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Sobre as estimativas de eficácia da Coronavac

travesti socialista. Ela usa óculos, esta´com uma flor presa ao cabelo e usa batom. Está sorrindo.

Travesti Socialista

Travesti socialista que adora debates polêmicos, programação e encher o saco de quem discorda (sem gulags nem paredões pelo amor de Inanna). Faz debates sobre feminismo, diversidade de gênero, cultura e outros assuntos. Confira o canal no Youtube.

O Butantã, instituto que realizou a pesquisa sobre a eficácia da Coronavac no Brasil, ainda não divulgou seu resultado completo. Alguns dados foram divulgados e mostram que a vacina tem eficácia cientificamente garantida. Entretanto, a imprensa não está divulgando, junto aos dados, a margem de erro e o nível de confiança. Isso induz ao erro. Não há garantia de 100% de eficácia contra casos moderados ou graves e a população precisa ter consciência disso. Estimativa sem margem de erro não é científica.

Como a estimativa é feita?

Uma pesquisa séria sobre a eficácia de uma vacina (ou de um medicamento) é feita com base em dois grupos: o grupo de controle (pessoas que recebem um placebo) e o grupo de tratamento (pessoas que recebem a vacina). Há um sorteio para decidir quais pessoas vão receber o placebo ou a vacina, mas nem a pessoa, nem os profissionais da saúde que aplicam a vacina podem saber se ela está recebendo um placebo ou a vacina (isso é chamado teste duplo-cego.

De acordo com as notícias (veja abaixo), na pesquisa do Butantã, participaram cerca de 12,4 mil pessoas, metade em cada grupo. No grupo de controle, cerca de 160 pessoas foram infectadas com a COVID-19 e, no grupo de tratamento, esse número for “pouco menos de 60” (sic). Portanto, a eficácia geral da vacina (incluindo casos sem sintomas) é de cerca de 63%. Mas qual a margem de erro?

A margem de erro é calculada sobre o número de pessoas infectadas no grupo de controle, o que corresponde aos 100%. Ou seja, para o cálculo da margem de erro, o tamanho da amostra é 160. Considerando um nível de confiança de 95%, essa amostra garante uma margem de erro de 8%. (Cálculo simplificado: 100% / √(160) ~ 100% / 13)

Muitas pessoas se confundem e pensam que a margem de erro é calculada a partir do número total de pessoas que participaram da pesquisa. Acontece que apenas uma pequena parcela das pessoas foi infectada pelo vírus (160 no grupo de controle). Cerca de 97% das pessoas que receberam a vacina não foram expostas ao vírus, portanto elas “não contam” para os cálculos.

Os dados são suficientes para a aprovação emergencial da vacina, mas eles não garantem “100% de eficácia contra casos moderados ou graves”, como parte da imprensa está divulgando.

A vacina funciona, mas não faz milagre

Não há garantia de que uma pessoa vacinada não possa contrair a doença e desenvolver sintomas moderados ou graves. Os resultados apresentados mostram que a vacina vai ajudar a conter a pandemia, mas as medidas de prevenção (uso de máscaras, higienização das mãos, evitar aglomerações, etc) ainda serão necessárias. Para isso, o governo e a mídia precisam apresentar os resultados com transparência, sem publicar uma eficácia que a pesquisa, até agora, não consegue garantir.

Os dados satisfazem o critério mínimo da ANVISA para a aprovação emergencial da vacina, o que permitiria a vacinação de pessoas dos grupos de risco. Isso é urgente. É um absurdo que o governo federal, até agora, não tenha sequer um plano de vacinação dos grupos de risco e use mil e uma desculpas para atrasar a chegada da vacina. As desculpas do Bolsonaro já atrasaram a vacinação em um mês.

A mídia burguesa declara que as “disputas políticas” estão atrasando a vacinação. Isso é mentira: quem está atrasando a vacinação é Bolsonaro e ele está fazendo isso de maneira consciente. A política anti-vacina de Bolsonaro tem que ser derrotada.

Notícias

BBC: “CoronaVac: cientistas criticam transparência, mas dizem que vacina será valiosa para conter pandemia no país”

Estadão: “Taxa de 78% de eficácia da Coronavac é um recorte do estudo, diz cientista que conduziu testes”

CNN Brasil: “Coronavac: Por que a eficácia da vacina é diferente para casos leves e graves”