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Memórias frágeis (2) Maio de 1971. A ditadura salazarista

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Cinquenta anos atrás, em 1971, aos quinze anos, fui expulso do Liceu Pedro Nunes em Lisboa. Meu “batismo político”. Foi uma expulsão branda, porque convidado, depois de uma negociação quando descobriram que minha mãe trabalhava na Embaixada do Brasil, a não me matricular no ano seguinte. Não era senão um garoto. Não me arrependi de ter desafiado as autoridades da reitoria como representante eleito pelos meus colegas. Mas aprendi a ter medo. E aprendi, também, que a repressão, em algumas circunstâncias, funciona. A repressão funciona porque as pessoas, mesmo quando jovens, têm medo de perder o que têm, e o medo pode ser um sentimento contagioso.

Essa etapa da vida começou em 1966. Quando cursava a quarta série, minha mãe decidiu se separar, e resolveu colocar, literalmente, um oceano de distância entre ela e meu pai. As circunstâncias no Itamaraty tinham mudado da noite para o dia, depois do golpe de 1964. Minha mãe tinha sido secretária de San Tiago Dantas, e exercido cargo de confiança no governo Jango. Não podia continuar no Rio de Janeiro. Ou uma mudança para Brasília ou para o exterior. Brasília era impensável, por variadas razões. O certo é que fomos para Lisboa, em plena ditadura salazarista.  

Foi um alívio, porque as brigas dentro de casa tinham se tornado uma rotina triste. Tinha então nove anos, e só voltei a encontrar meu pai aos 21, quando voltei para o Brasil em 1978. Lisboa era uma cidade muito diferente do Rio, até porque tinha quatro estações muito diferentes umas das outras e, mais importante, uma delas era o inverno. Salazar ainda estava vivo e governava, e o país já sangrava os custos econômicos e sociais da guerra colonial. O Rio era uma cidade mais alegre, e perdi a praia que estava no atravessar da rua, mas como minha casa tinha uma atmosfera pesada, o sossego de Lisboa e de um ambiente familiar mais calmo foram confortáveis.

Viajamos em agosto, no meio do ano letivo, e retomei do início o antigo quarto ano do primário no final de setembro no Colégio Pestalozzi, uma escola particular um pouco especial, onde estudavam alguns filhos de presos políticos do salazarismo. Lucinda era a diretora do Colégio e professora do quarto ano, uma senhora de mais de cinquenta anos, muito mais velha que as minhas professoras na Escola Brasileira da Criança, em Ipanema. Alertou minha mãe que o exame de admissão ao Liceu poderia ser difícil pela diferença dos programas escolares. Seria impossível, legalmente, prestar o exame somente com a metade do quarto ano cursado, ainda mais vindo do estrangeiro.

Perdi meio ano com a mudança, mas a recompensa foi grande. Enfrentei, em 1967, o exame de acesso sem dificuldades e conquistei matrícula em um dos liceus públicos mais renomados de Lisboa, o Pedro Nunes. O critério era o local de residência, mas os bairros próximos, do Largo do Rato até Campo de Ourique, da Estrela até a Mouraria, embora predominassem jovens das camadas médias, permitia que filhos de todas as classes sociais estudassem juntos. Minha adaptação foi rápida.

Descobri, depois de voltar ao Brasil, que a imagem do país, entre nós, não tinha muita correspondência com a realidade da Lisboa em que vivi. Embora atrasado para padrões europeus, e amordaçado por décadas de ditadura obscurantista, Portugal não era uma nação camponesa e, sobretudo, Lisboa não era uma cidade rude. Mas, mesmo nos ambientes de classe média, o comportamento esperado e valorizado era, talvez, mais direto ou menos dissimulado que na zona sul do Rio de Janeiro.

Creio que uma definição apropriada do meio social em que estávamos inseridos, os círculos de classe média “ilustrada”, seria dizer que eram afrancesados na formação cultural, e anglófilos no comportamento: o universalismo iluminista e a vivacidade da “joie de vivre” gaulesa, mas sem a afetação parisiense, e os modos e costumes que se deveria exigir de pessoas educadas era rígidos, mas sem o senso de humor inglês. Em uma palavra, eram formais, mas não eram solenes.

