Don Trump e o estilo mafioso na política mundial
O estilo de Trump na política mundial se parece muito com a conduta de um mafioso na arena global
Publicado em: 7 de maio de 2026
Por uma curiosa coincidência histórica, o nome do atual presidente dos EUA pode intuitivamente ser resumido como “Don”, que é equivalente a “Senhor”, título historicamente usado na Sicília para designar poderosos proprietários de terras e, mais tarde, aplicado aos chefes da máfia. Esta designação se tornou amplamente conhecida nos Estados Unidos e em todo o mundo graças à série de filmes de Francis Ford Coppola, “O Poderoso Chefão”, com Marlon Brando e Robert De Niro no papel de Don Corleone.
O fato é que o estilo de Donald Trump na política mundial se parece muito com a conduta de um mafioso na arena global. Aqui estão alguns dos métodos da máfia aplicados por Don Trump no cenário mundial:
1. Extorsão e chantagem: este é o método mais comum praticado pela máfia.
O uso das tarifas por parte de Don Trump é o exato equivalente da prática de extorsão dos mafiosos. Ele tem extorquido diversos países ao forçá-los a se comprometerem com um aumento de suas importações e investimentos nos Estados Unidos, além de outras concessões. Ele tem ameaçado consistente e persistentemente outros países com tarifas, buscado impor sua vontade, seja para fins comerciais ou até mesmo para fins políticos, como tentar tirar da prisão seu colega neofascista, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. [1] Como as tarifas acabam sendo pagas pelo consumidor estadunidense, o uso que Don Trump faz delas também é um modo de extorquir dinheiro do povo estadunidense – uma espécie de imposto regressivo – a fim de financiar o considerável déficit resultante da combinação de seus enormes benefícios fiscais aos ricos com gastos militares cada vez maiores.
Outro elemento do crime organizado é a extorsão como um preço pela oferta de proteção. Este é, tipicamente, o modo pelo qual os Estados Unidos têm se aproveitado das monarquias petrolíferas do Golfo, obtendo todo tipo de lucro deles em troca de lhes fornecer proteção militar contra o vizinho Irã e seus aliados regionais, tais como os Houthis no norte do Iêmen. A ofensiva contínua de Don Trump no Irã é o ápice do cumprimento do papel dos EUA como protetor das monarquias do Golfo, começando pela mais rica delas, o reino saudita. [2]
2. Violência, intimidação e terceirização: de fato, a prática de extorsão de Don Trump não se limita à coerção econômica. Ele também tem amplamente usado a ameaça de violência para exercer pressão sobre vários países – incluindo os aliados dos EUA, como a Dinamarca, membro da OTAN, que ele tentou intimidar para que entregasse aos Estados Unidos o controle sobre a Groenlândia. Mais importante ainda, Don Trump realmente recorreu à violência para impor a vontade de Washington a outros Estados.
Diferentemente dos presidentes estadunidenses anteriores, ele nem sequer finge promover a democracia em todo o mundo: certamente, isto não é parte da visão de mundo do mafioso. Ao contrário, ele busca coagir regimes rebeldes a se submeterem à vontade e aos interesses de Washington, tal como são. [3] Foi isso que ele fez na Venezuela, sequestrando o presidente do país no típico estilo mafioso e forçando seu governo a colaborar com os Estados Unidos nos termos de Washington. Ele está estrangulando Cuba buscando forçar a ilha a abrir mão de sua independência política. Don Trump está atualmente ocupado bombardeando o Irã na tentativa de obrigar o regime desse país a se submeter à sua vontade. A atual ofensiva começou com um “beijo da morte” dado por Don, que condenou o Líder Supremo do Irã à execução. Seguindo o costume típico da máfia, ele terceirizou esse assassinato a um grupo criminoso de menor importância, a máfia governamental israelense encabeçada por Benjamin Netanyahu, e os associou como parceiros subordinados em sua guerra.
