Estamos sendo mortas como moscas, nos precisamos vivas como nunca


Publicado em: 31 de janeiro de 2026

Por Dani Conte, de Porto Alegre

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Arte: Wagner Magalhães/G1

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Estamos sendo  mortas como moscas. Essa é a única frase que descreve a epidemia de feminicídios que vive o Brasil. No Rio Grande do Sul, uma mulher foi assassinada a cada dois dias no mês de janeiro, quase todas com facadas, o que sublinha a motivação de gênero. Talvez possamos considerar que não há nenhuma novidade até aqui. 

O que mudou nesse cenário é a intervenção da extrema-direita. No 8 de março de Porto Alegre, partidos com PL e NOVO estão na organização de um ato contra os feminicídios, que ocorrerá no mesmo dia que o ato da esquerda, o próprio 8 de março.  Usando como ponto de partida (Esquina Democrática) e chegada (Parque da Redenção) locais historicamente associados às manifestações da Esquerda da cidade desde a Ditadura, e reproduzindo a estética das cores feministas nas artes de convocação.

O candidato ao governo do estado, deputado federal Zucco, do PL, entrou no debate com um vídeo com a consigna “Chega de luto, é preciso coragem”. Uma frase vazia, mas que prepara o território para o processo eleitoral.   A ausência de proposta concreta de Zucco não se contradiz com o aspecto mobilizador da mesma. O prefeito Sebastião Mello também se inseriu no debate com um chamado à romper o ciclo de violência. Vídeos coordenados, com poucas horas de intervalo um do outro. A deputada Delegada Nadine (PSDB), ex-chefe de polícia do Estado, apresentou projeto na ALRS para que as mulheres possam acessar os dados judiciais das pessoas com quem se relacionam. Uma política que individualiza o problema, que fere um conjunto de direitos de proteção de dados pessoais e que só tem efeito para a agitação de uma lógica policialesca, de endurecimento penal, sem combater a raiz da violência que é estrutural. 

Alguns setores progressistas viram a proposta com bons olhos. No meio do caos e da violência diária, das notícias de mais uma assassinada a cada abrir de olhos,  o primeiro efeito pode ser de suposta proteção. Contudo não podemos perder o foco de que a violência de gênero é estrutural e é apoiada por esses partidos, que invalidam as pautas históricas das mulheres, que alimentam a misoginia e a LGTBfobia. Mas o que os move, afinal? 

Desde as eleições de 2022, quando as pesquisas demonstraram que foram as mulheres de diferentes classes e religiões que produziram um “cordão sanitário” ao avanço da extrema-direita, há um giro deste setor para a disputa político-programática das mulheres. Potencializados pelas igrejas e pelos algoritmos, não apenas pautas conservadoras foram levantadas. Embora a volta do imaginário das “esposas-troféu” tenha dominado a indignação das feministas, o que passou por baixo disso é ainda mais grave. 

Michele Bolsonaro foi responsável por girar o Brasil apresentando as pautas conservadoras e mobilizadoras da base bolsonarista, organizando mulheres e fazendo crescer o PL Mulher. Num combate ideológico às feministas, apresentou a renovação de ideias conservadoras (como a submissão das mulheres a Deus e aos maridos) ao mesmo tempo se apropriou de pautas históricas do movimento feminista, como o direito ao trabalho, à realização pessoal, à evolução profissional, e reforçou o estereótipos como a oposição “indelével” entre as mulheres que se cuidam e se apresentam bem vestidas e maquiadas aos olhos de Deus e de seus maridos (de direita), contra aquelas que não tem autocuidado e afrontam o destino natural da maternidade, do casamento, da família (de esquerda). A pauta antiaborto voltou com força, inundando de fakenews grupos de whatsapp e direitos básicos de aborto legal, consolidados há 30 anos no país, foram fortemente atacados e até mesmo desmontados em estados governados pelo PL e bolsonaristas de outros partidos. 

Enquanto isso, a esquerda vive seus dilemas de sempre: intermináveis discussões em disputa pelo programa máximo nos materiais, eixos de ato que mais parecem teses, disputa fracional entre os coletivos de mulheres. A ação auto proclamatória parece expressar a falta de profundidade na caracterização do que é o neofascismo no Brasil. As figuras públicas homens devem entrar com força no debate, não apenas em solidariedade, mas convocando os homens a romperem com o ciclo de violência, que se responsabilizam pela condescendência.  A necessidade de um programa claro que apresente respostas reais ao machismo estrutural é, consequentemente, retórica. Precisamos avançar no combate às ideias que mascaram a realidade. 

Os atos do 8M da esquerda têm que dialogar com as mulheres não organizadas em coletivos políticos. É hora de denunciar o assassinato e todas as perdas que tivemos e de celebrar a vida. Nossos atos não podem ser marchas fúnebres. Precisam mostrar que a luta política não reproduz as agruras da vida cotidiana e que ela tem espaço para a alegria. Nosso projeto não é apenas lembrar nossos mortos, mas de celebrar todas nós que seguimos vivas. É preciso pensar além da forma que sempre fizemos e construir um laço com aquelas que estão fartas da violência e que mal sabem disso e o março feminista precisa ser o cotidiano feminsita. Acolher e abrir caminhos. Nosso programa é encontrar nessa relação a vida que queremos ter. 


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