Pular para o conteúdo
MOVIMENTO

Os próximos passos da Campanha Fora Bolsonaro e os perigos da fragmentação das lutas

Gibran Jordão*, do Rio de Janeiro, RJ
Pedro Rocha | Cobertura Frentes de Luta

Manifestação no Rio de Janeiro

O 29M expressou a insatisfação da maioria, mobilizou pessoas em mais de 200 cidades no Brasil, e em 14 fora do país. Segundo dados centralizados pelo operativo da organização das mobilizações, mesmo em um momento preocupante da pandemia, colocaram-se em movimento quase meio milhão de pessoas em todo o país. No centro das reivindicações estava a palavra de ordem Fora Bolsonaro!

Mas esse movimento não foi forte somente nas ruas, a agitação virtual nas redes sociais furou todas as bolhas, e a hashtag #29MForaBolsonaro elaborada pela campanha unitária chegou no topo dos assuntos mais falados do Twitter no Brasil e no mundo, com quase 2 milhões de postagens. Muitos artistas, como Renata Sorrah, Samantha Schmütz e Anitta, ex-BBBs com milhões de seguidores, e até esportistas de peso como o piloto de Formula 1 Lewis Hamilton apoiaram os atos em suas redes sociais.

Mesmo com o boicote da grande mídia, muitos articulistas, comentaristas e jornalistas dos mais variados órgãos da grande mídia deram declarações e publicaram textos positivos, e até os mais críticos sinalizaram que o ato foi importante como resposta ao governo Bolsonaro. Até a Rede Globo que fez inicialmente uma cobertura para lá de discreta, passou a noticiar as manifestações com mais ênfase no Jornal Nacional desta segunda-feira, 31.

Tanto o governo como o movimento bolsonarista sentiram que o 29M teve força suficiente para ganhar uma dinâmica que gere mais desgaste. E isso acontece num momento em que o governo enfrenta a CPI do genocídio no Senado, pesquisas de opinião estão apresentando números preocupantes, os índices econômicos como desemprego e inflação são péssimos e não permitem que a curto prazo tenhamos um cenário melhor para a vida do povo. Assim, tudo que Bolsonaro não quer nesse momento é um movimento organizado com calendário de lutas unificado e permanente nas ruas.

A frente única foi um elemento decisivo para o sucesso do 29M!

Qualquer direção política de uma organização que esteja seriamente trabalhando com a estratégia de derrubada do governo Bolsonaro sabe que essa conquista não está na próxima esquina. Compreende que as frações da classe trabalhadora estão em ritmos desiguais e expressam compreensões diferentes do significado do governo. É também possível perceber que mesmo com um forte desgaste, o bolsonarismo ainda tem capacidade de mobilização e enfrentamento político nas ruas. Assim, para as organizações da classe trabalhadora, é absolutamente necessário a formação e o funcionamento permanente de uma frente única que acumule força social suficiente para que o impeachment se torne uma realidade.

Pois bem, a Campanha Nacional Fora Bolsonaro é até agora a maior experiência de frente única que surgiu contra o governo Bolsonaro e a extrema direita no Brasil. Desde o início do ano, com a convocação das carreatas, essa campanha vem conseguido reunir as Frentes Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo, a Coalizão Negra, o Fórum por Direitos e Liberdades Democráticas, movimentos de juventude, organizações de mulheres, LGBTQIA+, o movimento sindical e organizações políticas de esquerda. É preciso dar valor a unidade que foi costurada na Campanha Fora Bolsonaro, fortalecer essa iniciativa e combater os elementos que jogam a favor da sua paralisação e ou fragmentação.

As mobilizações de rua não teriam chegado até o 29M, se não fosse a força política que a Campanha Fora Bolsonaro agrega. Muito provavelmente não teremos a menor chance de avançar posições daqui pra frente se apostarmos na divisão e fragmentação do calendário de lutas. Sem a frente única, não haverá vitória contra a extrema direita e Bolsonaro pode até mesmo se recuperar. Alguém acredita que o Congresso Nacional irá apertar o botão do “remédio amargo” sem forte mobilização da oposição nas ruas?

