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Colunas

Relato 26: “A Luta Antimanicomial contra o fundamentalismo religioso”

Que Loucura!

Coluna antimanicomial, antiproibicionista, abolicionista penal e anticapitalista. Esse espaço se propõe a receber relatos de pessoas que têm ou já tiveram alguma experiência com a loucura: 1) pessoas da classe trabalhadora (dos segmentos de pessoas usuárias, familiares, trabalhadoras, gestoras, estudantes, residentes, defensoras públicas, pesquisadoras) que já viveram a experiência da loucura, do sofrimento psicossocial, já foram atendidas ou deixaram de ser atendidas e/ou trabalham ou trabalharam em algum dispositivo de saúde e/ou assistência do SUS, de entidades privadas ou do terceiro setor; 2) pessoas egressas do sistema prisional; 3) pessoas sobreviventes de manicômios, como comunidades terapêuticas e hospitais psiquiátricos, e outras instituições asilares; 4) pessoas do controle social; 5) pessoas da sociedade civil organizada, movimentos sociais Antimanicomiais, Antiproibicionistas, Abolicionistas Penais, Antirracistas, AntiLGBTFóbicos, Anticapitalistas e Feministas. Temos como princípio o fim de tudo que aprisiona e tutela e lutamos por uma sociedade sem manicômios, sem comunidades terapêuticas e sem prisões!

COLUNISTAS

Monica Vasconcellos Cruvinel – Mulher, latinoamericana, feminista, escrivinhadora, mãe, usuária da RAPS, militante da Resistência-Campinas, da Luta Antimanicomial pela Coletiva Livre Nacional de Mulheres e Saúde Mental Antimanicomial (CLNMSMA) e Conselheira Municipal de Saúde;

Laura Fusaro Camey – Militante da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA);

Andréa Santos Miron – Mulher, feminista, apaixonada pelo Sistema Único de Saúde, por fazer trilhas e astronôma amadora; Assistente Social de formação pela Universidade Federal de São Paulo, pós-graduada em Saúde Pública, Saúde Mental e Psiquiatria; Militante pela Resistência / Psol – Mauá/SP, pela Coletiva Livre Nacional de Mulheres e Saúde Mental Antimanicomial, pelo Fórum Paulista da Luta da Luta Antimanicomial e Movimento Nacional da Luta Antimanicomial.

Se você quer compartilhar o seu relato conosco, escreva para [email protected]. O relato pode ser anônimo.

Por Samantha Larroyed

Meu nome é Samantha Larroyed, mas sou conhecida como Sâmi.  Sou uma mulher branca, magra, tenho 37 anos e sou pessoa com esquizofrenia há 14 anos, dos quais os últimos 7 anos como usuária do CAPS em Brasília/DF, onde nasci e resido. O CAPS foi um divisor de águas na minha vida. Lá tive acolhimento e fiz grandes amizades; eu acredito muito nesse serviço substitutivo. Mas nem sempre foi assim. Demoraram os primeiros 7 anos (dos 14 que tenho transtorno) para eu descobrir a existência dos CAPS. Nesse período, fui internada em diversos hospitais psiquiátricos, clínicas e prontos-socorros. Ninguém nunca tinha me falado do CAPS! Soube depois que existia esse serviço em liberdade através da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Pessoas com Esquizofrenia – ABRE com sede em São Paulo, da qual hoje sou vinculada a diretoria. 

