Cumplicidade global: quem está matando no Congo?
Publicado em: 2 de janeiro de 2026
Blaise-Pascal MUHEKA – CC0
Nos últimos anos, mais pessoas em todo o mundo começaram a encontrar imagens do sofrimento do Congo em seus celulares: uma criança saindo de uma mina de cobalto, um túnel desabado, famílias fugindo da violência. Vídeos virais de comunidades deslocadas e relatos de assassinatos em massa circulam em nossas telas. Entretanto, mesmo com o aumento dessa visibilidade, o que permanece quase inteiramente invisível é a completa dimensão da crise e a conexão direta entre essa violência e os próprios dispositivos pelos quais a testemunhamos.
A devastação no Congo não é uma falha local, mas o resultado lógico de um sistema econômico global que lucra com o extrativismo, a militarização e o silêncio. O mundo pode estar acompanhando o Congo mais do que antes, mas ainda se recusa a se enxergar nessa história.
A República Democrática do Congo (RDC) [1], localizada no coração da África, é o segundo maior país do continente e está entre os mais ricos em recursos naturais. Entretanto, por décadas, seu povo tem sofrido com violência implacável, deslocamentos em massa, pobreza e devastação ambiental. Desde o domínio colonial, a riqueza mineral do Congo tem sido sistematicamente explorada pelas potências estrangeiras e interesses corporativos, com a independência remodelando – mas nunca acabando – estas estruturas extrativistas. A crise de hoje é, portanto, a continuação de uma longa história de pilhagem. A extração de recursos para os mercados globais continua sendo um motor central de instabilidade, levando atores locais, regionais e internacionais a competir pelo controle. Mais de 100 grupos armados operam agora no leste do Congo, muitos financiados pelo comércio ilegal de minerais, tornando a imensa riqueza do país em uma arma contra seu próprio povo.
A crise atual
A contradição entre o progresso tecnológico e a devastação humana não é acidental Ela define a atual crise na RDC. Atualmente, a RDC fornece ao mundo muitos recursos naturais, tais como cobre, cobalto, coltan, lítio, ouro e diamantes, muitos dos quais são usados em eletrônicos, veículos elétricos, baterias e tecnologias de energia verde. Os data centers de inteligência artificial estão aumentando cada vez mais a demanda por cobalto e outros minerais.
Controlar tais recursos é, portanto, crucial: a RDC detém 70% das reservas mundiais de coltan e mais de 50% de cobalto, o que significa que quem domina o Congo domina o futuro da tecnologia.
Ao invés de distribuir a prosperidade, a extraordinária riqueza mineral do Congo tem produzido uma “maldição dos recursos”. A competição por coltan, cobalto, ouro e diamante leva a conflitos violentos, forçando os mineiros, muitas vezes crianças, a trabalhar em condições brutais e inseguras, enquanto as florestas são desmatadas e os rios contaminados na corrida por lucro. Em novembro de 2025, dezenas foram mortos quando uma ponte em uma mina desabou, uma tragédia que ilustra como a extração prossegue com total desrespeito pela vida humana. Como os ricos depósitos estão nas províncias do leste, estes territórios têm se tornado o epicentro da militarização, onde grupos armados, milícias e até mesmo forças do Estado lutam pelo controle, enquanto comunidades são destruídas e aterrorizadas.
A destruição ambiental aprofunda a crise: as florestas são desmatadas para se chegar aos depósitos minerais, a mineração libera grandes quantidades de carbono e dióxido de nitrogênio, e os resíduos tóxicos da mineração envenenam rios e lagos, destruindo a agricultura e a pesca, os meios pelos quais as pessoas sobrevivem.
