço. O racismo explícito tornou-se menos aceitável publicamente, mas a estrutura velada permanece: a prosperidade de alguns ainda pode advir da transferência de custos para outras pessoas e suas terras.
E esta é a conexão que muitos ainda relutam em fazer, mas que é crucial: continuamos permitindo que a moralidade que inventou a zona de sacrifício defina o que é considerado razoável.
Assim que realizamos essa conexão, as mudança climáticas deixam de ser apenas um problema ambiental que pode ser resolvido comprando um carro elétrico ou carregando um copo reutilizável. Elas se tornam uma questão de poder: a quem historicamente foi permitido tomar e quem foi forçado a conviver com o que sobrou?
E essa mesma hierarquia se torna visível após o início do incêndio, quando algumas pessoas se dirigem para uma segunda residência enquanto outras dormem em abrigos provisórios. As consequências permanecem radicalmente desiguais, porque a riqueza ainda compra mobilidade, segurança, filtragem de ar, atenção política e outro lugar para dormir.
Comunidades que são as menos responsáveis pela crise climática frequentemente continuam entre as menos protegidas de seus efeitos. Algumas comunidades exercem enorme influência política quando exigem proteção, enquanto outras passaram décadas pedindo aos governos uma infraestrutura básica.
E as comunidades indígenas são colocadas repetidas vezes na posição absurda de espectadores assistindo aos governos lutando contra paisagens que seus ancestrais sabiam como cuidar, enquanto são convidadas a voltar à conversa somente depois que o sistema dominante já falhou.
Muito antes de as mudanças climáticas se tornarem uma emergência anual, os povos indígenas de todo o continente já cuidavam das paisagens por meio de sistemas sofisticados de cuidado, incluindo práticas culturais e queimadas controladas.
Os governos coloniais chegaram e criminalizaram e desconsideraram muitas das práticas que haviam mantido essas paisagens.
Essa é uma das principais aberrações do colonialismo e um dos hábitos mais persistentes da supremacia branca: suprimir os sistemas de cuidado da terra por considerar inferiores as pessoas que os criaram, substituí-los pelos seus próprios sistemas e, em seguida, enfrentar uma crise de incêndios florestais intensificada por uma economia extrativista, descrevendo-a simplesmente como um desastre natural.
A supremacia branca ensina a desconfiar das pessoas que detêm o conhecimento necessário para viver de outra maneira, rompe a relação dos seres humanos com a terra e, então, nomeia-se a autoridade para decidir como repará-la. Enquanto não confrontarmos a supremacia branca como a lógica que fez a dominação parecer uma forma de governança responsável, permaneceremos presos ao mundo em chamas que ela construiu.
Anita Naidu é uma profissional humanitária internacional, engenheira e atleta profissional cujo trabalho se estende a movimentos de base e de linha de frente, bem como a instituições globais. Atua na interseção entre desigualdade sistêmica, justiça estrutural e conflitos globais, oferecendo expertise técnica e uma perspectiva decolonial a iniciativas de diferentes setores, inclusive àquelas que buscam compreender seu papel dentro de sistemas de poder. Seu trabalho investiga a arquitetura da injustiça, desafiando-a com clareza, cuidado e uma visão de transformação.
Original em There Is No Elsewhere: A World Burning