Esperava-se que um adolescente tivesse curiosidade e afinco intelectual nos estudos, e fibra, autodisciplina e contenção emocional na conduta. Para mim não foi difícil, mas para meu irmão, uma tragédia. Ele se sentiu um peixe fora do aquário, ou pior, enjaulado. Quis a ironia da vida que fosse eu a voltar para o Brasil, e ele a ficar em Portugal.

Não havia liceus mistos. A juventude proletária começava a trabalhar bem cedo, no máximo, aos quinze anos. Mas nessa época, em Portugal, os filhos de todas as classes sociais estudavam o secundário, quando não tinham abandonado a escola, em escolas públicas: entre meus colegas tive, por exemplo, um dos herdeiros do Banco Homem de Mello, que a revolução depois, nacionalizou. A maioria esmagadora das escolas particulares era confessional. E as poucas que não eram atraíam os repetentes crônicos, mas endinheirados, e não tinham prestígio. 

Construí desde o primário uma grande amizade, que cultivo à distância até hoje, com Pedro Martins Rodrigues, filho do Chico Martins, comunista, dissidente pró-Pequim do PCP, ex-braço direito de Álvaro Cunhal, respeitado na China e na Europa, um dos mais famosos presos políticos do salazarismo. Fui acompanhá-lo em uma visita ao pai à prisão de Caxias, a Bastilha do Regime ditatorial, onde, felizmente, não me deixaram entrar. Aos treze anos, descobri que havia prisões, e homens nelas encarcerados pelas suas ideias e sua luta.

A ideologia ultraimperialista do salazarismo era martelada desde o primário, e me recordo que esse orgulho não estava somente nos livros, mas nas ruas. Muitos de meus colegas tinham familiares espalhados pelas colônias. Todos aprendiam que viviam na metrópole de um grande império, multicontinental, que se estendia da Europa à África e Ásia

A ideologia ultraimperialista do salazarismo era martelada desde o primário, e me recordo que esse orgulho não estava somente nos livros, mas nas ruas. Muitos de meus colegas tinham familiares espalhados pelas colônias. Todos aprendiam que viviam na metrópole de um grande império, multicontinental, que se estendia da Europa à África e Ásia. Não me lembro de ter sido discriminado como brasileiro. Éramos muito poucos, e a atitude em relação ao Brasil, sobretudo depois da exibição das primeiras novelas, como Gabriela e o Casarão, era de simpatia e curiosidade.

A disciplina nos Liceus era semimilitar, em todos os terrenos e em todos os aspectos. A escala de avaliação era de 0 a 20, e os alunos que tivessem uma média trimestral, em todas as disciplinas, igual ou superior a 15 valores, iam para o quadro de honra, um destaque socialmente muito valorizado. Dominava uma ideologia de meritocracia, que era um dos valores que o regime tentava se apropriar como sua razão de ser. Alguns jornais diários publicavam, no final do ano, os nomes dos alunos que estavam no quadro de honra no Pedro Nunes, no Camões, no Padre Antônio Vieira, etc… Os Liceus eram poucos e, comparativamente às Escolas Estaduais de São Paulo, muito grandes, com vários milhares de alunos.

Fui quase sempre aluno do “quadro de honra”, mas não me lembro de ser o que se chamava no Brasil de CDF, e hoje é conhecido como nerd. Compensava notas razoáveis em matemática, que nunca me interessou senão como um jogo, com notas altas em língua portuguesa, história, geografia, francês e inglês.

Quando passei para o que hoje corresponde à sétima série, fui escolhido, junto a outros quarenta colegas para um projeto piloto. O reitor do Liceu, um homem ilustrado e querido pelos alunos tinha decidido juntar os melhores estudantes em uma mesma turma, e fazer uma experiência pedagógica diferente. Era um desses projetos piloto que valorizavam turmas homogêneas, mas pouco claro: tínhamos uma carga horária maior, de manhã e à tarde, e uma grade de disciplinas mais variada. Os pais estavam muito orgulhosos. Mas o fiasco foi completo. Entre outras razões porque o reitor se afastou, e o vice-reitor do Pedro Nunes era um aprendiz de Mussolini, um tirano.

