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Marighella e o amor pelo Brasil

foto mostra o ator Seu Jorge em um banco de cinema
Divulgação

Parangolé

Felipe Nunes  é ativista social, cantautor, poeta, artista gráfico, antropológo e historiador e doutorando em Antropologia Social pela UFRN. Desenvolve pesquisa relacionada à constituição da identidade, subjetividade, negritude, etnomusicologia, construção das tradições, arte e cultura, entre outros temas. Tem se dedicado a pesquisa de sonoridades afro-ameríndias no Brasil e América Latina. Realizou pesquisas musicais em cinco cidades cubanas, trocando experiência e coletando sonoridades dos artistas locais. Escreve ao Esquerda Online sobre temas relacionados a produção artística no Brasil e no mundo.

Esse homem amou o Brasil”, grita a personagem de Maria, neta de Marighella, atriz e vereadora em Salvador (BA), além de uma das grandes responsáveis, segundo o diretor do filme, Wagner Moura, pela realização do longa-metragem. Essa frase sintetiza o espírito de Carlos Marighella, baiano, poeta, escritor, político, uma das pessoas que mais amou o seu país e que voltou a incendiar o Brasil com o lançamento do filme “Marighella”, onde tem seus últimos anos de vida contados nas grandes telas.

Em seu livro, “Tudo sobre o amor” lançando neste ano (2021) pela editora Elefante, a professora, ativista antirracista e escritora norte-americana Bell Hooks nos fala sobre como o amor pode transformar o mundo se abraçarmos uma ética amorosa em todas as suas dimensões – cuidado, compromisso, confiança, responsabilidade, respeito e conhecimento – em nosso cotidiano. Um olhar panorâmico sobre a vida do brasileiro Marighella nos conecta diretamente à frase pronunciada no filme, ao entendermos o ato de amar enquanto ação, ato de vontade, nutrir sobre algo ou alguém uma vontade de crescimento. Carlos Marighella dedicou toda a sua vida pela defesa do seu país e dos brasileiros-as, enfrentou duas ditaduras sangrentas, entregou toda a sua energia até o último pulsar do seu coração pelo bem comum. Em tempos onde o patriotismo se confunde com a utilização de camisas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ou bandeiras alçadas em manifestações por saudosistas do regime militar, a luta de Marighella pelo Brasil intui o sentido mais genuíno de amor à pátria, doar seu tempo na construção de um lugar comum para todas, com justiça, igualdade social e econômica, e numa defesa intransigente a democracia.

Neste sentido, retomar a história de Marighella é devolver ao imaginário brasileiro um dos grandes apaixonados por esse país e restabelecer os parâmetros sobre o real significado de defender uma pátria, uma comunidade. Assistir ao filme dirigido por Wagner Moura causa um sentimento de déjà-vu às avessas quando direcionamos nossas lentes para os acontecimentos do Brasil atual com adoradores de torturadores na Presidência da República, homens e mulheres brancas raivosas gritando contra a ameaça comunista nas ruas das cidades. Carlos Marighella nos dá uma boa indicação de como enfrentarmos as questões mal resolvidas em nosso país quando diz “Não tive tempo para ter medo”, o que nos leva novamente para Bell Hooks quando afirma que “o medo é a força primária que mantém as estruturas de dominação” e completa “Quando escolhemos amar, escolhemos nos mover contra o medo. (…) A escolha de amar é uma escolha por conectar – por nos encontrarmos no outro” (p.113).

Se o poder do amor é transformador, a Revolução no Brasil tem um nome, como canta Pedro Paulo Soares Pereira, mais conhecido como Mano Brow “Vejam o homem / Sei que esse era um homem também / A imagem e o gesto / Lutar por amor”. Marighella morreu de amor pelo Brasil.

Referências bibliográficas
Hooks, Bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Trad. Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2021.

Marcado como:
Marighella