Libelu: uma paixão revolucionária

Arquivo jornal O Trabalho

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Fiquei contente que o documentário Libelu – Abaixo a Ditadura, do diretor Diógenes Muniz tenha vencido o Festival É Tudo Verdade, porque faz, de alguma maneira, um resgate bacana de uma história que merecia ser contada. Afinal, o documentário chama a atenção das novas gerações da esquerda brasileira para uma das tendências mais dinâmicas do movimento estudantil do final dos anos setenta.

Reprodução do cartaz do filmeO documentário se apoia em entrevistas de alguns dos militantes da corrente que expressava as posições da então clandestina OSI (Organização socialista Internacionalista). Em sua imensa maioria deixaram o ativismo e seguiram vidas profissionais próprias da alta escolaridade, embora ainda sejam mulheres e homens interessantes e de esquerda. Mas faz também um pouco da contextualização do que foi a reorganização da esquerda naquele período.

O charme irreverente da Liberdade e Luta era a paixão revolucionária dos troskos. Às vezes, um pouco ultras, ou porra-loucas, como se dizia então. Mas eles eram engajados. Ao final dos anos setenta e início dos oitenta eram algumas centenas, só na USP. Eram abnegados e rebeldes, muito disciplinados e, também, estudiosos. Eram elegantes, atrevidos e divertidos, e sabiam que eram. Talvez, por isso, tinham uns excessos de altivez. Afinal, éramos todos “sectários pra caramba”. De qualquer forma, a fina flor de uma geração.

Oriundos das camadas médias da classe trabalhadora mais escolarizada tinham um nível cultural mais elevado que a maioria dos ativistas estudantis. A Libelu foi um fenômeno, sobretudo, paulista. Sua história foi brilhante e breve. Com a fundação do PT e a força de atração da corrente lulista, e o fim da ditadura e a estabilização do regime democrático, só permaneceram ativos os militantes mais internacionalistas, e mais proletários.

Mas enquanto durou, o brilho da Libelu foi intenso. Era um período de imenso entusiasmo com a perspectiva da iminência da hora da luta final contra a ditadura militar, sobretudo, depois das greves de operários do ABC, de bancários, professores, e até jornalistas.

A esquerda estava ainda explorando as possibilidades do uso das liberdades democráticas. Jornais de inspiração trotskista como O Trabalho, Convergência Socialista, e Em Tempo tentavam ocupar um espaço legal, assim como a Tribuna da Luta Operária e o Hora do Povo, do PCdB e MR-8 começaram a ser publicados.

Três grandes questões de estratégia definiam a identidade da Libelu e dos, também, trotskistas da Convergência Socialista e da Democracia Socialista: (a) a necessidade de uma revolução para derrotar a ditadura, portanto, a denúncia da “abertura lenta, gradual e segura”, inspirada no Pacto de La Moncloa” espanhol, como uma armadilha de perpetuação do regime para ganhar tempo para uma transição lenta e sem ruptura, com o fim do crescimento econômico, a disparada da inflação e a crescente crise social; (b) a necessidade da construção de um instrumento político dos trabalhadores, independente da burguesia, para derrotar a ditadura porque nenhuma confiança deveria ser depositada no MDB, e que veio a ce concretizar na fundação do PT; (b) a necessidade de uma esquerda internacionalista, portanto, anticapitalista, mas, também, antiestalinista, que fosse capaz de celebrar a vitória da revolução na Nicarágua, mas também de apoiar as greves dos trabalhadores de Gdansk na Polônia.

Não eram caretas, eram sexy. Mas tampouco eram apologistas do modo de vida “sexo, drogas e rock and roll”. Ninguém na militância de esquerda era. Todos os ativistas de todas as tendências – os trotskistas da Convergência, a turma da Refazendo, próxima da Ação Popular, da Caminhando, Viração, onde atuavam as duas frações do PCdoB e o Mãos à Obra do MR-8 – curtiam rock, reggae, jazz, música latino-americana, mas iam, também, dançar samba no Paulistano da Glória no bairro na Liberdade, iam ver filmes de arte no Bijou na Praça Roosevelt e no Belas Artes, liam poesia, frequentavam a ebulição do teatro, e viviam o erotismo saudável da juventude. Éramos todos, também, um pouco pomposos.

O que prevalecia na parcela mais ativa da juventude, em todas as tendências de esquerda, não era a desmoralização cética, nem o hedonismo narcisista, nem o “desbunde”, mas a esperança militante de que a aposta na ação política valia a pena.

Os trotskistas se distinguiam, também, porque assumiam as lutas feministas, se engajaram desde o início na fundação do MNU (Movimento Negro Unificado) e no apoio ao movimento LGBT que se articulava.

Nunca fui libelu. Voltei ao Brasil em 1978 e me uni à Convergência Socialista. Mas atuei, lado a lado com a Liberdade e Luta, quando estavam em seu apogeu, e acredito que os conheci bem. A vida me levou para um caminho do destino da maioria. O respeito por eles ficou.

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