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O impacto da pandemia em profissionais da saúde mental no Interior e na Capital de São Paulo: relatos de seis profissionais que estão na linha de frente

Reprodução

Relatos da linha de frente

Esse espaço se propõe a receber relatos das trabalhadoras e trabalhadores dos serviços essenciais. Devemos ouví-los, aprender e lutar com eles. Essa iniciativa se inspira no espaço aberto pela nova Revista Marxista estadunidense Spectre, que, sob a coordenação de Tithi Bhattacharya, tem recebido uma série de relatos em língua inglesa dos trabalhadores do cuidado de todo o mundo, chamada Dispatches from the Frontlines of Care. Pretendemos nos somar à iniciativa de Bhattacharya, mas também contribuir para que a sociedade brasileira possa ouvir e compartilhar esse momento de crise tão profunda com aquelas e aqueles que estão todos os dias se expondo para garantir nossa sobrevivência. Se você trabalha na linha de frente e quer compartilhar seu cotidiano para que essa história seja conhecida, envie um e-mail para [email protected]. Os relatos enviados podem ser anônimos.

Relatos coletados e organizados por: Monica Vasconcellos Cruvinel
Transcrição do relato: Emanuel Assis Aleixo de Franco
Texto: Monica Vasconcellos Cruvinel
Revisão: Luciana Nogueira
Equipe: Resistência Feminista Campinas / Grupo de Pesquisa Mulheres em Discurso – Unicamp

Não tem dó no peito
Não tem jeito
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem pé, não tem cabeça
Não dá pé, não é direito
(Zé Ramalho)

Introdução

Há séculos que as sociedades ocidentais utilizam-se de mecanismos de controle, vigilância, exclusão, segregação, violência, maus tratos e abandono de pessoas que, com a chancela da medicina, passam a ser tratadas como loucas, alienadas e, portanto, devem ser colocadas à margem.

É no contexto da ditadura militar, na década de 701, que surgem os primeiros movimentos sociais na área de saúde no Brasil, que lutavam contra os mecanismos brutais e inumanos que permitiam que pessoas com transtornos mentais fossem internadas, muitas vezes de maneira compulsória, em hospitais psiquiátricos e manicômios, que eram verdadeiros depósitos de pessoas e que escondiam por trás de seus muros, muita violência.

Para os movimentos sociais, pacientes e trabalhadores da saúde que militavam (e ainda militam) na luta antimanicomial no Brasil, mais do que a ruptura com o sistema de manicômios, reivindicam que sejam estabelecidos os direitos dos pacientes e que seja garantida sua proteção, através de um atendimento integrado/articular, de um processo de desinstitucionalização de pacientes com longo histórico de internações, de um sistema de apoio aos familiares e cuidadores e com mecanismos de inclusão social.

Na década de 90, são implementadas as primeiras normas federais para regulamentar serviços de atenção diária a pacientes com transtornos mentais. São fundados os primeiros CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), hospitais-dia e as primeiras normas para fiscalização de hospitais psiquiátricos.

Somente em 2001, após 12 anos de tramitação no Congresso de um Projeto de Lei do Deputado Paulo Delgado-PT, é que é sancionada a Lei Federal 10.2162, que dispõe sobre proteção e direitos das pessoas com transtornos mentais, mas que não institui mecanismos claros para a extinção dos manicômios.

A partir daí temos uma reestruturação no sistema de atendimento às pessoas com transtornos mentais, implementada através da Rede de Atenção à Saúde Mental, uma rede articular que é parte integrante do SUS (Sistema Único de Saúde). Esta Rede de atenção à Saúde Mental é constituída por CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), SRT (Serviços Residenciais Terapêuticos), Centros de Convivência, Ambulatórios de Saúde Mental, programas de reinserção social e acesso ao trabalho. Desse modo, em 2001, consolida-se a Reforma Psiquiátrica como política oficial do SUS.

Neste artigo, vamos poder conhecer os relatos e narrativas de quatro profissionais da saúde mental, que não tiveram o privilégio de ficar em quarentena e que estão na linha de frente do atendimento de pessoas que estão em sofrimento psíquico.

