Bolívia: a mobilização segue forte, um governo desesperado e um desenlace incerto


Publicado em: 6 de junho de 2026

Por Chantal Liégeois, do Esquerda Online

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Crédito @teleSURtv (X)
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Um país paralisado, após um mês de mobilizações, com cerca de cem bloqueios de estradas por todo o país. Mais de 2.200 caminhões-tanque carregados de combustível estão bloqueados nas estradas. A cidade de La Paz, sede do governo, está cercada: nem os caminhões de abastecimento de alimentos, nem os de combustível ou medicamentos podem entrar nela. A atividade econômica está fortemente perturbada em várias cidades do país, afetadas pelos bloqueios. Os preços dos alimentos, dos medicamentos e dos combustíveis atingiram níveis recordes e esses produtos estão agora em falta para a população urbana. As mobilizações concentram uma única reivindicação: a renúncia do Presidente.

O governo está encurralado e tenta, por todos os meios, encontrar vias de negociação para resolver os conflitos sem ter que recorrer ao estado de exeção, que sabe ser uma faca de dois gumes, pois corre o risco de jogar lenha na fogueira e provocar confrontos fatais com os manifestantes, semeando repressão e mortes, o que aceleraria uma renúncia então inevitável do Presidente.

No último fim de semana, o governo suspendeu a ordem de apreensão contra o líder da COB, Mario Argollo, para que ele pudesse convocar uma nova assembleia geral da COB. No entanto, a assembleia geral da COB, realizada no sábado, 31 de maio, decidiu dar continuidade às mobilizações e não comparecer às negociações.

O vice-presidente, Edmond Lara, um ex-policial que está em desacordo com o presidente há vários meses – suas prerrogativas constitucionais, aliás, foram restringidas, quase anuladas –, propôs organizar uma negociação em colaboração com a Igreja Católica no domingo, 1º de junho, às 15h, na presença do presidente. Mas as organizações sociais não compareceram a essa convocatória.

Uma semana após a revogação da Lei nº 1341 que limitava a ação das forças de segurança durante conflitos sociais, o presidente Rodrigo Paz encaminhou, em 3 de junho, ao Parlamento um novo projeto de lei sobre a regulamentação dos estados de exceção, que autoriza e regulamenta a intervenção das forças armadas e a polícia em conflitos, com o objetivo de desbloquear as estradas, ao mesmo tempo em que lhes concede imunidade em caso de mortes e feridos durante confrontos com as mobilizações. A intervenção das forças armadas em conflitos, acompanhada de imunidade para militares e polícias, equivale a conceder-lhes uma verdadeira “licença para matar”.  A lei foi aprovada pelo Senado e será debatida na Câmara dos Deputados neste sábado.

Ao longo da semana, soube-se da renúncia de três ministros do governo: o ministro da Defesa, o ministro do Trabalho e o ministro da Educação. O novo ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, que anteriormente era responsável pela luta contra as drogas, declarou: “Comigo, Evo até 13 de junho, na prisão ou morto”.

Na quinta-feira, 4 de junho, a mídia noticiou a ligação telefônica de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, ao presidente Rodrigo Paz, seguida por uma declaração do Departamento de Defesa, divulgada nas redes sociais do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Peter Hegseth, reafirmando um compromisso inabalável com a Bolívia e seu governo e classificando os manifestantes como narcoterroristas. O texto afirma: “Continuaremos a apoiar nossos parceiros do Escudo das Américas, como a Bolívia, para que os narcoterroristas sejam dissuadidos de lucrar com a morte e a destruição em nosso hemisfério.” Isso reforça as declarações da semana passada, quando os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho como narcoterroristas, presentes no Brasil, mas também na Bolívia.  No mesmo dia, o comandante geral do Exército do Sul dos Estados Unidos, Philip J. Ryan, visitou a Bolívia e se reuniu com representantes do governo, marcando assim uma nova etapa nas relações entre os dois países. O exministro da Defesa, Marcelo Salinas, considerou o encontro muito positivo, o que confirma o giro do governo de Rodrigo Paz, que se reivindica democrático, se alinhando totalmente sobre política intervencionista e fascista de Trump, sob o manto do Escudo das Américas.

