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BRASIL

A Cúpula do Clima, o Brasil e a luta contra a catástrofe ecológica

No 22 de abril, dia internacional da Terra, também ocorre a Cúpula dos Líderes sobre o Clima. Evento capitaneado pelos EUA, se trata de uma promessa agitada durante a campanha eleitoral de Joe Biden e um movimento no qual o presidente norte-americano claramente visa se diferenciar do seu antecessor, que entre todas as características abjetas, também é um convicto negacionista das mudanças climáticas. No entanto, do que se trata este evento e, principalmente, qual a postura do governo brasileiro em um encontro de líderes internacionais que tem como pauta a agenda climática? 

Matheus Hein Souza*, de Porto Alegre, RS
Bolsonaro e ministros estão sentados, com fones de ouvido. Ao fundo, a bandeira dos EUA e Joe Biden, discursando na Cúpula do Clima
Marcos Correa/Presidência da República

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, discursa na cúpula do clima

Mudar o mundo mudando nada

A principal tarefa da Cúpula do Clima — além de resgatar o papel de liderança dos EUA — é funcionar como um espaço preparatório para a COP26, que ocorrerá em Glasgow, Escócia, no final deste ano. Neste sentido, se espera que a reunião dos líderes seja um espaço de balanço das ações internacionais efetuadas desde a última COP, mas especialmente uma análise sobre o comprometimento dos países com as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris, firmado na COP21 em 2015. 

Há muitas posições sobre o Acordo de Paris, desde os que o consideram excessivamente rigoroso, até os que o consideram muito modesto para atingir os efeitos necessários. O consenso científico é de que as metas estabelecidas no Acordo são o mínimo necessário para impedir o aceleramento das condições de deterioração climática em curso. O acordo foi assinado por quase a totalidade dos países, com pequenas exceções, configurando o que deveria ser um acordo global de ação coordenada contra a crise climática. De todo modo, o que se observa de 2015 para cá é o inverso do que deveria ocorrer. Segundo a OMM, de 2015 até 2019 foi o período de cinco anos mais quente já registrado e o ano de 2020 marcou 1,2º C acima das temperaturas da era pré-industrial, nos tornando cada vez mais próximos da perigosa marca de 1,5º C. É claro que ações climáticas não obtêm resultados imediatos, mas o que se observa é o crescimento alarmante das taxas de emissão dos gases de efeito estufa neste período. Isto é, a postura dos países tem sido oposta a que deveria ser adotada se as metas do Acordo estivessem no horizonte destas nações.

Já se tornaram clássicas as palavras de Greta Thunberg denunciando as “promessas vazias” que os líderes mundiais proferem COP após COP. De todo modo, o que se constata é uma continuidade dessa postura de grandiosas promessas na sua forma, mas que se encontram absolutamente vazias no seu conteúdo. Todos os países que firmaram o Acordo de Paris, em especial os grandes poluentes, têm apresentado metas audaciosas que visam não só conter, mas reverter a crise climática. Ainda assim, pouco é apresentado como propostas concretas para realizar tais metas. A verdade é que países como os EUA, que se pretendem os grandes campeões da ação climática internacional, prometem mundos e fundos em uma mão, enquanto batem recordes de emissão ano após ano na outra. Desde o Protocolo de Kyoto — firmado em 1997 sem a adesão dos EUA, mesmo tendo Al Gore como vice-presidente — os EUA têm procurado se estabelecer como protagonistas das políticas climáticas internacionais, com períodos de exceção como na era Bush e Trump, mas de maneira apenas formal, proferindo discursos e estabelecendo metas sem qualquer intenção de atingi-las. Não por acaso, Biden era vice-presidente durante o mandato de Obama. 

Basicamente o que ocorre é todo um discurso de transformação da sociedade, de uma mudança radical da forma em que vivemos, mas sem tocar nos elementos que de fato estruturam a forma que nossa sociedade se organiza. A indústria dos combustíveis fósseis segue sendo uma das que mais cresce anualmente, estando intimamente ligada a campanhas eleitorais pelo mundo e recebendo diversos incentivos estatais para continuarem operando e expandindo seus negócios. Por outro lado, as grandes potências capitalistas investem em uma perspectiva de abertura de novos mercados ligados a um discurso de preservação. Os mercados de carbono são um exemplo de como o capitalismo, mesmo em meio a uma crise que anuncia o fim das condições de existência humana, consegue encontrar caminhos para o lucro e acumulação de capital. Assim, tenta-se mudar o mundo, mudando nada.

