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Sobre os ataques do PCBR ao VAT
Publicado em: 31 de março de 2025
Em texto publicado no dia 25/031, Theo Dalla — dirigente do PCBR — levanta sérias acusações contra o VAT e a Resistência. Aqui buscamos demonstrar a ausência de provas para suas acusações, evidenciando tratar-se de um ataque baseado em distorções e manobras argumentativas — ao ponto da má-fé. Polêmicas com bases desse tipo merecem, na maioria das vezes, ser ignoradas. De todo modo, acreditamos que é importante explicitar os métodos utilizados e os efeitos negativos para a esquerda em geral. Entendemos que o texto do PCBR é um exemplo de como o esquerdismo se demonstra na atualidade, com uma lógica paranoide e sectária2. Neste sentido, muito mais do que responder aos ataques do dirigente do PCBR, nosso objetivo é dialogar com os ativistas e trabalhadores convictos da necessidade de lutar contra a escala 6×1. Esperamos, sinceramente, que, pelo menos, possamos tirar desta polêmica lições que nos afastem de desvios destrutivos à unidade e força da classe trabalhadora.
Contextualizando a polêmica e os métodos
O texto publicado no site “O Futuro” é uma peça de ataque ao VAT, algo que não consideramos surpreendente, já que é uma postura que tem se demonstrado recorrente no PCBR, o que consideramos uma infelicidade. O seu autor tenta dar ao VAT, especialmente na sua intervenção no Rio Grande do Sul, uma caracterização de “pelego”, que se concentra em articulações de gabinete e age para frear as lutas dos trabalhadores. Como comprova isto? Inventa diálogos e imputa ao VAT posições para tentar desmoralizar o movimento e, como sou coordenador estadual do VAT, personaliza em mim o que vê como uma capitulação. Já entraremos nos detalhes de como o dirigente do PCBR faz isto, mas é importante destacar que a prática não é incomum para esta organização e, como dito, não fomos surpreendidos, já que o PCBR aproveitou a abertura de oportunidade criada pela luta contra a 6×1 — puxada pelo VAT, mas de forma alguma monopolizada pelo movimento — e tem tentado se inserir na categoria dos comerciários no Rio Grande do Sul. Não por acaso, resolveram criar uma “União dos Trabalhadores do Zaffari” (que chamavam de “Associação”, talvez tenham mudado o nome por um toque de bom senso) que reivindicam ser composta por militantes do PCBR e trabalhadores da rede, como uma forma de buscar disputar a categoria contra o sindicato (SINDEC). Assim, para a direção do PCBR, parece uma oportunidade de atacar quem considera adversários, ou inimigos, em dois âmbitos diferentes: no movimento contra a 6×1, atacando o VAT, e no movimento sindical e na sua disputa com o SINDEC. Disputas no interior do movimento dos trabalhadores são comuns, até mesmo cotidianas. Se conduzidas de maneira honesta e correta, podem resultar em resultados positivos para o movimento em geral. Entretanto, como abordaremos, existe um abismo entre a disputa e os ataques. Quando a disputa vira mais do que a contraposição de projetos e se torna uma tentativa de desmoralizar e difamar organizações e seus militantes, o resultado é negativo para todos os lados — especialmente para os trabalhadores.
Faço essas considerações antes de entrar no texto em si, pois é necessário compreender as motivações de quem escreve e o malabarismo argumentativo que faz para tentar encaixar a realidade na sua construção imaginária, isto é, de que o PCBR é o partido revolucionário da classe trabalhadora e está rodeado de traidores, reformistas e contra-revolucionários. Para tal, precisa construir uma caricatura das outras correntes, pois é a única forma de justificar sua atuação sectária e auto-proclamatória. Adianto a conclusão para que estejamos todos na mesma página do que dizemos aqui: a polêmica começada pelo dirigente do PCBR é um ataque e se utiliza de métodos desonestos. Abordaremos cada um dos pontos para comprovar o que afirmamos, o mesmo não pode ser dito pelo texto de Theo. De todo modo, ressaltamos que na militância do PCBR encontram-se muitos militantes honestos, dedicados e apaixonados por sua militância. Não queremos transferir o que consideramos desonestidade do autor do texto aos seus companheiros de militância. No entanto, a complacência com o erro não deixa de ser um erro e se a história do movimento dos trabalhadores demonstra algo é que a convivência com práticas sectárias e destrutivas leva a deterioração de um partido.
A forma de atuar demonstrada pelo dirigente do PCBR não é nova, longe disso, e já faz parte do movimento socialista há mais de século. Afinal, foi preciso o próprio Lênin diagnosticar a doença infantil que se disseminava no movimento comunista da sua época. É esta raiz esquerdista que contamina toda análise e política da direção do PCBR. Aqui, vale destacar, “esquerdismo” não é tratado como ofensa, mas como um elemento de caracterização. Há um século Lênin criticou os esquerdistas por serem inflexíveis nas táticas, principistas, recusarem alianças e compromissos com outras correntes (e Lênin se refere a acordos inclusive com forças de fora do campo revolucionário e até mesmo de fora da esquerda), recusarem a atuação em sindicatos reacionários criando suas instituições próprias, um sectarismo profundo com outras correntes de esquerda e um dogmatismo e esquematismo enrijecidos. Hoje, como demonstraremos, a crítica segue completamente válida.