No que diz respeito às mobilizações, que antes se concentravam no departamento de La Paz e na cidade de El Alto, se espalharam esta semana por todo o país. As denúncias de uma repressão crescente contra os líderes se multiplicam, assim como a criminalização contra os protestos (já são 4 mortos e 370 detidos), com um racismo exacerbado contra a população mobilizada de origem indígena, persecução às mulheres vestidas das saias tradicionais (polleras) e homens com ponchos

No que diz respeito às mobilizações, que antes se concentravam no departamento de La Paz e na cidade de El Alto, se espalharam esta semana por todo o país. As denúncias de uma repressão crescente contra os líderes se multiplicam, assim como a criminalização contra os protestos (já são 4 mortos e 370 detidos), com um racismo exacerbado contra a população mobilizada de origem indígena, persecução às mulheres vestidas das saias tradicionais (polleras) e homens com ponchos. Porém, as assembleias populares dos bairros urbanos, particularmente na cidade do El Alto, espalham os apelos à continuidade da mobilização assim como os pedidos de solidariedade internacional para defender os direitos humanos, frente ao estado de exceção anunciado.

Por sua vez, Evo Morales, ainda entrincheirado na região do Chapare, denuncia um plano da DEA chamado “Delta Ñ”, que visa prendê-lo e extraditá-lo para os Estados Unidos. Os porta-vozes populares informaram que o plano Delta Ñ é coordenado diretamente pelo coronel da polícia Edson Rojas, com o apoio político de agências norte-americanas.  A perseguição política contra Evo por parte do governo também se intensifica, com amplo apoio da mídia burguesa, acusando-o de ser o instigador dos bloqueios. Assim cresce a ameaça de ele ser preso, mais cedo ou mais tarde.

Perspectivas

O recrudescimento da repressão reforça a dinâmica de uma eventual declaração do estado de exceção, o que parece ser o cenário mais provável, assim que a lei sobre o estado de exceção, atualmente em debate no Parlamento, for aprovada. Existe o risco de um verdadeiro “banho de sangue”.

Durante este fim de semana prolongado de quatro dias, por ocasião da festa de Corpus Christi, quando se esperava uma trégua nas mobilizações, a repressão continua com a detenção de líderes sindicais e figuras populares, especialmente em La Paz, assim como ex-dirigentes do MAS que siguem apoiando a Evo, com o objetivo de enfraquecer os movimentos de protesto. Uma lista de 200 líderes está atualmente sendo alvo de investigações e processos judiciais. O recrudescimento da repressão reforça a dinâmica de uma eventual declaração do estado de exceção, o que parece ser o cenário mais provável, assim que a lei sobre o estado de exceção, atualmente em debate no Parlamento, for aprovada. Existe o risco de um verdadeiro “banho de sangue”. Na multitudinária assembleia geral das organizações comunitárias da cidade de El Alto, na quinta-feira, 5 de junho, a população convocou à resistência civil diante da possível proclamação do estado de emergência.

Apesar da falta de uma direção política unificada entre as diferentes organizações mobilizadas, o que permitiria levar a luta a um outro nível, derrubar esse governo incapaz e entreguista seria uma grande vitória para os movimentos sociais, na sua luta constante por melhores condições de vida e na sua luta histórica em defesa dos recursos naturais do país, contra a voracidade do capital e agora contra Trump e a extrema direita que pretendem submeter as maiorias populares para seu projeto fascista, a nível global.

Do lado dos movimentos sociais, a única reivindicação é a renúncia do presidente Rodrigo Paz, pelo não cumprimento das promessas eleitorais e por incapacidade a solucionar os problemas de abastecimento, de inflação e os conflitos gerados. Por enquanto, essa reivindicação não vem acompanhada de nenhuma proposta para o período pós-Rodrigo Paz. No entanto, trata-se de uma proposta que visa organizar novas eleições gerais no prazo de 90 dias, sem restrições quanto à apresentação de candidatos provenientes da base. Apesar da falta de uma direção política unificada entre as diferentes organizações mobilizadas, o que permitiria levar a luta a um outro nível, derrubar esse governo incapaz e entreguista seria uma grande vitória para os movimentos sociais, na sua luta constante por melhores condições de vida e na sua luta histórica em defesa dos recursos naturais do país, contra a voracidade do capital e agora contra Trump e a extrema direita que pretendem submeter as maiorias populares para seu projeto fascista, a nível global.

É, portanto, o momento para que a classe trabalhadora e os movimentos sociais de toda a América Latina e do mundo, bem como as organizações e os partidos de esquerda, ofereçam amplo apoio e se mobilizem em solidariedade ativa à luta do povo boliviano.


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