3. Famílias ou clãs hierárquicos: Don Trump reina sobre todo um conjunto de subchefes e conselheiros.
No topo, a família Trump é o equivalente do clã Corleone, encabeçado por Don como o Poderoso Chefão. Seus filhos administram a Trump Organization, [4] cujo nome se encaixa perfeitamente nas práticas mafiosas. Eles têm lucrado massivamente com os métodos de extorsão de Trump, fechando negócios lucrativos com máfias estrangeiras – em particular as monarquias petrolíferas do Golfo – e se envolveram, assim como o próprio Don, em jogos de azar, que é outra atividade típica da máfia – principalmente no ramo das criptomoedas.
Não é novidade que Don Trump teve interesses significativos no setor de jogos de azar entre os anos 1980 e 2000, por meio do desenvolvimento, propriedade e operação de vários cassinos em Atlantic City e em outros locais. Seus empreendimentos no setor de jogos [5] se caracterizavam por uma estrutura acionária de alto perfil, dívidas colossais e múltiplas falências, enquanto ele permanecia em cargos de gestão. Apesar do fracasso de seus negócios de jogos de azar em gerar lucro, Trump se beneficiou por meio de títulos de alto risco com juros elevados, recebendo dinheiro adiantado para construção, taxas de administração e usando fundos da empresa para despesas pessoais, como seu iate (o “Trump Princess” [6]).
As famílias Kushner [7] e Witkoffs [8] são as mais proeminentes entre os subchefes, se beneficiando plenamente dos métodos mafiosos de Don. Há também os Dons da máfias tecnológicas [9], que apoiaram Don Trump – particularmente os dois Dons da antiga Máfia do PayPal [10], Peter Thiel e Elon Musk, A aliança deles com Don Trump é personificada por JD Vance [11], que foi preparado por Thiel e fortemente recomendado por Trump como vice-presidente, na esperança de que ele se tornasse o próximo candidato do MAGA à Casa Branca. Os conselheiros de Don Trump são muitos, mas o mais sinistro entre eles, sem dúvida, é certamente Stephen Miller. [12]
Em resumo, nunca houve, antes de Trump, um presidente que se assemelhasse tanto ao padrão mafioso na Casa Branca. Richard Nixon [13] era quase um coroinha em comparação. Don Trump representa o triunfo do estilo mafioso na política estadunidense e mundial. E, assim como no famoso livro que inspirou o título deste artigo [14], o estilo de Trump é de fato profundamente paranoico, envolvendo uma tendência tipicamente irracional no discurso político, caracterizada pelo exagero extravagante, teorias da conspiração e acusações forjadas lançadas contra todos os rivais – um tipo de paranoia que condiz muito com um chefe de máfia.
[1] https://www.bbc.co.uk/news/articles/c784ee81y4zo
[2] https://www.washingtonpost.com/politics/2026/02/28/trump-iran-decision-saudi-arabia-israel/
[3] https://mondediplo.com/2026/02/05us
[4] https://www.nytimes.com/2025/05/05/us/politics/eric-donald-jr-trump-family-deals.html
[5] https://www.benzinga.com/general/23/11/35754833/donald-trump-owned-several-atlantic-city-casinos-that-went-bankrupt-despite-this-he-said-atlantic-ci
[6] https://www.boatinternational.com/yachts/editorial-features/trump-princess-inside-donald-trumps-superyacht-kingdom-5kr
[7] https://www.ft.com/content/28b79cff-e549-4c30-baea-316fe94f9c81
[8] https://www.nytimes.com/2025/09/26/business/witkoff-son-qatar-gaza.html
[9] https://www.everythingstartups.com/article/the-11-tech-mafias-ruling-silicon-valley
[10] https://en.wikipedia.org/wiki/PayPal_Mafia
[11] https://www.theguardian.com/us-news/2026/jan/18/jd-vance-profile-trump-presidency
[12] https://www.bbc.co.uk/news/articles/ce8rl71n4r3o
[13] https://archive.org/details/mafiaspresidentn0000fuls
[14] https://en.wikipedia.org/wiki/The_Paranoid_Style_in_American_Politics
Traduzido de https://gilbert-achcar.net/trump-and-mafioso-style. Tradução de Paulo Duque, do Esquerda Online.