As consequências humanitárias são catastróficas. Em 2025, havia mais de 6,9 milhões de pessoas deslocadas internamente, o maior número na África, 1,2 milhões de refugiados em países vizinhos e 28 milhões de pessoas sofrendo de desnutrição. Além disso, mais de 3 milhões de pessoas no leste do Congo estão em situação de emergência por causa da fome. As crianças de apenas cinco anos trabalham em minas artificiais perigosas, cavando com as mãos, inalando poeira tóxica e correndo o risco de sufocamento ou de serem soterradas em desabamentos de túneis. A violência sexual relacionada aos conflitos afeta milhares de pessoas, com cerca de 40% das vítimas de violência sexual sendo crianças. Grupos armados estão cometendo estupros coletivos, sequestros, ataques a hospitais e detenções ilegais, abusos que podem constituir crimes de guerra. Não se trata simplesmente de um conflito ocorrendo perto de minerais; é um sistema no qual os minérios financiam o conflito e o conflito facilita o roubo dos minerais.
A cumplicidade global
Para compreender o motivo desta violência persistir, é necessário observar além das fronteiras do Congo. O que acontece na RDC não é apenas um conflito local ou regional, mas um projeto transnacional sustentado por estados e mercados para além de suas fronteiras.
- Envolvimento regional: Países vizinhos permanecem como atores centrais no conflito em curso na RDC ocidental, conduzindo intervenções militares estratégicas e extração ilegal de recursos. Conforme um relatório de 2025 de especialistas da ONU, Ruanda exerce “direção de fato e controle efetivo” sobre o grupo armado M23. Os recrutas são treinados sob a supervisão de Ruanda e apoiados por armamento ruandês de alta tecnologia, tornando o Estado ruandês responsável pelas ações do grupo, incluindo a tomada de territórios e a pilhagem de minerais. Curiosamente, Ruanda é frequentemente apresentado como o fornecedor de minerais enquanto possui poucas reservas próprias. Muitos relatórios mostram que minerais, especialmente coltan e outros recursos críticos, são frequentemente contrabandeadas para Ruanda, levados em cadeias de abastecimento e reexportados como de origem “ruandesa”.
Além disso, Uganda tem aproveitado as redes de contrabando de fronteira para lucrar com ouro e outros minerais, muitas vezes associadas com as rotas de tráfico das milícias. Especialistas da ONU apontam que Uganda também tem fornecido armas, acolheu líderes rebeldes e permitiu movimentos de fronteira de combatentes do M23. Ainda, as Forças Democráticas Aliadas, lideradas por Uganda, mataram pelo menos 40 pessoas, a maioria delas mortas a golpes de machado, em um funeral em setembro. Esta é apenas uma pequena amostra do que foi documentado recentemente.
Burundi está envolvido de modo parecido. Um relatório da ONU demonstra que ouro também tem sido contrabandeado da RDC para Burundi. Além disso, a Força de Defesa Nacional de Burundi também foi deslocada para a RDC, apesar de tal fato ter sido negado pelo quartel-general militar da RDC. Um outro relatório da ONU alertou que as forças militares de Burundi estavam envolvidas com o exército congolês na luta contra o M23 e os soldados ruandeses, exacerbando as tensões regionais.
Ruanda, Uganda e Burundi transformaram os minerais do Congo em dinheiro e, fazendo isso, transformaram suas fronteiras em corredores de violência.
- Israel e a indústria de diamante: atores externos para além da África também lucram com a exploração congolesa. Israel tem uma das maiores indústrias de diamante no mundo, apesar de não ter reservas domésticas. Seu setor de polimento depende fortemente dos diamantes de países africanos como a RDC. Os lucros da extração desses diamantes permitem diretamente a ocupação e o genocídio na Palestina, já que financiam, por exemplo, drones, bombas e software usados na Palestina. Nesse sentido, o lucro dos recursos congoleses ficam envolvidos em estruturas mais amplas de ocupação e repressão.
