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Junho de 2013: O grito que não se calou

José Cruz/Agência Brasil

Manifestação no prédio do Congresso Nacional, em Brasília, em Junho de 2013

Veronica Freitas

Veronica Tavares de Freitas é socióloga e militante socialista, integra a Resistência, a Resistência Feminista e o PSOL (RJ). Formada pela UFRJ, faz doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP.

Neste mês completamos 8 anos das Jornadas de Junho, momento marcado por uma explosão política no país. Iniciadas pelo aumento do preço das passagens, as mobilizações levaram milhões às ruas, com o florescimento de inúmeras pautas e formas de protesto pelas cidades de norte a sul. A partir de então, grandes mudanças ocorreram, reconfigurando as alianças e posicionamentos que se desenvolviam desde a redemocratização. O presente texto traz algumas reflexões sobre o episódio e seus desdobramentos, compreendendo a necessidade um balanço apurado do processo para encararmos com lucidez os desafios da conjuntura brasileira. 

De partida, importa localizar 2013 em um fenômeno mais amplo da geopolítica internacional. Com o marco da primavera árabe, países do mundo inteiro viveram na década de 2010 a explosão de grandes mobilizações, conformando ciclos de protestos por todo o globo – isto é, momentos de amplo confronto político, transbordando das organizações e pessoas que comungam de experiências em lutas sociais. Combinaram-se, afinal, dois elementos centrais para isso: de um lado, a intensificação das contradições da urbanização, com o marco das últimas décadas representando uma mudança histórica da humanidade, pois pela primeira vez a população urbana ultrapassou a rural, acumulando processos complexos de expropriação, como aponta David Harvey; de outro, a crise de 2008 iniciada nos EUA, ocasionando um abalo econômico expressivo, com uma onda que impactou todo o planeta e foi muito além da “marolinha” que alguns esperavam. 

Esses fenômenos, associados às particularidades locais, geraram um período de protestos urbanos que foram amplamente disputados pelas forças políticas de cada nação. Infelizmente, ainda sob impacto da queda do muro e do avanço do neoliberalismo, a ausência de uma ofensiva da classe trabalhadora significou em muitas realidades uma reorganização subsequente a essa indignação, que gerou um ganho de espaço da direita e do reacionarismo. No caso latino-americano, as burguesias nacionais, com apoio internacional, usaram o momento de fluidez conjuntural para romper à direita com experiências advindas dos/as trabalhadores/as, com distintos níveis de fragilidade diante dos alinhamentos baseados na conciliação de classes. 

A explosão da indignação e as oportunidades políticas

No Brasil, a explosão de 2013 se iniciou com um predomínio de pautas progressivas, inclusive com espaços iniciais com protagonismo dos partidos e movimentos de esquerda pelos estados. No entanto, diante da massificação ocorreu uma aposta também da direita organizada em disputar a insatisfação crescente. Assim, no ano de 2014, vivemos a incapacidade do governo em retomar seus níveis de popularidade. A realização da Copa, com graves de violações de direitos, manteve amplos setores da esquerda engajados em denunciar as arbitrariedades envolvidas nos preparativos do megaevento. No caso do Rio de Janeiro, essa crise foi ampliada pelas consequências do pacto do PT com o PMDB, abalado pelo fortalecimento do Fora Cabral e a revolta nas ruas. 

Por sua vez, a direita se fortalecia pelos instrumentos que já vinham sendo construídos desde as gestões anteriores do PT, mas que ganharam novo fôlego diante de 2013, inclusive com a fundação do juvenil MBL. A organização apresentou uma participação meteórica, sendo o ano de 2014 o momento em que o grupo foi criado e se juntou com outros, em uma confluência de tradições liberais e autoritárias. Neste período, destaca-se o crescimento daqueles que já existiam anteriormente, como é o caso do Nas Ruas, dirigido pela atual Deputada Federal Carla Zambelli (PSL), com a experiência das Marchas Contra a Corrupção. Além disso, o uso da internet e seu apelo de contradiscurso (em diálogo com o imaginário de 2013 de denúncia da manipulação da mídia hegemônica) foi também intensamente acumulado por esse campo político. É o caso do próprio MBL, Revoltados Online, Olavo de Carvalho, Terça Livre, entre tantos outros. 

Já havia, afinal, expressões anteriores de oposição de direita aos governos do PT, mas suas lideranças aproveitaram e aprofundaram as oportunidades abertas na crise iniciada em 2013. Em seguida, 2014 foi um marco da eleição de conservadores nas casas parlamentares. Entre aqueles que se organizavam nacionalmente desde a gestão de Lula, é importante mencionar a relevância de sujeitos antigos da política nacional. Assim, a ideia de uma “nova direita” ignora que dirigentes centrais dessas alianças constituem uma história profunda do conservadorismo, como Bolsonaro, Olavo de Carvalho, e líderes fundamentalistas. Nesse meio, um importante ator que somou na disputa foram os militares. Esses já elaboravam diversas críticas aos rumos do país há décadas, mas na gestão de Dilma a insatisfação teve sua gota d’água. Diante do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, em 2014, setores intervencionistas das Forças Armadas – que advogam contra o “revanchismo” baseados na ilegítima Lei de Anistia – encararam a questão como uma traição por parte do governo. Essa posição pode ser identificada em depoimentos de suas representações, e o General Villas Bôas relatou o caso em recente entrevista (1). A partir de então, esses setores também engrossaram o caldo do crescimento conservador e do golpismo na superestrutura nacional.  