Ana, 35 anos, Terapeuta Ocupacional – 16/05/2020

Meu nome é Ana3, tenho 35 anos, sou terapeuta ocupacional e trabalho atualmente em um NASF4 na região noroeste de Campinas. Então, nesse momento, a gente mantém esse trabalho por ser considerado um serviço essencial, de estar na atenção primária. Eu acho que é um lugar importante, sim, no combate à pandemia, mas eu acho que a primeira grande questão, a primeira grande angústia, é que nós não estamos lidando diretamente no combate, no sentido de atendimento às questões de saúde propriamente ditas e encaminhamento para pronto socorro. Então, num primeiro momento, a gente questionou muito nossa presença na unidade: profissionais da saúde mental que não estariam aí fazendo avaliação, teste rápido e, nesse sentido, sem ter uma atuação mais direta como a dos médicos, enfermeiros, dos técnicos e auxiliares de enfermagem. Portanto, eu posso dizer que eu passei por vários momentos (diferentes), de muita vontade de estar em casa, por não ver ali a importância no trabalho (que eu estava realizando). Acho que hoje eu vejo essa importância. A gente mantém, então, atendimentos para pessoas em crise psíquica, pensando no fato de que esse é um momento muito sensível a essas questões, mas também é difícil avaliar o risco, se é melhor manter o atendimento ou não. A gente tem tentado fazer um monitoramento por telefone, então auxiliar num trabalho mais burocrático, mais administrativo e também auxiliando a equipe. Eu acho que nosso trabalho, nesse momento, tem sido auxiliar bastante a equipe de médicos, enfermeiros e técnicos, além do atendimento às pessoas que nos procuram em um quadro mais agudo, de um sofrimento mais intenso.

O USO DOS EPI´S

No início, por muito desconhecimento também da pandemia, de como seria essa questão do uso dos EPI’s: uma certa regulação no uso, protocolos bem rígidos no sentido do que cada setor deveria usar, mas hoje em dia nós temos tido mais acesso aos EPI’s com mais tranquilidade. Eu acho que todo mundo entende da importância deles e os gestores locais têm feito esse trabalho de fornecer esses EPI’s.

O “PRIVILÉGIO” DE ESTAR NA QUARENTENA É PARA POUCOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS NO BRASIL

Acredito que a questão difícil nesse momento é o desejo de estar em quarentena, de estar em isolamento e não poder. Eu tenho duas filhas pequenas, meu marido tem trabalhado de casa, então ele está bem sobrecarregado com essa dinâmica, e eu sinto que eu pouco posso ajudar nisso e, ao mesmo tempo, eu fico com muito receio de me contaminar e contaminar meus familiares. É bem desafiador! A gente oscila entre momentos de maior e menor angústia […], mas eu tenho visto como é importante, em alguma medida, para poder apoiar algumas pessoas, poder apoiar a equipe, ajudar a pensar fluxos no serviço e tudo mais. Tem sido assim por enquanto, a gente não sabe quanto tempo isso vai durar, mas eu acho que está longe de acabar […]


Regina, 42 anos, Médica Psiquiatra – 11/05/2020

Trabalho em consultório, então, a priori, eu só estou mantendo o atendimento dos pacientes que precisam serem vistos fisicamente, e a maioria é constituída de pacientes com Alzheimer, e é bem complicado, pois são pacientes que não têm como saber usar máscara, álcool em gel, enfim… e o deslocamento é complicado, mas os familiares preferem assim do que ir em qualquer emergência, levar ao hospital, pelo risco de contágio.

E o que tem acontecido é que pela falta de medicações, principalmente clozapina e lítio, que a gente usa para os pacientes bipolares e com esquizofrenia um pouco mais avançada, eu precisei realizar muitas internações, e nesse momento as internações em clínicas psiquiátricas ficam complicadas porque não estão aceitando, em espaço de confinamento, novas pessoas, então eu tive que internar em hospital geral. Por conta disso, eu tenho frequentado hospital geral, porque eu tive alguns pacientes com tentativas de suicídio, alguns pacientes viver algumas situações de violência, então voltei a frequentar o hospital. É muito delicado, porque o paciente psiquiátrico não costuma ser bem vindo em hospital geral, e o hospital geral força uma série de normas por conta do Covid, e é difícil o paciente psiquiátrico entender e realizá-las, então a gente é muito mais demandado, vai mais vezes, e a gente vê a situação dos colegas do hospital como anda por conta disso. Eu tenho um parceiro que também trabalha em hospital, e tem uma vida de plantão bem complicada, a gente se vê pouco, por trocar turno e tem o Carlos, que é meu filho-sobrinho, que a minha irmã adotou como primeira responsável e eu como segunda, e desde o início da quarentena eu optei por não vê-lo. Ele está direto na casa da minha irmã, por conta de oferecer uma possível situação de contágio. Então, é uma vida que ficou muito intensa, de ir e vir de hospital […]

