Sobre castas e classes sociais
Publicado em: 25 de fevereiro de 2026
por Valério Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
por Valério Arcary
Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Eli Malvina Heil. Um domingo no morro
A arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido.
Steve Biko
1. A iniquidade social assume formas de uma aberração histórica no Brasil. A maior parte das nações na periferia do capitalismo é mais pobre. Mas nenhum país em estágio semelhante de desenvolvimento econômico-social é tão injusto. Essa anormalidade não deve ser reduzida a abstrações sociológicas. A explicação é complexa, porque remete a muitos fatores, mas repousa, em última instância, na luta de classes, portanto, na política. Em todos os países da periferia encontraremos, essencialmente, as mesmas classes que ocupam um lugar desigual na estratificação social: capital, trabalho e camadas médias. A excepcionalidade da formação histórica-social brasileira é, no entanto, muito grande. As únicas duas classes que têm força social para oferecer um projeto para a nação são os capitalistas e os trabalhadores. Mas a luta de classes não pode ser simplificada a um combate dualista entre burguesia e proletariado. Nenhuma das duas classes mais poderosas é tão homogênea, social e politicamente, para poder vencer sem conquistar uma maioria social.
2. São, pelo menos, cinco essas peculiaridades: (a) a força social da burguesia, a mais rica do hemisfério sul do mundo, potencializou uma inusitada acumulação de capital, consideradas as nações vizinhas do Cone Sul, pelo agigantamento da dívida pública que cobra taxas de juros reais entre as mais elevadas do mundo há quatro décadas, pelo tamanho do mercado interno de 40 milhões de consumidores de bens duráveis, pelo lugar do agronegócio e da mineração, vantagens comparativas preservadas por uma grande habilidade de manipulação política; (b) a grandeza da classe trabalhadora, o maior proletariado dos países periféricos com sessenta milhões de assalariados, em uma população economicamente ativa de 105 milhões, permitiu a construção de um movimento sindical poderoso entre os estratos remediados, e uma das esquerdas, eleitoralmente, mais influentes, mas, politicamente, muito moderada, enquanto os mais pobres permanecem sob a liderança perene do lulismo; (c) o peso político-social desproporcional de uma pequena burguesia proprietária muito reacionária associado à influência política da moderna classe média, com um modo de vida muito distante da maioria dos trabalhadores; (d) a degeneração social pelo crescimento vertiginoso da pressão lumpen sobre todas as classes, gerando frações lumpenizadas na classe dominante, reveladas em sucessivos escândalos de diferentes tipos de organizações de crime organizado, que arrastam, também, segmentos desgarrados do povo e até das camadas médias; (e) a sobrevivência de grupos sociais ou castas que preservam posições de privilégio, e acreditam ter mais a perder do que a ganhar com uma transformação social.
3. A condição de classe explica o conflito de interesses econômicos. O lugar de classe é a determinação mais poderosa, mas as injustiças na sociedade não se restringem à oposição entre capitalistas e trabalhadores, além dos camponeses, a pequena-burguesia urbana ou a moderna classe média. Existem, por exemplo, grupos sociais secundários, mais ou menos homogêneos, que só podem ser compreendidos quando consideradas as condições muito específicas de suas funções e instintos corporativos, como os militares ou policiais, mas religiosos profissionais, também, entre outros: identidade intensa, coesão social interna, sentido de missão, relativo isolamento, estrutura de comando, regras de conduta, normas, valores e estilo de vida próprios, além de peso político-social, desproporcionalmente, privilegiado à sua inserção. São grupos sociais que sofrem as poderosas pressões das três principais classes – burguesia, classe trabalhadora e camadas médias – mas dificilmente se dividem porque mantém uma identidade própria e respondem de forma homogênea. Têm graus de consciência política muito mais elevados que a média popular, interesse na preservação da ordem, e ocupam posições de poder. Deslocaram nos últimos dez anos para a extrema-direita, e parecem, por enquanto, inexpugnáveis
4. Mas os grupos sociais privilegiados são um fenômeno na margem. Não são uma base social suficiente para explicar uma relação social de forças reacionária nos últimos dez anos. Evidentemente, este desenlace repousou na força social burguesa, e no arrastão da pequena-burguesia proprietária e da nova classe média. Mas é impossível entender a complexidade da desigualdade social brasileira, e a afirmação de uma corrente neofascista de massas, sem considerar a permanência de condições de privilégio que se preservaram, mesmo sem sustentação legal jurídica, e introduzem divisões no seio do povo. Existe uma nação brasileira porque há um povo que se reconhece como uma comunidade que compartilha um destino. Mas o povo brasileiro está fraturado. A classe trabalhadora está estilhaçada. Compreender como e por que exige distinguir exploração de opressão. Castas são um conceito inescapável. Todos os explorados pelo capital, economicamente, são, também, oprimidos, socialmente, porque têm um lugar subalterno e inferior na sociedade. Mas, há distintas formas e graus de opressão. Diante da maioria negra no povo brasileiro, os brancos se beneficiam de privilégios de raça, porque se percebem como superiores, portanto, uma casta. Diante da maioria feminina os homens se beneficiam de um privilégio de poder, ou como uma casta.
5. O estatuto de casta é de origem pré-capitalista e, embora associado sobretudo às peculiaridades da Índia, nunca foi somente oriental, e não desapareceu no Brasil do século XXI. Castas existem, historicamente, quando se mantém um sistema de estratificação social onde a posição de cada um é definida, em primeiro lugar, pelo nascimento, portanto, hereditariedade, e não por mérito pessoal ou posição econômica. A mobilidade social no capitalismo é, relativamente, restrita, ainda que possa oscilar com maior ou menor intensidade em função de diferentes variáveis, mas existe. Os privilégios das castas operam pela manutenção de rígidas hierarquias de poder, status e ocupação. São vantagens, regalias ou imunidades que explicam, transversalmente à condição de classe, as opressões raciais ou de gênero, entre outras. Entre outras porque no Brasil não é o mesmo ser nordestino ou sudestino. Neste nível de abstração é inescapável reconhecer que há um conflito entre branquitude privilegiada e negritude oprimida, entre masculinidade machista e feminismo oprimido. Ou seja, há benefícios na condição de descendência europeia branca. Não são menores as vantagens da condição de homem frente à situação das mulheres. Claro que a opressão não diminui e, certamente, não anula que os maiores privilégios resultam da condição de classe. Um homem negro de classe média terá uma inserção melhor que um proletário branco, mas continuará a ser discriminado, também, como inferior. O crescimento da extrema-direita se alimenta dos rancores de brancos diante da ascensão dos negros, do ressentimento de homens contra a afirmação dos direitos das mulheres, e da homofobia contra os LGBT’s. Os sujeitos das lutas contra as opressões não são um protagonismo de “minorias”, e não são um impulso de “identitários”. São uma esperança de que é possível conquistar uma maioria social para o projeto da revolução brasileira. Aqueles na esquerda que desqualificam ou diminuem a importância da luta de libertação dos oprimidos – negros, mulheres e LGBT’s – estão míopes diante do desafio que é impor uma derrota à extrema-direita nas eleições de 2026. Não deveria nos surpreender que uma maioria das mulheres, dos pretos e dos nordestinos se inclinem para a esquerda. Eles são os que melhor compreenderam o perigo da extrema-direita, porque são explorados, mas também, são oprimidos.
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