Preservar a natureza passando a boiada

Reprodução

O Brasil sempre teve papel de destaque na pauta ecológica por sua extensão continental que lhe confere uma riquíssima biodiversidade, além da importância vital da preservação da Floresta Amazônica. Não é de se estranhar, portanto, que o presidente do Brasil fosse convidado para a cúpula, mesmo se tratando de um notório negacionista e ecocida como Jair Bolsonaro. De todo modo, o que deve provocar imenso estranhamento é a total desassociação entre o discurso de Bolsonaro na cúpula e a realidade ambiental na qual vivemos. 

Salles é um anti-ministro do Meio Ambiente

Desde a escolha de Ricardo Salles para a pasta do Meio Ambiente, ficou claro que não sobraria qualquer resquício de ação verdadeiramente ambiental no governo. O que presenciamos de lá para cá é não só uma continuidade das políticas de concessão ao setor agropecuário e de mineração, mas uma radicalização bárbara da relação destrutiva com a nossa natureza. Salles é um anti-ministro do Meio Ambiente, uma figura que está ali para facilitar a predação da natureza. O seu infame discurso sobre “passar a boiada” é o resumo mais bem acabado do significado deste governo em relação ao meio ambiente. As queimadas, o desmatamento, o desmonte das políticas de preservação, (1) o extermínio da nossa biodiversidade, a perseguição contra os povos originários e ativistas ecológicos, são todas provas e demonstrações de uma política ecocida em curso que tem impactos ecológicos irreversíveis.

Apesar de todos os fatos apontando na direção contrária, Bolsonaro fez um discurso na cúpula louvando as ações de preservação do governo, prometendo neutralidade climática até 2050, zerar o desmatamento ilegal até 2030 e se comprometendo em aumentar o orçamento dos órgãos de preservação. Se é bem verdade que todos os líderes mundiais fazem promessas vazias, no caso de Bolsonaro essa postura extrapola todos os limites, se tratando da mais descarada mentira. Sem levar em conta o cenário catastrófico do ano passado com o avanço do desmatamento da Floresta Amazônica e das queimadas devastadoras no Pantanal, o governo anunciou no início do ano o menor orçamento para o Ministério do Meio Ambiente em 21 anos. Para completar o absurdo, faz apenas uma semana que o superintendente da Polícia Federal do Estado do Amazonas foi exonerado do cargo por ter feito uma notícia-crime contra Ricardo Salles por facilitar o desmatamento ilegal por empresas madeireiras.

#ForaSalles

Obviamente Jair Bolsonaro e Ricardo Salles não pretendem cumprir o que prometem. O governo não apenas tem o rabo preso com os maiores interessados na devastação ecológica, mas é formado por aqueles que lucram com o desmatamento e a predação da natureza. O tom vago e a ausência de propostas concretas apontam para o real significado da presença do governo brasileiro no evento: o discurso de Bolsonaro na cúpula serve apenas para dar algum pretexto ao governo para pedir recursos internacionais.

É preciso que tenhamos clareza na incapacidade de qualquer esforço capitalista na preservação da natureza e do clima. As soluções mercadológicas e de geoengenharia são apenas jogos de sombra que o capital joga contra nós para que fiquemos distraídos enquanto as elites lucram com a nossa extinção. O governo Bolsonaro, entretanto, é a face ainda mais cruel de uma postura anti-ecológica. É urgente que nos manifestamos veementemente contra a política ambiental de Ricardo Salles. Cada segundo de Salles no governo são incontáveis km² de floresta desmatada, centenas de espécies dizimadas, inestimáveis biomas devastados. Cada ação de Ricardo Salles significa o sangue de comunidades indígenas e ativistas ambientais. É um passo a mais no caminho da catástrofe ecológica que se coloca na nossa frente e no nosso presente.

Salles precisa sair, para que nós possamos ficar!  


* Pós-graduando em Filosofia na PUC-RS e militante da Resistência/PSOL.

 

Notas

1 – https://www.oeco.org.br/noticias/servidores-denunciam-em-dossie-desmonte-da-politica-ambiental-no-governo-bolsonaro/