No que se sustentam as acusações do PCBR?
Não é por mero acaso que essa será a menor seção da resposta. Num texto como o de Theo, de polêmica com outro movimento e que levanta pesadas acusações, esperávamos uma robusta comprovação dos argumentos. O militante do PCBR, entretanto, opta por uma manobra argumentativa: direciona ao SINDEC críticas e acusações e — por termos reunido e firmado o compromisso mútuo de unir forças em ações pelo fim da escala 6×1 — quer transferir as mesmas acusações ao VAT, mesmo sem apresentar qualquer elemento da realidade que relacione o movimento a qualquer acusação que faça. Nenhuma das acusações que levanta sobre desvios da luta ou o que enxerga como capitulações se refere a qualquer ação do VAT. Pelo contrário, quando levanta as tais acusações — que, repito, são graves para qualquer militante socialista sério — sequer cita o nome do VAT. Certamente, caso ficassem apenas nas suas acusações de “crimes por osmose”, o texto ficaria curto demais e não se sustentaria como uma acusação ao VAT, já que pouco nos menciona. Portanto, precisa construir uma narrativa conspiratória que justifique sua hostilidade direcionada a um movimento social com relevância ascendente. Infelizmente, a falta de concretude dos argumentos não é o maior dos problemas do texto.
A má-fé escancarada do dirigente do PCBR
Deste ponto do artigo em diante é onde a argumentação do dirigente do PCBR deixa mais explícita as manobras retóricas do seu autor. E aqui afirmamos categoricamente que são malabarismos feitos de má-fé, pois uma coisa é a crítica realizada entre camaradas, outra coisa são ataques baixos. Theo insinua que há uma ação no Rio Grande do Sul, da minha parte, sem a aprovação da direção nacional do VAT. Talvez tenha feito essa acusação leviana como uma tentativa de criar algum tipo de discórdia no interior do movimento ou talvez seja apenas mais uma tentativa de desacreditar o alvo do seu ataque para forçar a aceitação da sua frágil argumentação, já que ad hominem é a fuga comum na ausência de fatos. Seguindo no campo da insinuação e da denúncia sem comprovação, o autor ainda diz saber exatamente o que eu estaria “dizendo aos trabalhadores”, é claro, sem qualquer respaldo factual para as suas afirmações. Porém, torna-se ainda mais grave quando finaliza a acusação criando uma teoria da conspiração sobre uma suposta ação conjunta do VAT com o SINDEC para neutralizar o PCBR. Segundo o dirigente da organização, “em comum com a direção do Sindec, o militante do PSOL e do VAT-RS faz uma campanha nos bastidores para deslegitimar a luta organizada pela União dos Trabalhadores do Zaffari e, particularmente, pelo PCBR” (grifo nosso). Nota-se a auto-imagem elevada do camarada, já que acredita que o sindicato que representa os comerciários da capital e um movimento nacional de luta contra a 6×1 estão empenhando seu tempo e esforços em conspirar para enfraquecer o PCBR no Zaffari. Não duvido que para o autor das acusações, na sua visão distorcida da realidade, a reunião entre VAT e SINDEC tenha ocorrido justamente para firmar algum acordo secreto contra a sua organização. Enfim, qual a prova que Theo apresenta para a mais séria das suas “denúncias”? Ou trata-se de mais uma grave acusação feita de maneira leviana?
Vejamos: Em uma recente reunião de organização do VAT-RS, Matheus criticou estas iniciativas. Para ele, a denúncia da escala 10×1, as manifestações nas lojas do Zaffari, o abaixo-assinado por melhores condições de trabalho e as panfletagens na saída de funcionários são ações aventureiras e inconsequentes, que só prejudicam os funcionários. Diz que isso não levou a lugar algum e só piorou a situação. Para lutar pelo fim da escala 6×1, o representante do VAT-RS acredita que o melhor caminho seja a aliança com quem estabeleceu e defendeu a escala 10×1.
A reunião a que Theo se refere ocorreu no dia 13/03, espaço no qual dois militantes do PCBR da Serra entraram para atacar e fazer cobranças ao VAT. Como Theo destacou no seu próprio texto e nós deixamos explícito na convocação da reunião, tratava-se de uma reunião de organização do VAT aberta para quem quisesse se somar na construção do movimento. Isto levanta algumas questões: a ida de militantes de uma organização que se posta como adversária do VAT em uma reunião de organização do VAT pode ser lida de qual forma? Tentativa de tumultuar? Manobra para tentar desmoralizar o movimento? Pois, como ficou evidente na reunião, essa era a intenção dos militantes do PCBR. Ambos acusaram o movimento de não se somar nas iniciativas do próprio PCBR e, por consequência disto, o VAT não estaria apoiando a luta dos trabalhadores comerciários, em específico do Zaffari — repito, por não estarmos apoiando as iniciativas que, como o seu dirigente deixou claro, são iniciativas organizadas “particularmente pelo PCBR”. Ressalto que os dois militantes, apesar das suas intenções óbvias e ataques escancarados, não foram vetados de falar e nem tiveram suas falas interrompidas.
