Pelo melhor banquete para jantar a extrema-direita


Publicado em: 6 de março de 2026

Por Luiza Foltran, Insurgência/PSOL; Clarissa Alves da Cunha, Subverta/PSOL e Henrique Iglecio, Resistência/PSOL

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Por Luiza Foltran, Insurgência/PSOL; Clarissa Alves da Cunha, Subverta/PSOL e Henrique Iglecio, Resistência/PSOL

Esquerda Online

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Compartilhe:
Ouça a Notícia:

O debate em torno da formalização do convite do PT para que o PSOL integre a Federação Brasil da Esperança em 2026 rendeu na Internet e será objeto de votação amanhã no Diretório Nacional do PSOL. 

Nosso ponto neste texto é a defesa de que diferentes receitas em um mesmo menu podem montar o melhor banquete para jantar a extrema direita.

O trunfo da extrema-direita é saber coesionar a diferença

A extrema-direita não opera como um bloco coeso institucional e não está em um único partido ou federação. Pelo contrário, seu crescimento também foi potencializado pela existência de muitas lideranças diferentes. Basta lembrar da última campanha para a prefeitura de São Paulo em que Pablo Marçal liderou uma direita mais radical contra-cultural e contribuiu para a reeleição do Ricardo Nunes, que contou com apoio do Jair Bolsonaro. O mesmo ocorreu nas eleições presidenciais do Chile e em Honduras, em que mais de um candidato reivindicava Donald Trump, há poucos meses atrás.

A extrema-direita ainda está se reorganizando após a derrota da sua tentativa de golpe e da prisão de Bolsonaro e, ainda assim, aparece nas pesquisas recentes como um fator qualitativo para a disputa de 2026. As tensões públicas entre Michele, Nikolas, Carlos, as disputas pela benção do Jair entre pré-candidaturas majoritárias estaduais, o triplo palanque com Caiado, Zema e Flávio Bolsonaro não alterou a projeção de que as eleições de outubro serão apertadas, mesmo se for entre Flávio Bolsonaro e Lula.

Só quem considera que as eleições serão fáceis para o Lula poderia desprezar o papel que pode cumprir um aliado como o PSOL no campo da esquerda, que estará na mesma coligação, cumprindo um papel de ala mais combativa.

O que teria acontecido se tivéssemos jogado diferente em 2022? 

O problema da relação de forças no Congresso Nacional é chave para a esquerda brasileira. A questão é que o debate atual sobre federações, lamentavelmente, não é um fator qualitativo capaz de reverter um quadro histórico: o voto do Lula Presidente sempre foi muito maior do que o voto dos parlamentares de toda a esquerda.

A hipótese de que uma federação única traria ampliações eleitorais para o PT e para o PSOL é frágil e não se confirmou no caso do PCdoB e do PV até aqui. Há muitos fatores para levar em consideração: as regras de quociente eleitoral, as sobras e a cláusula de desempenho individual.

Qualquer exercício especulativo deve levar em conta que não seria possível somar os resultados de 2022 que as duas federações de esquerda tiveram: passaríamos de 1080 candidaturas para 540 em uma federação única. Além disso, a Rede Sustentabilidade já deixou nítido que não integraria uma federação com o PT.

Ainda assim, aceitando o terreno hipotético que foi lançado ao debate, caso somássemos mecanicamente as votações da Federação PT/PCdoB/PV com os votos do PSOL de 2022, não haveria alteração nas bancadas federais de SC, PR, ES, PA, BA, MG e RJ. Seja porque a soma de votos não foi suficiente para atingir um novo quociente, seja porque a distribuição das sobras já favorecia a esquerda no limite possível.

Além disso, há que se levar em conta a concorrência “interna” dentro de cada federação. O partido com mais deputados e recursos financeiros prevalece sobre os demais. No caso de São Paulo, dois deputados federais do PSOL que hoje cumprem um papel exemplar no Congresso Nacional não seriam eleitos porque, individualmente, fizeram menos votos que os suplentes da Federação Brasil da Esperança.

Pluralidade e distribuição territorial 

A tese de quem defende a federação única entende que a redução no número de candidaturas seria compensada pelo crescimento da bancada. Dificilmente. A redução do número total de candidaturas – de 1080 das duas federações para 540 em uma federação única – impacta principalmente as candidaturas territoriais, que são disputadas palmo a palmo com o conservadorismo. O Brasil é um país continental com realidades muito distintas, nossa hipótese é que a redução tenderia a dispersar os votos territoriais da esquerda, não a concentrar.

Considerando que o bolsonarismo indicará nomes para campanhas majoritárias através do PL, União Progressista (União+PP), Republicanos, MDB e PSD, podemos considerar que o combate na base envolverá entre 2160 e 2700 candidaturas na base deles espalhados por todo Brasil. É muito arriscado pressupor que, ao diminuir a cobertura territorial, estaremos à altura de enfrentar um corpo quatro ou cinco vezes maior. 

A construção de um novo bloco histórico

Reivindicamos o conceito de bloco histórico de Gramsci nas suas três dimensões: a disputa pela hegemonia ideológica e de valores culturais; de estrutura econômica e de classe dominante; e seus reflexos jurídico-políticos-institucionais. Para a construção de um novo bloco histórico, é imprescindível o desenvolvimento da luta de classes.

O debate sobre as federações, portanto, está em outro nível mais modesto porque diz respeito às melhores condições jurídico-políticas para os partidos institucionalmente mais relevantes da esquerda brasileira irem para a disputa  eleitoral de 2026. A esse respeito, embora as experiências do Chile e do Uruguai sirvam de inspiração política, elas não se aplicam ao cenário brasileiro. São países menores e que possuem legislações distintas, onde as prévias são requisitos eleitorais regulados pela justiça eleitoral daqueles países, e não escolhas políticas.

Em nosso caso, há muitas razões para temer que o PT, como o partido hegemônico, não abra mão do seu poder em uma federação única, mesmo quando o PSOL disponha de excelentes nomes para a disputa eleitoral. É, nesse sentido, que o instrumento da federação ainda se resume a um mecanismo de amarras institucionais que restringe acomodações táticas necessárias, estabelecendo que os integrantes atuem como um único partido político.

Para a saúde das relações orgânicas no interior da esquerda brasileira, será muito mais proveitoso estarmos lado a lado, para citar um exemplo, com os companheiros do PT Rio de Janeiro no Plebiscito Popular pelo fim da escala 6X1, na luta pela taxação dos super ricos ou na solidariedade internacionalista à Cuba e Venezuela, do que amarrados em uma campanha de primeiro turno com Eduardo Paes e o PSD.

Para a construção de um novo bloco histórico, é imprescindível a derrota da extrema direita. Esse é o primeiro passo. Nessa luta, faz a diferença existir uma esquerda plural e diversa, mas com capacidade de unidade. O debate sobre manter a Federação PSOL/Rede se pauta por isso: a unidade na diversidade a serviço de uma batalha maior e que realmente importa.


Compartilhe:

Contribua com a Esquerda Online

Faça a sua contribuição