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Colunas

Relato de um artista: uma história de arte, luta, indignação e resistência

Fonte: Wikimedia Commons

Violoncelista toca sobre os escombros da Biblioteca Nacional, bombardeada em Sarajevo

Relatos da linha de frente

Esse espaço se propõe a receber relatos das trabalhadoras e trabalhadores dos serviços essenciais. Devemos ouví-los, aprender e lutar com eles. Essa iniciativa se inspira no espaço aberto pela nova Revista Marxista estadunidense Spectre, que, sob a coordenação de Tithi Bhattacharya, tem recebido uma série de relatos em língua inglesa dos trabalhadores do cuidado de todo o mundo, chamada Dispatches from the Frontlines of Care. Pretendemos nos somar à iniciativa de Bhattacharya, mas também contribuir para que a sociedade brasileira possa ouvir e compartilhar esse momento de crise tão profunda com aquelas e aqueles que estão todos os dias se expondo para garantir nossa sobrevivência. Se você trabalha na linha de frente e quer compartilhar seu cotidiano para que essa história seja conhecida, envie um e-mail para [email protected]. Os relatos enviados podem ser anônimos.

Relato coletado por: Monica Vasconcellos Cruvinel

Data do relato: 14/07/2020

Equipe: Resistência Feminista Campinas / Grupo de Pesquisa Mulheres em Discurso – Unicamp

A arte não é um espelho para refletir o mundo,

mas um martelo para forjá-lo.

(Vladimir Maiakóvski)

 

Meu nome é César de Castro Rosa, sou músico, poeta e performer. Junto com minha esposa Lúcia, eu fui até meados de março de 2020 um ser que amava estar nos palcos, levando o fruto de nosso amor e de uma pesquisa de uma vida inteira sobre os repertórios dos trovadores do passado para nosso amado público.

A pandemia arruinou nossas vidas. Em um sentido muito mais profundo do que meramente interromper (ou terminar) nosso trabalho. Como artistas acreditamos em princípios que regem nossos seres em sua totalidade[…], princípios que têm como função ritualística levar a mensagem do amor, da alegria e das boas energias para um mundo já penalizado demais pela dor e pelo abuso.

[…] O objetivo do trabalho do artista é levar cura e alívio para todas as mazelas que revestem este mundo humano. Levar a revolução na forma de alegria, do prazer e do desejo de ter um mundo melhor, onde todas as pessoas sejam completas e abundantes.

[…] Isto pautou todas as nossas escolhas de vida. Havíamos escolhido um trabalho que, apesar de imensamente desvalorizado e incompreendido em um país que ainda não despertou para a função da cultura na formação da alma de um povo saudável e nobre, nos dava tudo que precisávamos para viver. Não apenas o alimento para nós e nossos animais, mas o alimento espiritual de estar com as pessoas em uma exaltação pura do prazer em um show […]. O alimento de, por duas ou mais horas, saber que nada poderia dar errado naquele lugar […]

E mesmo apesar do horror político de vivermos em um país que foi tragado pelo discurso da morte, do medo e da violência, que aceita coniventemente o extermínio brutal de seus povos originários, que perpetua uma herança de escravidão e racismo covardes, tínhamos o prazer de fazer parte de um movimento de resistência e de conscientização através de nosso estilo musical, o Folk. Levávamos nossa luta e nossa resistência na forma de mensagens poéticas, de atitudes e de canções que abordavam o abuso e a exploração das vidas, dos trabalhadores e trabalhadoras e da sexualidade das pessoas. Esse sempre foi e sempre será nosso combate.

Hoje, noventa dias em quarentena, é difícil saber se algum dia iremos poder voltar a viver essa realidade. O mundo onde pessoas se encontravam, sorriam, bebiam e dançavam juntas parece agora distante de nós como se tivesse sido apenas um sonho. Enquanto a doença avança sobre nós, propagada por governos genocidas que se negam a proteger o povo que os escolheu como representantes. A dor, o medo e a desesperança se tornam uma sombra cada dia maior em nossas vidas.

Perguntas inevitáveis se formam, dolorosas demais para que possamos olhar para elas diretamente. Mas elas estão aí. Quando vai ser a nossa vez? Ou a de alguém que amamos? Se antes o pensamento sobre a morte era algo como uma meditação com o propósito de nos ajudar a viver uma vida mais plena, agora ele é um enfrentamento diário. Estamos olhando nos olhos da morte, nos perguntando de que valeu isso tudo. Encarando o grande abismo, onde milhares, milhões caem e cairão, diariamente, em ondas sucessivas de sofrimento que tomam nosso planeta à força, quase da mesma forma que tomamos as vidas também de milhões de animais e plantas dos ecossistemas que abusamos para nosso benefício próprio. A única diferença é que a doença não é capaz de diferenciar, de escolher. Ela apenas avança, sem moral, sem planos.

É como se ela culminasse em uma história de desprezo pela vida, na qual a humanidade se tornou a doença deste planeta e se recusou a compreender este fato. A nós, neste momento, só nos resta tentar não perder a esperança completamente. Mergulhar no imenso legado que nos foi deixado por músicos, poetas, cineastas, cientistas, para evitar a loucura e a dor. Para conseguirmos nos levantarmos mais um dia e fazermos o que precisamos fazer.

Todos os dias parecem ser o mesmo dia. Um dia infinito, mas cujo tempo parece diminuir exponencialmente. Agora que temos todo o tempo do mundo, não temos tempo para nada. Os dias parecem mais curtos. Não é possível fazer tudo que precisamos fazer. A sensação de uma vida que irá terminar incompleta é constante. Nos atiramos às coisas não com o frenesi da loucura produtiva, mas com o peso e a apatia de não sabermos mais o que vale a pena. Fazemos porque é preciso fazer. Escrevo para não enlouquecer, componho canções que talvez nunca venham a ser apresentadas. Como disse um amigo meu, um poeta da Inglaterra, “talvez não haja mais aquele último show dos Rolling Stones debaixo do Sol…” Eu jamais, nem mesmo em meus pesadelos mais pessimistas, fui capaz de imaginar uma maldição tamanha.

Me revolta pensar que há aqueles que negam, fazem pouco da dor alheia, invadem hospitais a mando de um imbecil qualquer. Enquanto trabalhadores e trabalhadoras estão tentando fazer o melhor para proteger a si mesmos e a outros, seus esforços são minados por governos que não se importam se as pessoas morrem – de doença ou de fome. O mundo melhor que tentávamos construir vai virando areia que se desfaz nas ondas dessa pandemia. Retornaremos à barbárie, ao caos medieval, ou avançaremos rumo a uma distopia ainda pior do que todas as que esta humanidade já se presenteou?

Fico feliz sempre que ouço sobre redes de solidariedade. Tento ajudar como posso – o que é pouco. Uso a pequena influência que conquistamos para tentar divulgar essas redes, para tentar continuar levando a palavra da beleza e do amor para quem possa se interessar. Enquanto tenho forças para isso.

No mais, jamais me esqueço que os meus antepassados Guarani passaram sua eternidade errando pela terra, procurando seu paraíso, sua Terra Sem Males, e só encontraram o inferno. Eu tenho o paraíso do amor da minha mulher e de nossas “crianças-animais”. Todos os dias tentamos nos nutrir ao máximo disso e, sem dúvida, esse amor é um grande benefício para nós. Mal consigo imaginar ter que passar por esse momento sem isso. E, se por um lado, isso também torna as coisas mais difíceis, porque quem tem amor tem TUDO a perder, nós fazemos o possível para nos protegermos e dentro dessa proteção vivenciarmos mais intensamente o que temos.