Empresários ligados a Israel têm desempenhado um papel significativo nesse setor, principalmente Dan Gertkler, que assegurou extensas concessões de minerais e diamantes na RPC, graças ao que as sanções dos EUA descrevem como “centenas de milhões de dólares” em corrupção e suborno político, privando o Estado congolês de mais de 1,36 bilhões de dólares em receitas públicas. A dependência de longa duração de Israel dos diamantes brutos africanos e suas parcerias econômicas, especialmente por meio dos Emirados Árabes Unidos, que agora são o maior centro comercial de diamantes brutos do mundo, criam laços financeiros entre a exploração do Congo e a ocupação da Palestina. Além disso, o que parecem ser armas fabricadas em Israel têm sido encontradas entre vários grupos armados na RDC.
- A cumplicidade ocidental: os governos ocidentais e as instituições financeiras internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, também sustentam estruturas que permitem a exploração de recursos. Por meio de acordos comerciais, garantias de investimentos, cooperação de investimento, ajuda em matéria de segurança e pacotes de ajuda, eles estabilizam os regimes extrativistas. Acordos comerciais e vendas de armas concentram a riqueza no Norte Global, enquanto distribuem mortes no Sul Global. As políticas tidas como “boa governança” frequentemente se tornam reformas neoliberais, desmantelando os serviços públicos e abrindo os mercados locais para a extração estrangeira. Além disso, a União Europeia tem um acordo mineral com Ruanda e, portanto, está conscientemente permitindo que Ruanda e o M23 se beneficiem da exploração ilegal de minerais da RDC. A União Europeia e seus Estados-membros também vendem armas à Ruanda, o que pode acabar contribuindo com as operações militares de Ruanda no Congo, tornando a União Europeia cúmplice.
O “acordo de paz” mediado pelos EUA em junho de 2025 entre a RDC e Ruanda é, em primeiro lugar, um acordo sobre os minerais e uma oportunidade possível para a paz. Mais uma vez, priorizando o lucro em detrimento da vida de milhões de congoleses.
- Corporações multinacionais: grupos armados locais e regionais não operariam na RDC sem o acesso aos mercados internacionais. As empresas multinacionais e os mercados globais fornecem bens e serviços, proporcionam saídas para o mercado, pagam impostos, taxas de licenciamento e pagamentos de “proteção”, fornecendo aos rebeldes e senhor da guerra o dinheiro necessário para sustentar a violência. As empresas têm tratado os territórios controlados pelo exército como Estados soberanos, usando os comandantes locais como intermediários para o comércio ilícito, minando a soberania congolesa, enquanto fortalecem o controle dos rebeldes sobre o território.
A Global Witness relata que a empresa europeia de comércio de commodities Traxys comprou centenas de toneladas de coltan em 2024, provenientes de minas controladas por grupos armados no leste do Congo, que foram desviadas por meio de redes de contrabando de Ruanda. Esses acordos corporativos, contratos, negócios, apoio logístico e canais de exportação servem para financiar e fortalecer os próprios atores que impulsionam a violência. Como muitas empresas operam na RDC, inseridas em cadeias de abastecimento globais vastas e deliberadamente opacas, é quase impossível mapear todos os elos da cadeia. Entretanto, o efeito é inconfundível: as empresas tornam a guerra lucrativa, enquanto se escondem por trás da opacidade, fornecendo o capital, mercados e infraestrutura que permitem aos grupos armados continuar extraindo, matando e governando.
- Consumidores finais: no extremo final desta cadeia global encontram-se milhões de consumidores cujas compras diárias os ligam, ainda que inadvertidamente, ao sofrimento congolês. Smartphones, notebooks, veículos elétricos, painéis solares e tecnologias aeroespaciais, todas dependem de cobalto, coltan, estanho e ouro, minerais extraídos no leste do Congo, sob condições de extrema violência. Esses consumidores, muitas vezes inconscientes das origens das matérias-primas, se tornam participantes em um sistema em que as violações dos direitos humanos, a degradação ambiental, o trabalho forçado e violência em massa estão incorporados nas cadeias de suprimento globalizadas.