Ao final da reunião, critiquei as ações do PCBR em relação à luta contra a escala 6×1. Critiquei a iniciativa de criar uma associação de trabalhadores do Zaffari como uma entidade paralela ao sindicato, a forma que usaram os atos dentro do Zaffari e como isso levou a uma exaustão da tática, assim como a lógica de ofensiva permanente como uma fetichização da ação direta. Além, é claro, de criticar o sectarismo e práticas de ataque a outras organizações de esquerda. Disse, e repito com total convicção, que esta forma de intervir na pauta é desagregadora, inconsequente e que prega o radicalismo pelo próprio radicalismo. É claro, Theo omite no seu texto que enviaram dois militantes seus para fazerem cobranças ao VAT em uma reunião do movimento. Como não poderia deixar de ser, Theo também distorce a realidade fazendo com que críticas ao seu partido sejam convertidas, magicamente, em críticas aos trabalhadores ou à luta por melhores condições de trabalho. Creio que seria mais do que justo inverter as suspeitas de conspiração: Por que o PCBR está enviando seus militantes para reuniões do VAT? Por que um dirigente do PCBR está distorcendo o conteúdo de uma reunião interna do VAT para atacar o VAT publicamente? A paranoia resultante de uma visão de mundo sectária faz com que, inadvertidamente, façam as mesmas coisas que temem que façam com eles próprios.
Como podemos ver, se há algo que Theo não pode ser acusado é de não ser coerente a sua própria lógica, já que na única acusação ao VAT foi preciso fazer uma caricatura de um dirigente do movimento para pintá-lo como um burocrata, reformista e traidor das lutas da classe trabalhadora. Seguindo com a caricatura, termina a única “denúncia” dizendo que “para lutar pelo fim da escala 6×1, o representante do VAT-RS acredita que o melhor caminho seja a aliança com quem estabeleceu e defendeu a escala 10×1”. O que Theo visa dizer desta vez? Que o VAT está limitado a reunir com um sindicato e ponto. Como se o VAT, aqui no Rio Grande do Sul e no Brasil todo, não fosse o movimento que está na rua desde o início contra a escala 6×1. Panfletamos nas portas dos comércios, dialogamos com a população em grandes espaços de circulação, organizamos trabalhadores que se encontram na escala 6×1 e estamos ativos na construção de um grande 1º de Maio que deixe marcado o recado: A 6×1 precisa acabar. É evidente que, para alguém com uma lógica esquerdista, a tendência é menosprezar e desconsiderar outras correntes — o sectarismo é um sustentáculo fundamental para a sua visão de mundo — enquanto supervaloriza a si e ao seu grupo como os iluminados da luta de classes. Falando em superestimação, o texto não poderia encerrar de outra maneira que não fosse a autoproclamação:
A União dos Trabalhadores do Zaffari (UTZ), da qual participam militantes do PCBR e funcionários(as) do Zaffari, segue fazendo um trabalho de conscientização e organização dos funcionários, com panfletagens semanais na porta da empresa e um contato constante com dezenas de pessoas. Diariamente, funcionários solicitam a presença da UTZ nas suas lojas e muitos se dispõem a somar na luta imediatamente. Além disso, as manifestações dentro das lojas – que sempre foram comemoradas pelos – elevou a autoestima e disposição de luta de muitos dentro da empresa.
O que o VAT realmente defende?
O VAT é um movimento aberto à construção coletiva e conjunta. Não nasceu de uma inspiração messiânica, como se fossemos os primeiros e únicos a defender a redução da jornada de trabalho, mas como um movimento necessário dadas as novas formas organizativas do mundo do trabalho. Por isso, entendendo que somos parte de um todo das diferentes organizações da classe, vemos a luta contra a 6×1 como essencialmente conjunta e unificadora. Na própria reunião de organização citada para nos atacar — fazendo parecer que nos reunimos às escondidas para conspirar contra o PCBR — havia militantes de diferentes correntes, inclusive de fora do PSOL, além de uma maioria que não possui qualquer vínculo político-partidário.
A luta do VAT é pela construção de uma grande frente capaz de articular os diferentes movimentos que de alguma forma se cruzam na luta pelo fim da escala 6×1. Sabemos que esse é o único caminho para a vitória. Assim seguiremos o contato com diferentes movimentos, sindicatos, centrais, associações e organizações políticas, pois entendemos a gravidade do momento em que vivemos e a necessidade da unidade na luta para enfrentar os inimigos da nossa classe. Um critério indispensável, entretanto, é o da honestidade. Toda luta política é válida se feita de maneira honesta.
Manobras argumentativas, acusações sem comprovação e distorções são práticas que queremos distância. Infelizmente, a julgar pelo texto de seu dirigente, o PCBR já parece afundado no lamaçal destas práticas. A todos os outros, organizados ou não, que se identificam com a nossa visão de luta para a classe trabalhadora, sintam-se convidados a conhecer o VAT: é na unidade da classe que encontramos nossa força!
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