Com o impeachment de Dilma Rousseff (PT) consolidado e a ascensão de Michel Temer (PMDB), vivemos uma guinada de ataques. A proposição, no contexto da reforma trabalhista, de pagar trabalhadores rurais com comida e moradia, no debate do PL de autoria do Deputado Nilson Leitão (PSDB), então presidente da Frente Parlamentar Agropecuária, revela o quanto a lógica racista e reacionária permanece e encontrou espaço para aflorar. Ademais, o processo de organização da direita não se encerrou com o golpe, com o acúmulo de forças da extrema direita na disputa das ruas e da arena institucional. O crescimento de Jair Bolsonaro, congregando as diferentes expressões do conservadorismo, consolidou a vitória de uma líder fascista na presidência. 

Reorientações na resistência

Do lado do progressismo, 2013 também significou um conjunto de mudanças. Nesse sentido, é notória a força que o movimento feminista ganhou, com experiências que dialogam diretamente com as Jornadas de Junho, com ampla participação de militantes independentes, uso de jograis, e relevância de intervenções artísticas e performáticas. Assim, ainda que a nível mundial exista uma disputa dos rumos do feminismo, com peso para uma concepção liberal, nas ruas do país a direção da esquerda da luta das mulheres é inegável. Esse fenômeno pode ser identificado em outras realidades, conformando o que muitas consideram uma nova onda internacional, pautada pelo feminismo para os 99%. 

Outro aspecto importante foi a nacionalização da resistência, intensificada posteriormente pela deflagração do impeachment. Os protestos de junho foram marcados pelos “dias nacionais de luta”, o que não era praticado de forma ampla até então, com experiências pontuais no movimento estudantil e sindical, ou datas comemorativas. Isso no contexto da ascensão do PT ao poder e um amortecimento dos instrumentos da classe, com uma subtração do potencial de articulação nacional, ganhando força as disputas locais e suas particularidades. Essa foi uma mudança contundente, com a criação posterior da Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo no enfrentamento ao golpe, a partir de 2015 e com atuação até hoje. Em paralelo, o tamanho dos atos mudou de proporção desde 2013, com uma ampliação da participação, ainda que oscilante.

A relevância dos temas urbanos e da necessidade de renovação das formas de luta também foram marcos de mudança qualitativa. Como desdobramento, o MTST se consolidou como um dos principais movimentos do país, com uma guinada diante da experiência da Copa do Povo, em 2014, em São Paulo. Outro aspecto interessante é a identidade com processos políticos mais amplos. É o caso da utilização do recurso do dia e letra das manifestações como um marco dos dias nacionais e internacionais de mobilização. Assim, a partir da experiência do 15M, em convergência com os Indignados na Espanha, ocorreram diversos outros dias unificados, como o último 19J, dia de protestos massivos contra a política de morte de Bolsonaro por todo o Brasil. 

Aos outros junhos que virão

É nítido como junho de 2013 iniciou um processo de profunda crise na política brasileira. A polarização PT versus PSDB, conforme se desenvolvia ao longo das últimas gestões, foi diluída em outras oposições, bem como as redes de governabilidade do PMDB, atual MDB, colapsaram. A direita se fortaleceu, mas não firmou uma organização que represente seus interesses. Essa dispersão é inédita desde a redemocratização. O bolsonarismo que atingiu o poder se sustenta, afinal, pelo culto à personalidade do líder, enquanto a burguesia nacional flerta com distintas expressões do seu projeto. 

É fundamental enxergarmos esse marco como algo de grande impacto na nossa história. No entanto, é equivocada a ideia de que as jornadas de junho seriam o “ovo da serpente” da ascensão da direita. Afinal, o povo na rua mobilizado por direitos é algo que devemos fomentar e fortalecer. Faltou das organizações da classe, no entanto, força política para disputar os rumos da indignação. O esgotamento e esvaziamento dos instrumentos do bloco histórico anterior se revelaram e a dispersão da esquerda pagou seu preço, com o aproveitamento pelo conservadorismo das oportunidades emergidas no desenrolar da crise. 

Neste ínterim, fica a reafirmação da Frente Única (“Frente de Esquerda”) como nossa tarefa histórica e de necessidade premente. É na aliança das diferentes expressões de luta dos/as trabalhadores/as que encontraremos a força social capaz de enfrentar as raízes das desigualdades estruturais em nosso país e no mundo. Não se trata de esperar as próximas eleições, é na ação cotidiana que esses caminhos são trilhados. A derrota de Bolsonaro por meio do fortalecimento dos instrumentos da classe e o seu reconhecimento em um sentido comum são, portanto, os passos necessários para nos fortalecermos para os próximos junhos que virão. 

NOTAS

(1) CASTRO, Celso (Org.). General Villas Bôas: Conversas com o comandante. Rio de Janeiro, FGV Editora, 2021.

Marcado como:
Junho de 2013