A indiferença e/ou o impressionismo em relação as mobilizações de rua são elementos nocivos para a unidade…

Muito se falou da postura de Lula em relação ao 29M, há muitas cobranças sobre sua aparente omissão e indiferença com as mobilizações contra Bolsonaro – o silêncio dele foi percebido. Qual cálculo faz o ex-presidente para se comportar dessa maneira? A preocupação com os desdobramentos da pandemia, as possíveis consequências e prejuízos políticos na relação com as forças de centro direita e o calendário eleitoral de 2022 com certeza explicam Lula ter se distanciado do 29M.

Mas justiça seja feita, embora a maior liderança do PT não tenha se manifestado nas redes sociais, milhares de militantes petistas estiveram nas ruas, como a vereadora do PT que foi gratuitamente agredida com spray de pimenta por policiais em Recife. A presidenta Nacional do PT, Gleisi Hoffman, esteve e falou no ato de São Paulo. Já Washington Quaquá, presidente do PT no Estado do Rio de Janeiro, fez, ao contrário, uma luta política contra os atos.

Claramente existem disputas e polêmicas em curso, mas as frentes convocaram os atos de modo unitário, é este foi o fator decisivo do sucesso. Em nossa opinião, Lula carrega um legado e tem uma influência forte sobre a classe trabalhadora e sendo assim, deveria fazer uso do seu capital político e da sua autoridade para participar ativamente da Campanha Fora Bolsonaro.

Na outra ponta, há organizações políticas que começam a apresentar uma postura divisionista, inconsequente e preocupadas em primeiro lugar em ser protagonistas de uma luta que mal começou. Manifestando uma atitude muito curiosa,  convocaram de maneira paralela as mobilizações do 29M, mesmo participando do operativo nacional da campanha oficial. Além disso, também estão convocando uma assembleia do movimento “Povo na Rua…”, para “decidir a data” da próxima manifestação contra Bolsonaro, à revelia e desrespeitando outros setores do movimento, fundamentais para construir grandes mobilizações.

No mundo da elaboração política, todas as táticas e propostas para o movimento precisam ter mediações, sínteses e margem democrática para temperar as condições no qual [email protected] se sintam confortáveis para implementar a política acordada. Mas há setores do movimento que temperam suas elaborações políticas como alguém que come sal puro. Esquecem completamente que o inimigo a ser vencido, por mais desgaste que acumule, ainda conta com apoio de massas, uma forte presença nas redes sociais e uma relação cada vez mais próxima das forças de segurança, o que inclui policiais e militares das forças armadas. Além disso, a relação da família Bolsonaro com as milícias no Rio de Janeiro é muito preocupante, principalmente porque os generais e outros oficiais da ativa e da reserva que compõem o governo fazem vistas grossas para esse fato.

Os próximos passos da campanha Fora Bolsonaro

Não tenhamos dúvida, o bolsonarismo vai seguir sua mobilização permanente nas ruas, fazendo agitação sobre as forças de segurança e bombando nas redes sociais suas ideias reacionárias e conservadoras. Isso significa que não temos escolha – mesmo numa situação dramática de pandemia fora de controle, é preciso dar respostas políticas, fortalecer o trabalho de base e dar continuidade às lutas.

Isso significa que nenhuma força política na esquerda tem o direito de propor isoladamente ao movimento aventuras fruto de avaliações impressionistas. O próximo calendário de lutas a ser elaborado tem que levar em consideração em primeiro lugar a capacidade de unificação da classe trabalhadora e dos movimentos sociais organizados. É preciso ainda dar importância as riscos sanitários e redobrar todos os cuidados para que mais pessoas sintam segurança em participar, e ainda será necessário dar um salto qualitativo na organização da auto defesa para que não se repita em nenhuma outra cidade a barbárie repressora da polícia sobre os manifestantes, como aconteceu em Recife. O ódio bolsonarista neofascista já domina a cabeça de vários destacamentos policiais, e esses, por sua vez, vão agir sempre com covardia, desafiando inclusive as ordens de governadores e a Constituição Federal.

Se as principais direções do movimento não se esforçarem pela unidade, com a paciência necessária para dialogar entre si, interagindo com as diferentes análises e ritmos de cada setor; se os cuidados sanitários não estiverem nas preocupações da organização das manifestações, principalmente num momento no qual tudo indica que teremos uma terceira onda de covid19; e se não avançarmos consideravelmente na organização da autodefesa para a proteção de quem participa das manifestações; Bolsonaro continuará de pé e poderá se recuperar.

 

*Gibran Jordão é membro da coordenação nacional da Travessia Coletivo Sindical e Popular.

Marcado como:
29M / Fora Bolsonaro