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Lênin, a tática e a estratégia – Parte 1

No centenário da morte de Wladimir Ilich Ulianov, vale muito a pena revisitar a primorosa obra “Esquerdismo doença infantil do comunismo”. No desafiador momento histórico que vivemos é mais que necessário estudar e refletir sobre a genialidade deste gigante da luta pela emancipação da humanidade. Aconselhado por camaradas dividimos em 3 partes essa singela reflexão.

José Carlos Miranda

José Carlos Miranda foi ferroviário e metalúrgico. Ativista dos movimentos sociais desde os anos 1981, é da Coordenação Nacional da Resistência/PSOL, membro do Conselho Curador da Fundação Lauro Campos (PSOL) e da Direção do PSOL-SP

A história em geral e a das revoluções em particular, é sempre mais rica em conteúdo,mais variada de formas e aspectos, mais viva e mais “astuta” do que imaginam os melhores partidos, as vanguardas mais conscientes das classes mais avançadas.
Lenin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo

 

A doença infantil do esquerdismo no comunismo, creio ser uma das obras mais importantes do marxismo. Em muitos aspectos apresenta um resumo de toda a experiência histórica do bolchevismo. A arte da máxima flexibilidade tática se mantendo fiel aos princípios explicando a partir da vivacidade da luta de classes a essência do método de Lenin que, de uma maneira extraordinariamente clara e concisa, explicam a arte da tática e a ciência da estratégia na luta de classes.

Lenine o escreveu em abril de 1920 e o apêndice a 12 de maio do mesmo ano, durante o emocionante período posterior ao triunfo da revolução na Rússia. A Terceira Internacional tinha sido fundada no ano anterior como resultado do colapso da Segunda Internacional, o que se tornou inevitável após a traição dos dirigentes reformistas dos partidos social-democratas que, violando as decisões de todos os congressos internacionais, tinham votado a favor dos créditos de guerra e apoiado a guerra imperialista de 1914 a 1918.

A vitória da Revolução de Outubro na Rússia deu um poderoso impulso, num primeiro momento, à formação de tendências comunistas de massas dentro dos velhos partidos socialistas e social-democratas e, mais tarde, à formação de partidos comunistas num país após outro. Mas os dirigentes dos novos partidos eram, na sua maioria jovens, sem a maturidade política necessária e, ainda que se inspirassem na Revolução de Outubro, não tinham a mesma experiência que os bolcheviques e apenas conheciam superficialmente a história, a teoria e a prática do bolchevismo. Como consequência, cometeram muitos erros, geralmente de raiz ultra esquerdista. Com o objetivo de compartilhar a experiência e a familiarizarem-se com a natureza do bolchevismo, Lenin escreveu essa obra. Mesmo sendo publicada pela primeira vez há mais de 100 anos, continua tão válida e relevante como no dia em que saiu do prelo.

Lenin deu muita importância a este livro e, prestando uma atenção pessoal aos prazos de correção e de edição, certificou-se de que o livro fosse editado antes da abertura do 2º Congresso da Internacional Comunista, cujos delegados receberam uma cópia cada um. Entre Julho e Novembro de 1920 o livro foi publicado em Leipzig, Paris e em Londres.

Os debates, opiniões e conclusões do livro ficam firmemente aflorados no subtítulo do manuscrito original, Ensaio de discussão popular sobre a estratégia e a tática dos marxistas, que depois sumiu todas as edições publicadas em vida de Lenine. Nas suas páginas aborda-se o trabalho de construção do partido revolucionário, questão mais complicada do que parece à primeira vista. Implica a relação entre o marxismo e o movimento vivo do proletariado e a dinâmica de suas organizações ao longo da história.

Luta de classes e Consciência de classse

A luta de classes, e o seu reflexo na consciência das massas, não se desenvolve em linha reta, mas passa por toda uma série de etapas, com mudanças constantes, fluxos e refluxos. Só em duas ocasiões nos últimos 176 anos, desde o documento fundador de nosso movimento “O Manifesto Comunista”, a classe trabalhadora criou organizações internacionais de massas para expressar a sua vontade de transformar a sociedade: a Segunda e Terceira Internacionais. Deste simples fato poderemos deduzir o pouco comum que é a criação de organizações internacionais revolucionária de massas.

A classe trabalhadora não chega automaticamente a conclusões revolucionárias. Se assim fosse, a tarefa de construir o partido revolucionário seria supérflua. Se o movimento da classe trabalhadora se produzisse em linha reta, a tarefa seria simples, mas essa não é a realidade como a vida nos ensina. Depois de um longo período histórico, a classe chega a compreender a necessidade da construção de um partido para chamar de seu. Sem organização, o proletariado não é mais do que matéria-prima para exploração. Mediante a criação de organizações, tanto de caráter sindical como, em nível superior, político, a classe trabalhadora começa a expressar-se como classe, como uma entidade independente. Em palavras de Marx, passa de ser uma em classe “em si” para uma classe “para si”. Esse desenvolvimento produz-se durante um longo período histórico através de todo o tipo de lutas, nas quais participa a minoria de ativistas mais ou menos conscientes, mas também as “massas sem preparação política”, que, em geral, despertam para a participação ativa na vida sindical e em movimentos sociais (e mesmo política) sob o impacto de grandes acontecimentos.

