O futuro do Sul Global está sendo jogado no Irã
Publicado em: 2 de março de 2026
Distribuição de bases militares dos EUA ao redor do Irã
O império, sob a administração Trump, está obstinado em derrubar o regime iraniano. Junto com seu sócio israelense, começaram a implementar esse projeto em 2025, com a guerra dos 12 dias, depois a desvalorização da moeda iraniana para gerar inflação e revolta popular, infiltrando agentes para promover violência nas ruas das cidades persas e, agora, com uma agressão covarde, cercando o Irã por todos os lados, assassinando a população civil inocente e um chefe de estado. Khamenei não é só o líder supremo do Irã, mas o líder religioso mais importante do mundo islâmico xiita. Trump conseguiu iniciar uma guerra religiosa, que terá consequências por décadas.
O Irã é um ponto de interseção geopolítico inaceitável para o império. Ao leste tem projetos avançados com a China através da nova rota da seda, ferrovias de mais de 10 mil km que ligam os dois países e comércio de energia e tecnologia que é bastante vantajoso para ambos. Ao norte, uma parceria militar, nuclear e cyberespacial com a Rússia, garantindo uma robusta capacidade de defesa para ambos.
Ao oeste, o país persa tem relações com grupos armados xiitas e sunitas que combatem Israel, como o Hezbollah no Líbano, Hamas na Palestina e Houthis no Iêmen. E ainda podemos dizer que ao “sul”, o Iran é membro pleno do BRICS, outro projeto de aliança do sul global que está diametralmente oposto à necessidade do império em manter o sistema dólar.
Essas articulações defensivas dos iranianos conseguem impor um poder na região, que é intolerável para Israel e consequentemente para os EUA. Trump foi à TV duas vezes, desde o início da agressão militar, para dizer que o povo do Irã deve tomar o poder depois que eles terminarem o serviço, mas a única imagem que vimos até agora, são de milhões de iranianos nas ruas de Teerã repudiando o que eles consideram o martírio de Khamenei e jurando morte a América e a Israel. Assim como, os protestos dentro dos EUA também tendem a crescer, destaque para o 28 de março — No Kings — que promete ser o maior da história.
Os primeiros caixões de soldados norte-americanos começaram a chegar e a promessa de Trump de acabar com as guerras está se provando hoje que era somente mais uma de suas centenas de mentiras para ganhar a eleição.
Embora o Irã esteja sofrendo com o bombardeio, a população vai passar por dias de penúria. A resposta militar das forças armadas persas está fazendo um estrago considerável em toda região. A chuva de fogo com mísseis balísticos guiados por sistemas de satélites avançados está atingindo com precisão bases militares americanas e europeias na Arabia Saudita, nos Emirados Árabes, Omã, Iraque e Catar. Como também, Tel Aviv está sob forte bombardeio que está conseguindo desmoralizar o “domo de ferro” israelense, promovendo destruição da infraestrutura do país e deixando a população israelense em pânico. Os primeiros caixões de soldados norte-americanos começaram a chegar e a promessa de Trump de acabar com as guerras está se provando hoje que era somente mais uma de suas centenas de mentiras para ganhar a eleição.
Essa guerra vai gerar mais gastos econômicos para os EUA quanto mais tempo ela durar e mais baixas os americanos vão sofrer, gerando mais problemas para a atual administração Trump. Ao mesmo tempo, que o preço do barril de petróleo deve oscilar, podendo gerar surtos inflacionários em várias partes do mundo, especialmente se a situação do estreito de Ormuz e no mar vermelho se inflamar.
Difícil saber se essa guerra vai ser curta ou longa. Por um lado os EUA moveram um aparato que tem custos altíssimos, são bilhões por dia para sustentar porta-aviões em guerra próximo a costa iraniana, o que obriga Trump a aprofundar o conflito para conseguir alguma vantagem. Por outro lado, o Irã construiu, em parceria com russos e chineses, uma capacidade bélica de alta tecnologia capaz de sustentar bombardeios e fazer estragos por meses, e até anos.
Caso o Irã caia e os EUA triunfem no controle da região e de seus recursos, terá sido dado um passo importante para desacelerar a economia da China e isolar a Rússia. Mas se os EUA falharem, Trump terá dado um salto no abismo.
Caso o Irã caia e os EUA triunfem no controle da região e de seus recursos, terá sido dado um passo importante para desacelerar a economia da China e isolar a Rússia. Mas se os EUA falharem, Trump terá dado um salto no abismo.
Por fim, a depender dos desdobramentos dessa guerra, vai sobrar também para a América Latina e para o Brasil. No curto prazo o preço do petróleo, pode gerar inflação e impactar economias dependentes da importação do óleo refinado. No longo prazo, se a China desacelerar, as exportações de commodities vão cair, gerando déficit na balança comercial e tensões econômicas difíceis de administrar. O governo Lula precisa desde já se preparar para esses impactos, pois terá consequências na eleição, assim como Cuba, que é altamente dependente da importação de petróleo, poderá ter sua situação ainda mais agravada.
Gibran Jordão é historiador, analista de Geopolítica e TAE-UFRJ









