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Há fogo sob a terra

Reprodução

“Sea with Red Sun”, Emil Node

Parangolé

Felipe Nunes  é ativista social, cantautor, poeta, artista gráfico, antropológo e historiador e doutorando em Antropologia Social pela UFRN. Desenvolve pesquisa relacionada à constituição da identidade, subjetividade, negritude, etnomusicologia, construção das tradições, arte e cultura, entre outros temas. Tem se dedicado a pesquisa de sonoridades afro-ameríndias no Brasil e América Latina. Realizou pesquisas musicais em cinco cidades cubanas, trocando experiência e coletando sonoridades dos artistas locais. Escreve ao Esquerda Online sobre temas relacionados a produção artística no Brasil e no mundo.

Na década da ressaca, o mundo reorganizava os seus passos sobre os ossos da Segunda Guerra Mundial. No mesmo período, a poeta Ingeborg Bachamnn publicou em 1953 no livro “Die gestundete Zeit” seu célebre poema homônimo “O tempo adiado”, onde anunciava: “Vem aí dias piores / O tempo adiado até a nova ordem / surge no horizonte / Em breve deves amarrar os sapatos / e espantar os cães para os charcos[1].  Meio século depois, vivemos tempos incertos onde ao tentarmos imaginar futuros possíveis, não é mais possível sentir com alguma certeza a terra onde pisam nossos pés.

A metáfora ensejada pelo poema de Bachmann está longe de indicar espera, como talvez pudéssemos aferir em uma leitura ágil do título a uma ideia de retorno daquilo que terás sido, muito pelo contrário. Ela alerta sobre os dias vindouros, onde as palavras serão cortadas, o silêncio ordenado e a morte banalizada. No curso das décadas seguintes aos anos 1950, vivenciamos sangrentas ditaduras latino-americanas, pesadelos autoritários como o salazarismo que parecia interminável, a destruição de uma dignidade básica do trabalho promovida pelo tratcherismo, dentre outros exemplos da barbárie capitalista.

A pandemia da Covid-19 é a guerra do século XXI. Tem como fiadora das milhares de mortes pelo mundo a ganância capitalista que coloca o lucro em primazia a vida e impede uma vacinação universal entre todos os povos. Cientes de que a luta pela vida repousa na capacidade de inquietude, diversos povos se mobilizam contra a máquina capitalista, que por sua vez não descansou um segundo sequer durante a pandemia, e continuou a baforejar o seu hálito de morte sobre as terras yanomamis, as paredes das famílias palestinas, os morros do jacarezinho, as calles de Bogotá e demais rincões de resistência. Todavia, nossa insubmissão secular segue pulsante e sinaliza “Há fogo sob a terra / e é líquida a pedra dura[2]. Seguimos dispostas a escrever na madeira “enquanto ainda está verde, e com bílis / enquanto ainda está amarga, sigo / disposta a escrever o que era no início! / Tratem de ficar acordados![3]. Somente o fogo é capaz de subverter de forma brusca a realidade intragável dos dias que seguem, como aponto o filósofo Gaston Bachelard “Se tudo que muda lentamente se explica pela vida, tudo que muda velozmente se explica pelo fogo[4].

Ingeborg Bachmann, uma das maiores poetas de língua alemã, deixou uma obra brilhante e recentemente vem sendo explorada pelo público brasileiro, contemplado por uma belíssima publicação de “O tempo adiado e outros poemas” organizado primorosamente por Claudia Cavalcanti e editado pela Todavia Livros.

 

Referência bibliográficas

BACHMANN, Ingeborg. O tempo adiado e outros poemas. Seleção, tradução e posfácio: Claudia Cavalcanti, São Paulo: Todavia, 1º ed, 2020.
BACHELARD, G. A Psicanálise do Fogo. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

 

Notas

[1] Poema “Tempo adiado”
[2] Poema “Canções de uma ilha”
[3] Poema “Madeiras e lascas”
[4] “Psicanálise do fogo”, Gaston Bachelard.