Quando a sociedade celebra as últimas inovações tecnológicas ou avanços em energia limpa, muitas vezes ignora a realidade sombria por trás dos materiais que as tornam possíveis. A menos que haja uma demanda séria por transparência, fornecimento ético e responsabilidade na cadeia de abastecimento, o consumo no Norte Global continuará a perpetuar e lucrar com o sofrimento das comunidades no Sul Global.
Para além do Congo: um padrão global
O Congo não é um caso isolado. Toda nação que sofre um conflito extremo ou um genocídio possui recursos cobiçados pelo Norte Global: o Congo tem cobalto e coltan, Casa possui reservas de gás ao longo de sua costa [30], o Sudão possui ouro e petróleo, a Papua ocidental possui cobre e petróleo bruto. Tais conflitos não são lutas “étnicas” isoladas, assim como a mídia ocidental frequentemente gosta de retratá-las. Elas são expressões diretas da violência estrutural do capitalismo global, que constantemente precisa se expandir, explorar e destruir para manter a lucratividade.
A crise na RDC, no Sudão e na Palestina são, portanto, parte de um sistema global compartilhado, não de tragédias isoladas. Em todos os casos, a vida das pessoas no Sul Global estão subordinadas à lucratividade do capital no Norte Global. Fronteiras, armas e sanções funcionam como ferramentas que protegem a riqueza enquanto distribuem a morte. Apesar da União Europeia e dos Estados Unidos se apresentarem como os defensores da democracia e dos Direitos Humanos, eles permanecem profundamente cúmplices dos genocídios em andamento e atrocidades em massa: financiam regimes autoritários, vendem armas, assinam contratos extrativistas e forçam políticas migratórias que punem as verdadeiras vítimas da violência que ajudaram a produzir. Novas potências regionais, incluindo os estados do Golfo, operam como potências imperialistas emergentes, comprando os governos e milícias para garantir acessos a recursos, enquanto instituições como o FMI e o Banco Mundial impõem reformas neoliberais e reforçam a pobreza e a desigualdade. Em conjunto, essas forças formam uma máquina global de dominação que transforma o sofrimento de milhões de pessoas na engrenagem da acumulação capitalista.
Do Congo à Gaza, do Sudão à Papua ocidental, a mesma lógica da exploração d e da violência motivadas pelos recursos prevalece: uma ordem mundial na qual populações inteiras são sacrificadas para que as corporações e Estados possam se empanturrar co o que se encontra sob suas terras.
Portanto, a crise na RDC não é uma tragédia distante, mas um pilar central da moderna economia global. A extração de minerais por meio da violência, trabalho infantil e a destruição ecológica empoderam as tecnologias e as transições de energia verde celebradas como progresso no Norte Global. Este sistema não se encerrou com o colonialismo; evoluiu para uma rede global de Estados, empresas e mercados que continuam a tratar as vidas dos congoleses como dispensáveis.
E a ironia mais cruel é esta: muitos de nós acabaremos lendo sobre os horrores do Congo em dispositivos que foram construídos com minerais que sustentam tais horrores. Nós assistimos o sofrimento do povo congolês por meio de telas alimentadas pela sua exploração.
Enquanto esta contradição não for enfrentada, enquanto as pessoas não forem colocadas acima do lucro nada mudará. O Congo permanecerá como o fundamento oculto de um sistema global que se autodenomina progresso, enquanto milhões de pessoas continuam a pagar pelo progresso com suas vidas.
Nota
[1] É importante acentuar a existência de dois países chamados Congo devido ao rio Congo, que atravessa ambos: a República Democrática do Congo (antes chamada de Zaire, ex-colônia belga), o país centro-africano mais extenso e o segundo no continente; e a República do Congo (ex-colônia francesa). No final do século XIX, as potências europeias dividiram o continente africano sem levar em conta as etnias e populações locais, assim ambos países compartilham do mesmo nome e localização geográfica. (Nota do tradutor)
Traduzido de https://www.counterpunch.org/2025/12/23/global-complicity-who-kills-in-the-congo/ por Paulo Duque, da equipe do Esquerda Online
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