>> Leia também: Pensando um pouco sobre “Esquerdismo…”, de Lênin

Assim a nossa classe inicia a construção de organizações onde aprende, desde o seu início, a lutar pela unidade, para defender os seus interesses. Estas organizações históricas são os sindicatos, as cooperativas (que hoje poderíamos incluir os movimentos sociais como MST, MTST, etc) e também nesse processo de aprendizado e experiência prática, os partidos de classe que representam o germe da nova sociedade dentro da velha. Servem para mobilizar, organizar, formar e educar a classe.

Diferentemente da pequena-burguesia que sempre se caracteriza pela sua extrema volatilidade política, a classe trabalhadora muda as suas fidelidades políticas e sindicais muito lentamente. Um operário não se irá desfazer de uma ferramenta velha inclusive quando esta tenha deixado de ter uma utilidade prática; tratará de repará-la até que finalmente demonstre ser completamente inútil. Da mesma maneira, o proletariado no seu conjunto não abandona facilmente as suas organizações tradicionais uma vez que estas tenham sido criadas, pelo contrário, uma vez após outra tentará transformá-las em autênticos órgãos de luta. Não entender este fato levará a incapacidade de construir uma ponte até as amplas massas exploradas e oprimidas. Lenin conhecia profundamente a forma de pensar e de agir do proletariado. A doença infantil é uma expressão brilhante disso.

O Capitalismo e suas pressões

As organizações criadas historicamente pelo proletariado formaram-se no seio da sociedade capitalista e estão submetidas às pressões do capitalismo, o que inevitavelmente produz deformações burocráticas. As organizações nascidas na luta tendem a degenerar quando a pressão das massas desaparece. Estas pressões intensificam-se em períodos de auge econômico ou inclusive durante ciclos de crescimento econômico temporários. Os trabalhadores e trabalhadoras não se põem a lutar porque é “atitude bacana”. Em condições em que a burguesia pode fazer concessões e reformas que melhorem a dura vida do proletariado, a classe trabalhadora tende a procurar uma solução individual, “a trabalhar duro”, fazendo horas extraordinárias, disputar cargos de chefia etc. Essas pressões impactam profundamente as cúpulas do movimento operário, e a tendência da burocracia das organizações operárias a separar-se da base e cair sob influência de ideias burguesas e pequeno-burguesas sempre se multiplica por mil quando diminui a pressão da classe. E esta é uma lei que se pode demonstrar historicamente.

Quando os capitalistas podem fazer concessões e reformas, a maioria dos trabalhadores não vê a necessidade de participar ativamente no movimento. Isso leva a uma maior degeneração na direção que cada vez mais se divorcia das massas e das bases do partido (ou sindicato). Lentamente, quase imperceptivelmente, perdem de vista os objetivos revolucionários e até mesmo classistas. Os dirigentes ficam absorvidos na rotina diária da atividade sindical ou parlamentar. Chega um momento em que se encontram teorias para justificar esse abandono de princípios.

Isto foi o que aconteceu no período de auge prolongado antes de 1914 e que terminou na matança da I Guerra Mundial. Lenin explicou que o ultra-esquerdismo é o preço a pagar pelo movimento operário pelo oportunismo dos seus dirigentes. O êxito do anarquismo entre certos setores de operários e jovens antes da Iª Guerra foi precisamente uma reação à degeneração burocrática e reformista dos dirigentes da social-democracia. De maneira parecida, no período posterior à IIª Guerra mundial, a expansão de ideias ultra-esquerdistas entre os estudantes (terrorismo, anarquismo, guerrilheirismo, nacionalismo radical) não se pode explicar exclusivamente pela mentalidade pequeno-burguesa dessa camada (esse é um elemento constante), mas foi consequência também da enorme falta de autoridade do marxismo como resultado da decadência burocrática e reformista das organizações operárias e do estalinismo na URSS. Lenin explicou como na Rússia a influência do anarquismo foi mínima devido à luta consequentemente revolucionária dos bolcheviques. Mas as políticas reformistas adotadas pelos dirigentes do movimento operário em todos os países depois da IIª Guerra Mundial apenas serviram para repelir parte dos jovens e empurrá-los para o beco sem saída do anarquismo, do sectarismo e do ultra-esquerdismo.

O método e a compreensão da classe

Um partido revolucionário é, em primeiro lugar, programa, métodos, ideias e tradições e, só depois, uma organização e um aparelho (que sem dúvida têm importância) para levar estas ideias a amplas camadas do proletariado. Esse partido, desde o seu início, deve basear-se na teoria e no programa, que é o resumo da experiência histórica geral do proletariado na luta de classes.