Gosto sempre de começar falando meu diagnóstico de esquizofrenia não porque ele me resuma ou eu me prendo a ele, mas porque por quase 10 anos acreditei estar sofrendo de um problema espiritual apenas. Fui fundamentalista evangélica durante 9 anos da minha vida. E a ciência, que cataloga transtornos como a esquizofrenia, é totalmente negada pelo fundamentalismo. Esse negacionismo, e o fundamentalismo como um todo, prejudicaram muito a minha saúde mental. As pessoas que eu admirava e/ou convivia resolviam tudo somente na base da oração e do jejum. Por isso, quando os delírios persecutórios vinham na minha mente, eu jejuava, chegando a ficar até mais de 40 dias sem comer nada, para pedir proteção divina (para mim e para o mundo inteiro) até quase vir a óbito. Tenho 1,66 de altura e peso 65 kg, mas em um desses jejuns cheguei a pesar 37 kg. Fui as pressas para o hospital nessa ocasião e os exames mostraram para minha família que eu já não menstruava mais por não ter gordura suficiente no meu corpo, bem como que eu tinha perdido músculo cardíaco de tão magra. Eu estava morrendo, mas não aceitava comida porque se quebrasse o jejum acreditava que Deus iria me punir e punir o mundo. Então colocaram uma sonda em mim, para me darem comida líquida através do meu nariz. Essa foi uma das minhas mais de cinco internações. Em outra internação, dois enfermeiros homens me obrigaram a tomar banho e tiraram minha roupa a força, a ponto de rasga-la. Eu me debatia, gritava e cheguei a cuspir no rosto de um deles, mas nada adiantou: eles tiraram minha roupa e me enfiaram debaixo do chuveiro. Além disso, já fui diversas vezes amarrada e também cheguei a ficar dias urinada. Em outra ocasião, enquanto estava sendo levada amarrada para um pronto socorro psiquiátrico na ambulância dos bombeiros, um dos profissionais colocou a mão na minha cabeça e começou a fazer um exorcismo, dizendo várias coisas, dentre elas: “eu expulso toda a pomba-gira dessa mulher em nome de Jesus!” Era o puro suco do sistema manicomial, do racismo religioso e do fundamentalismo operando nesse ato. Aquilo me deixou mais furiosa e desestabilizada, então continuei me debatendo. Inclusive esse comportamento manicomial e violento, tanto de forma física, quanto psicológica, sexual e religiosa é feito nas Comunidades Terapêuticas hoje. Por isso milito contra elas e sou mais uma voz a pedir pela interrupção do financiamento público desses locais já! 

Tanto o sistema manicomial quanto o fundamentalismo evangélico me castigaram muito. Eu conto essas e outras histórias que aconteceram comigo ao longo desses 14 anos com o transtorno, no livro Memórias da Esquizofrenia, que vai para sua segunda edição. Vou lançá-lo de forma física e online no Seminário de Saúde Mental e Desinstitucionalização da Frente Parlamentar Distrital em Defesa da Luta Antimanicomial dia 28 de maio de 2024 na Câmara Legislativa em Brasília. No livro, há fotos da minha magreza nos jejuns que eu fazia (estava irreconhecível) bem como de mim no hospital com a sonda no nariz e desacordada. Essas fotos também estão no meu Instagram e Facebook, onde posso ser encontrada pelo nome SaMiau Saúde Mental, militando a favor da causa antimanicomial. Também tenho um canal no YouTube com esse nome, em que faço vídeos falando sobre temas relacionados a saúde mental e fundamentalismo religioso.

Hoje sou ativista antimanicomial, Acompanhante Terapêutica e futura psicanalista. Não sou mais fundamentalista há muitos anos, mas passo por um processo de desconstrução constante. Ainda sou evangélica, mas progressista, através da alternativa de caminho que me foi aberto há uns anos atrás por cristãos progressistas como o deputado pastor Henrique Vieira (que inclusive preside a Frente Parlamentar Nacional em Defesa da Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica). Por isso rejeito toda forma de preconceito, seja religioso, de gênero ou sexual, e sou a favor de causas antirracistas, feministas, anticapacitistas e toda e qualquer causa a favor dos menos favorecidos. Ainda que esses menos favorecidos sejam animais, pois como disse a psiquiatra Nise da Silveira: “o que mais sofre é o louco e o animal”. Por isso sou vegana há 10 anos.

Atualmente faço parte do Fórum Revolucionário Antimanicomial, que é uma junção de coletivos de saúde mental de todo Distrito Federal com familiares de pessoas com transtorno, usuários, profissionais de saúde etc, e sempre me disponibilizo a representá-los onde quer que me chamem para falar. Participo também de audiências públicas, reuniões políticas, conferências, rodas de conversa, ou qualquer lugar que receba bem minha história de superação. Quanto mais voz for dada as pessoas com transtorno e maior for nossa visibilidade, mais a sociedade civil e o poder público se conscientizarão do sofrimento absurdo que passamos e, espero, tomarão providências urgente. Nenhum passo atrás, manicômio nunca mais!