OUTROS CAMINHOS QUE SE DELINEARAM A PARTIR DA PANDEMIA PARA O ATENDIMENTO A PACIENTES E FAMILIARES SÃO AS REDES DE APOIO PSICOLÓGICO QUE OS PRÓPRIOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE ESTÃO ORGANIZANDO, DE MANEIRA SOLIDÁRIA, COM O OBJETIVO DE DAR UMA ESCUTA E UM SUPORTE AOS MESMOS. NESTA PERSPECTIVA, REGINA RELATA COMO ELA E SEU GRUPO ESTÃO TRABALHANDO

Eu faço parte da sociedade junguiana de psicologia analítica e a gente montou um grupo para dar assistência online em quatro atendimentos de familiares que não conseguiram realizar o luto, o velório, o enterro de pacientes/familiares com covid, e de profissionais de saúde que tem uma situação econômica mais complicada (auxiliar de enfermagem, profissional de limpeza, pessoal do administrativo de triagem etc). Então a gente está fazendo quatro atendimentos online, e é uma situação que eu tenho aprendido muito. É uma situação bem difícil, das pessoas não poderem nem abraçar os familiares em luto, profissionais de limpeza tendo que dobrar os turnos e muitos não querem voltar para casa, pois se sentem contaminados e não querem contaminar os seus familiares, e aí dobram o turno… e também precisam de mais dinheiro. Pra eles, muitas vezes não chegam os equipamentos de proteção, então é um momento delicado que a gente vive.


Bernardo, 72 anos, Psicólogo – 12/05/2020

Do ponto de vista psíquico o sentimento mais presente em virtude do novo coronavírus, além do óbvio medo de ser contaminado, é a incerteza quanto ao que vai acontecer amanhã. Não é um amanhã metafórico, é amanhã mesmo. Isso gera insegurança, que por sua vez realimenta o medo. “Eles falam duas semanas, mas está sempre mudando” me diz uma paciente. Outra confessa sentir-se culpada por faltar ao psiquiatra por medo de contaminar a mãe idosa. Entre os profissionais da saúde a situação não é menos aflitiva. Pessoas que tinham certa preocupação em prover alguma subsistência para seus filhos e cônjuges quando faltarem, agora tomam medidas de urgência para não deixá-los repentinamente sem seu sustento material. Sinal de que não é risco a ser desprezado e nem uma criação fabulosa qualquer. A morte está ali, atrás do biombo do leito de UTI, quando não, na porta do hospital. Essa proximidade com a morte abundante afeta não só os profissionais que já lidavam com ela em menores proporções, mas também seus familiares e entes mais próximos, despertando o medo primordial que, admitamos ou não, todos nós seres humanos temos em relação à nossa finitude. Assim, em relação ao vírus, o mundo se converteu num enorme paciente bipolar. De um lado estão aqueles que se defendem maniacamente negando sua existência, de outro estão os que aceitam a depressão decorrente da impotência e seguem lutando galhardamente para vencer o desafio.


Marta, 34 anos, Terapeuta Ocupacional – 16/05/2020

Trabalho no SUS há 11 anos e, atualmente, trabalho em uma unidade de atendimento infanto juvenil, em uma periferia de São Paulo, já tem 6 anos. A gente recebeu, na sexta feira (13/03), um comunicado da prefeitura falando para a gente suspender as nossas atividades coletivas, e direcionar nosso cuidado em visitas domiciliares e atendimentos individuais quando necessário, sempre em sala aberta. Na outra semana, do dia 17, a gente começa a ligar para os usuários, para avisar que as atividades coletivas, grupos, convivência, tudo que a gente fazia, a gente estava suspendendo por hora. A gente começou a pensar nessa primeira semana em como que a gente ia se reinventar, de que maneira que a gente ia conseguir se organizar para poder atender os usuários que a gente acreditava que não podiam ficar sem atendimento, pois tinha alguns usuários em crise mais graves etc. A gente começa a pensar em um esquema de visitas domiciliares, pegamos a lista de todos os usuários ativos, vamos olhando um por um e aí a gente vê quais que são interessantes de continuar vendo em visitas, alguns que precisam de monitoramento semanal, e aí a gente faz todo um esquema de ligar. A gente se organiza de várias maneiras. […]

O DILEMA ENTRE APOIAR A ATENÇÃO PRIMÁRIA NO ATENDIMENTO À COVID OU MANTER OS ATENDIMENTOS DOS PACIENTES COM SOFRIMENTO PSÍQUICO

