Carta n.º 7 sobre conjuntura: a Venezuela é quem amanhã?
Publicado em: 31 de janeiro de 2026
Por Fábio José Queiroz
Cearense, marxista, graduado em história, mestre e doutor em sociologia, professor associado da URCA (Universidade Regional do Cariri). Há mais de 40 anos milita sob a bandeira do trotskismo. É militante da Resistência, corrente interna do Psol. É autor, entre outros livros, de "1964: O dezoito de brumário da burguesia brasileira" (2015)
Por Fábio José Queiroz
Fábio José de Queiroz
CELAG/DATA
Neste texto, a partir de um horizonte histórico mais extenso, intento examinar a conjuntura política à luz do ataque estadunidense à Venezuela e do sequestro da deputada Cília Flores e de seu esposo, Nicolás Maduro, presidente da república bolivariana, considerando que mais de três semanas já nos separa dos funestos acontecimentos.
A HISTÓRIA NÃO EXPLICA A CONJUNTURA, MAS AJUDA A ENTENDÊ-LA
A história da Venezuela se ampara em uma palavra: singularidade. O território venezuelano foi o primeiro da América do Sul a declarar a sua independência do domínio espanhol, precisamente em 1811, malgrado as oscilações posteriores.
Além disso, constituída em Estado nacional independente, a Venezuela foi a primeira nação sul-americana a sofrer um bloqueio portuário e alfandegário no século XX, ocorrido entre fins de 1902 e início de 1903, que juntou Reino Unido, Alemanha e Itália.
Nesse contexto, o presidente estadunidense Theodore Roosevelt reinterpretou a chamada Doutrina Monroe: era o corolário Roosevelt para Doutrina Monroe (1904), em que “América para os americanos” significaria não mais que o continente americano como área de influência dos Estados Unidos da América (EUA). A partir disso, ao longo das primeiras décadas do século XX, uma série de países centro-americanos – a exemplo da Nicarágua, de Cuba, da República Dominicana e de El Salvador – sofreu invasão de tropas estadunidenses.
Essa situação só cessou com a aproximação da Segunda Guerra Mundial, no marco da chamada “Política da Boa Vizinhança”. Contudo, findada a guerra, esse interregno de não intervencionismo deu lugar a um novo ciclo de ofensiva dos EUA contra os países e os povos do continente americano. Nos anos 60, 70 e 80 do século passado, no rastro do maior acontecimento da história latino-americana no século XX, a Revolução Cubana, “o pressuposto da hegemonia” dos EUA, no marco de suas relações com a América Latina, se traduziu nas ferozes ditaduras de expressão militar.
À primeira vista, a Venezuela esteva fora desse projeto militarista, mas é preciso recordar que a primeira ditadura policial-militar de expressão, logo depois da 2.ª Guerra, surgiu exatamente na Venezuela, a partir do golpe de Estado liderado pelo general Marcos Pérez Jiménez. Nesse caso, a ditadura militar se estendeu por 10 anos, de 1948 a 1958.
A VENEZUELA: DO “PACTO DE PUNTO FIJO” AO ADVENTO DO CHAVISMO
A partir de 1958, os principais partidos burgueses, à luz do Pacto de Punto Fijo, um acordo à margem do povo venezuelano, organizaram uma estrutura de poder tão vigorosamente conservadora e oligárquica, que não houve necessidade de se estabelecer um sistema de poder militar, tal como se deu na maioria absoluta dos países da América Latina e do Caribe. Efetivamente, esse pacto se prolongou por cerca de quatro décadas, e o começo do fim desse ciclo político ocorreu com o chamado “Caracazo” (1989), uma insurreição popular que pôs abaixo o consenso pelo alto construído pelos grupos políticos oligárquicos.
Aqui cabe um parêntese. Ao fim do ciclo militarista, na América do Sul, e do “Punto Fijo”, na Venezuela, o imperialismo buscou submeter os países da Nuestra América aos ditames do Consenso de Washington, um conjunto de diretrizes político-econômicas de caráter neoliberal. Assim, o neoliberalismo abrangeu todo continente, avançando na desnacionalização, na liberalização e na privatização das economias locais.
Paradoxalmente, enquanto o Peru ainda vivia sob a autocracia neoliberal de Fujimori, o ex-justicialista Menem liquidava com os últimos resquícios da economia nacional argentina e Fernando Henrique Cardoso (FHC) fazia algo parecido a isso no Brasil, em 1998, o povo venezuelano elegeu Hugo Chávez como presidente da República, que tomou posse em 1999, descerrando um novo ciclo histórico no país, que já se estende por mais de um ¼ de século.
CHAVISMO: DA CHEGADA AO GOVERNO AO SEQUESTRO DE MADURO
Hugo Chaves governou a Venezuela de 1989 até sua morte, em março de 2013, dando origem a um movimento político à sua volta, o chamado Chavismo. Identificado com o “Socialismo do século 21”, o Chavismo, embora tenha realizado reformas de conteúdo popular que não devem ser menosprezadas, não avançou para a expropriação da burguesia, para a industrialização e para a diversificação da economia, muito menos para nacionalização do comércio exterior, medidas transicionais, de certo modo, básicas e necessárias.