Mas esta é só a primeira parte do problema. A segunda é mais complexa, a saber: Como chegar às massas de trabalhadores com o nosso programa e as nossas ideias? Não é uma questão simples.

Para os apressados e por consequência sectários, isso não é nenhum problema. Basta citar Lenin sobre a necessidade de “um partido revolucionário independente”, nos proclamamos como tal e chamamos os trabalhadores a unirem-se a nós! (Sic)

No seu artigo Sectarismo, Centrismo e a Quarta Internacional (1935), Trotsky caracteriza os sectários da seguinte maneira:

“O sectário vê a vida da sociedade como uma grande escola na qual ele é o professor. Na sua opinião, a classe trabalhadora deveria deixar de parte outras coisas menos importantes e sentar-se ordenadamente em redor da sua tarimba. Então a tarefa estaria resolvida.

Apesar de jurar pelo marxismo em cada frase, o sectário é a negação direta do materialismo dialético, que toma a experiência como ponto de partida e sempre regressa a ela. Um sectário não entende a ação e reação dialética entre um programa acabado e a luta de massas viva, quer dizer imperfeita, inacabada. O sectarismo é hostil à dialética (não em palavras, mas na prática) no sentido em que volta as costas ao desenvolvimento real da classe trabalhadora”. (Trotsky, Escritos, 1935-36.)

No documento fundador do nosso movimento, O Manifesto Comunista, Marx e Engels explicam que:

“Em que relação se encontram os comunistas com os proletários em geral?

Os comunistas não são um partido particular face aos outros partidos operários. Não têm interesses separados dos interesses de todo o proletariado. Não estabelecem princípios segundo os quais pretendam moldar o movimento proletário.

Os comunistas distinguem-se dos demais partidos proletários apenas porque, por um lado, nas diferentes lutas nacionais dos proletários acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade, do proletariado na sua totalidade, e porque, por outro lado, nas várias etapas de desenvolvimento por que passa a luta entre o proletariado e a burguesia representam sempre o interesse do movimento na sua totalidade.

Os comunistas são, pois, praticamente, o setor mais decidido, sempre impulsionador, dos partidos operários de todos os países; teoricamente, têm, em avanço sobre a restante massa do proletariado, a compreensão das condições, do curso e dos resultados gerais do movimento proletário.”

Os fundadores do socialismo científico sempre partiram do movimento tal como era, e aplicaram as táticas mais hábeis para se ligar com o real movimento da classe e a partir daí de maneira adequada propagandear o programa. Pode-se observar as várias táticas que Marx e Engels adotaram em momentos e situações da luta de classes, por exemplo, inicialmente, aparecer como a extrema esquerda do movimento democrático. O trabalho de Marx em redor da Nova Gazeta Renana foi um modelo de agitação revolucionária que combinava a luta por reivindicações democráticas mais avançadas com uma defesa implacável do ponto de vista independente de classe do proletariado.

A Liga dos Comunistas foi, desde o princípio, uma organização internacional. Não obstante, a formação da Associação Internacional dos Trabalhadores (a Primeira Internacional), em 1864, constituiu um passo qualitativo em frente. A tarefa histórica da Primeira Internacional foi a de estabelecer os princípios fundamentais, o programa, a estratégia e a tática revolucionária à escala internacional. Na sua concepção, a AIT não era uma Internacional Revolucionária, mas uma organização extremamente heterogênea, composta por sindicalistas reformistas britânicos, proudhonistas franceses, italianos seguidores de Mazzini, anarquistas e outros do estilo. Naquele momento era a possibilidade de combinar a firmeza nos princípios com uma grande flexibilidade táctica, Marx e Engels, dessa maneira gradualmente, ganharam a maioria. Numa carta a Engels, Marx explicava que tinham de usar de extremo tato, especialmente à hora de combater os preconceitos dos “trade-unionistas” britânicos. Numa frase muito apropriada, Marx disse que sempre era “flexível na forma, mas audaz no conteúdo”. Esta frase resume a atitude dos marxistas no seu trabalho nas organizações operárias reformistas.

A AIT conseguiu fundar as bases teóricas para a construção de uma Internacional revolucionária. Mas não foi uma Internacional de massas, entretanto foi uma antecipação do futuro. A derrota da Comuna de Paris teve um efeito desorientador sobre as frágeis forças da Primeira Internacional que entrou em crise, agravada pelas intrigas dos bakuninistas (anarquistas). Para evitar que a Internacional caísse nessas mãos (dos bakuninistas), Marx e Engels primeiro mudaram a sede para os Estados Unidos e, depois, decidiram dissolvê-la em 1872. Apesar de continuarem a defender os princípios do internacionalismo, durante um período Marx e Engels estiveram sem uma organização internacional.

Fim da parte 1
Continua