Nesse ano começou a ser organizado um movimento estudantil secundarista com atividades de denúncia da guerra. Organizado por jovens com contatos com organizações clandestinas, a agitação de resistência à ditadura tinha muita aceitação: os panfletos eram deixados nos banheiros, porém, circulavam. A bandeira principal dos “comunicados”, como se diz em Portugal, era “Nem mais um só soldado para as Colônias”. Mas a minha turma era ainda muito jovem para compreender plenamente o drama de um país de dez milhões de habitantes, que insistia em manter um serviço militar de quatro anos, dos quais pelo menos dois em África. Dezenas de milhares de jovens embarcavam para a Guiné, Angola e Moçambique. A guerra parecia ainda muito distante. Uma distância que os anos seguintes foram reduzindo.

Mas podíamos entender com facilidade que ficávamos na escola o dobro do tempo dos outros, tínhamos obrigações e deveres desproporcionalmente maiores e, promovidos à condição de cobaias pelo mérito, nos sentíamos no direito de reclamar dos professores mais obtusos. Não posso ser injusto: tínhamos, por exemplo, entre outros extraordinários mestres, o afamado poeta Antonio Gedeão como professor. A gota d’água foi, como é comum ocorrer, uma arbitrariedade trivial: a proibição da participação de nossa turma no campeonato de futebol, porque coincidia com o horário das aulas extra. Foi assim que participei da primeira greve de minha vida. Bom, não há porque exagerar foi só uma greve de silêncio, e algumas recusas de entrar na sala de alguns professores especialmente carrascos. Mas duraram três longos dias, e pareceu aos nossos olhos juvenis, algo grandioso. Vencido o medo, foi a primeira revolta.

A fúria repressiva foi imediata e ameaças de expulsões estavam no ar. O Vice-Reitor, que era quem cuidava dos assuntos disciplinares, estava possesso. Uma reunião de pais foi convocada e, como vários entre eles eram pessoas muito influentes, o presidente da Radio Difusão Nacional, por exemplo, decidiu-se por algo brando: a turma foi dissolvida. Mas, não sem represálias.          

Aí as complicações começaram para mim. Como eu não tinha um pai presente, e tomado por um atrevimento que, mesmo considerando a idade, só a pressão da mobilização dos nossos colegas poderia explicar, preferi não entregar a convocatória à minha mãe e, junto com outro colega, Luís Quintaneiro – décadas depois foi o primeiro presidente do Banco Central em Timor Leste independente – fomos nós mesmos à reunião, desafiar o Vice-Reitor. Até hoje me lembro do primeiro ato de insubordinação de minha vida. Gaguejamos, mas sem perder a dignidade. Foi o bastante para um escândalo.

Na sequencia, virei o bode expiatório. Como fui porta-voz dos meus colegas, fui acusado, junto com Luís, de ter quebrado intencionalmente o vidro de uma janela de um corredor, o que era uma calúnia desmiolada. Insinuaram, também, para nossas mães, que seríamos responsáveis pela distribuição dos comunicados “subversivos” o que já era hilário. Fui convidado a deixar o Pedro Nunes no final do ano letivo, uma solução que evitava a expulsão, e permitia matrícula em outro Liceu. Tinha terminado aquilo que, na época, correspondia ao ginásio no Brasil. Foi sem tristezas que, aos quinze anos, fui para o D. Pedro V, um dos primeiros Liceus mistos de Lisboa. Na época, me senti como saindo de um filme em preto e branco, e entrando em um filme a cores.

As acusações sendo falsas, não fui recriminado por minha mãe, que ficou apenas um pouco aborrecida pela minha arrogância de não ter compartilhado tudo que estava acontecendo, mas manteve-se incondicionalmente solidária. Na época, acho que senti até um olhar, da parte dela, de alguma maneira, mais altivo. Foi o meu batismo político, por assim dizer. Discutindo depois em casa, aprendi que há sempre mais de uma maneira de fazer a coisa certa e, havendo escolha, agir sozinho e escolher por impulso a mais perigosa não é o mais inteligente.

A experiência no Liceu Pedro Nunes tinha sido uma lição contundente. O que um jovem de quinze anos podia saber sobre a ditadura salazarista era pouco, mas a partir daquela expulsão negociada, ficou claro para mim que o país estava dividido, irreconciliavelmente, entre os que apoiavam, e os que se opunham à ditadura e à guerra, e eu já sabia quem era a minha turma. Me integrei no movimento estudantil.

A luta faz de nós pessoas melhores.

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