Indubitavelmente, tanto Hugo Chaves como Nicolás Maduro mantiveram o Estado nacional venezuelano fora do velho controle norte-americano, o que, sem dúvidas, provocou a ira dos diversos governos imperialistas da terra do “Tio Sam”, fossem eles democratas ou republicanos. É aqui que chegamos aos fatos cuja manifestação mais visível foi a chamada “Operação Resolução Absoluta”, realizada pelos Estados Unidos contra o povo e o governo venezuelanos, em 3 de janeiro de 2026, redundando no sequestro de Cília Flores e do presidente Nicolás Maduro.
Esse fato foi preparado por outros tantos: a tentativa fracassada de golpe contra Chávez, em 2002, a onda de mobilizações reacionárias que se seguiu à escassa vantagem eleitoral de Maduro contra Henrique Capriles na eleição de abril de 2013, pouco mais de um mês após o óbito de Chávez; a política cotidiana e sistemática de desestabilização do governo Maduro, que alcançou o seu ponto de maior intensidade em 2017; a tentativa de forças hostis de ingressarem sorrateiramente no território venezuelano em fins de fevereiro de 2019, logo depois da posse do Bolsonaro no Brasil, seguida de outra investida, agora expressamente militar, também malsucedida. Isso tudo foi gestado dentro da estratégia imperialista que integra a opressão colonial e o sufocamento financeiro, caracterização que, de fato, é consensual entre nós marxistas.
Essa combinação infernal, aliás, explica, em larga medida, a crise social e econômica da Venezuela, que, de certo modo, já arrefeceu, mas que, independentemente disso, produziu uma explosão migratória como jamais observada na história dessa república sul-americana.
O CENÁRIO POLÍTICO PÓS-ATAQUE DE 3 DE JANEIRO DE 2026
O mundo vive as semanas que se seguiram aos sequestros do Maduro e da Cília Flores. Ainda há muita confusão e muitas perguntas. Como o imperialismo conseguiu efetuar tão rapidamente os referidos sequestros? Teria ocorrido, tal como à época da conquista espanhola e mesmo nos primeiros anos de luta pela independência e formação das nações latino-americanas, alguma colaboração de natureza interna, para além das indiscutíveis vantagens militares e cibernéticas do imperialismo ianque? Depois da Venezuela e do impacto que isso teve em escala mundial, os EUA seguirão se arrogando o direito de castigar as repúblicas latino-americanas e caribenhas? Se sim, isso começará pela Colômbia, pelo México ou por Cuba (como parece mais lógico)? O mundo assistirá bestializado um Estado imperial empregando um poder de polícia internacional de modo tão descarado? (Fala-se do Irã como próximo alvo, e até da Groelândia).
Há um fator que explica o ataque começar pela Venezuela, uma vez que nela se concentram vários elementos que não podem ser desprezados, tais como a existência de um governo relativamente insubmisso ao imperialismo, um país em que a burguesia não foi expropriada, mas que ousa se apresentar como independente, próximo da Rússia e da China, a quem os EUA querem ver longe do mal denominado hemisfério ocidental, no marco da defesa da economia e da diplomacia do dólar e do controle dos recursos naturais da região, a exemplo do lítio e do petróleo, bem como do pressuposto de que essa é uma área de influência do “Colosso do Norte”. Logo, o discurso de democracia versus ditadura é só um artificio para preparar e realizar o que foi executado no dia 3 de janeiro.
Nesse cenário, como o governo de Delcy Rodríguez se equilibrará na corda bamba de sombrinha? Trump seguirá descartando Edmundo Gonzalez e Maria Corina Machado? Como tratar as eleições no Peru, e, particularmente, na Colômbia e no Brasil, agora em 2026, sabendo que o imperialismo estadunidense tentará influir decisivamente sobre esses processos?
Essas são algumas questões que deixo aqui para que a discussão possa ter continuidade, neste blog ou em outros espaços. De imediato, tal como vem defendendo alguns movimentos sociais, é preciso exigir imediatamente a liberdade de Nicolás Maduro e de Cília Flores e denunciar amplamente o caráter colonialista e imperialista das ações dos EUA na Venezuela (e na América Latina de conjunto).
POR FIM …
Os EUA constituem um imperialismo decadente, porém, ainda representam a mais poderosa máquina de guerra do mundo, e vão lutar, por todos os meios, para sustentar essa ordem que, dentre outras coisas mais, se ampara no monopólio da única moeda de grandeza internacional.
Da nossa parte (refiro-me aos povos subalternos), sabemos que, a priori, um mundo melhor não está garantido, até porque a história não promete e não jura nada, mas lutar por um mundo melhor é uma necessidade cotidiana e estratégica, e o caso da Venezuela, em lugar de diminuir essa tarefa, a eleva acima de toda e qualquer outra.
À pergunta “A Venezuela é quem, amanhã?”, a resposta só pode ser uma: qualquer um(a), até porque, quando imperialismo e fascismo se juntam, ninguém está a salvo, e por isso, para os socialistas consequentes, mais do que nunca, a luta contra esses gêmeos conjugados está na ordem do dia.
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