Umas duas semanas depois, eles começam a sondar nosso gerente […]. A gente ia tentando colocar o quanto que era importante a gente não deixar de lado os nossos usuários, porque eles são usuários com sofrimento psíquico grave. Íamos pensando também em outras maneiras de estar junto da UBS5, para poder dar esse apoio. Em um determinado momento, não teve como, e então eles pediram para que uma parte da equipe fosse para a UBS dar apoio. Eu não fui, eu fiquei na equipe mínima do CAPS […]. A galera que foi para as UBS, nessa uma semana, foram falando o tanto que eles não estavam vendo muito sentido nisso, porque não tinha muito o que fazer. Ajudavam no monitoramento, por telefone, algumas visitas domiciliares de alguns casos que não conseguem falar por telefone.[…]. Os profissionais voltaram para o CAPS porque a gente foi entendendo que não precisava, naquele momento, de toda essa retaguarda nas UBS. E aí a semana que eu ficava na equipe mínima do CAPS, eram pouquíssimos profissionais, tanto é que eu fazia 10 horas por dia de trabalho, eu entrava às 8h e saía às 19h, era muito puxado, porque a gente estava em poucos profissionais, mas a gente tinha que fazer o monitoramento ainda, do mesmo jeito.[…].

O AGRAVAMENTO DOS QUADROS DAS CRIANÇAS EM SOFRIMENTO PSÍQUICO QUE FICARAM SEM ATENÇÃO ESPECIALIZADA E A INTENSIFICAÇÃO DO TRABALHO DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE MENTAL DURANTE A PANDEMIA

De umas três semanas pra cá, o nosso movimento começou a aumentar muito, a gente começou a ter muito mais acolhimento do que antes, principalmente de crianças e adolescentes com questões de ansiedade muito grande, de crianças que estão com transtorno ansioso por conta da pandemia, a gente, pelo menos eu, precisei levar duas usuárias para a acolhida noturna no CAPS III que é parceiro nosso, ali na região. Tem alguns casos que estão entrando em crise e a gente está precisando fazer a acolhida diurna. […] Isso aumentou, não estava acontecendo, e agora está aparecendo muito mais.

OS EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E OS CUIDADOS PARA DESINFECTAR AMBIENTE E OBJETOS DE TRABALHO

Teve um momento em que a gente ficava sem máscara, a gente não recebia o suficiente, então teve umas semanas que a gente ficava sem receber, mas agora isso já estabilizou, a gente tem recebido as máscaras, e aí a gente sempre fica de máscara, o tempo todo. A gente guardou todos os brinquedos, tiramos tudo das salas, limpamos tudo. As salas estão vazias, o CAPS está vazio, a brinquedoteca não tem nenhum brinquedo. Caso a gente precise de algo, a gente higieniza e usa. Agora a gente está com a equipe relativamente completa, praticamente completa agora. Teve um outro período que além da gente estar com profissionais nas UBS, a gente tinha muita gente afastada, e aí isso pesou também o nosso trabalho,. […] No começo foi bem desesperador quando a gente recebeu a notícia que a gente ia ter que ir para as UBS, a gente ficou bem assustado, com uma angústia, ansiosos. Acho que a gente vai se acostumando, um dia de cada vez. […].

O PROFISSIONAL DE SAÚDE MENTAL: O MEDO, A ANSIEDADE E A ANGÚSTIA PELOS RISCOS DE SE CONTAMINAR COM O CORONAVÍRUS

Todo domingo é muito difícil dormir, porque eu acho que como é no fim de semana que eu fico mais tempo em casa, quando chega no domingo para a segunda, é bem difícil dormir, então eu tenho todo um ritual para dormir, e nas últimas 3 semanas eu tenho conseguido dormir melhor. Tinha domingo que eu não dormia nada por conta da ansiedade. […] Segunda de manhã antes de ir trabalhar, tem todo um esquema em casa, que eu ponho um pano úmido com cândida perto da porta, daí toda vez que eu vou pegar e tal, aí você sente o cheiro da cândida, do álcool, daí dá uma embrulhada no estômago né? Essas questões que pegam, e acho que tem muito a ver com esse fato de estar em casa, vai sair, daí fica na cabeça, daí o corpo acaba reagindo. […] Estamos pensando em fazer várias lições, essa é a semana da luta antimanicomial, então a gente está pensando em algumas coisas para a gente propor, mas muito mais via rede social, e aí tentar engajar os familiares e os usuários, principalmente os adolescentes, para participarem, mas de uma outra maneira que a gente está inventando agora, porque isso nunca foi feito antes.


Juliana, 45 anos, Psicóloga – 16/05/2020

Trabalho como psicóloga já tem 11 anos, e na área da saúde eu trabalho há 4 anos. Antes eu trabalhava na área da educação. Nesses 4 anos de serviço público na saúde, eu atendo adolescentes e as famílias desses adolescentes (segundo a OMS, os adolescentes constituem uma faixa etária dos 10 aos 19 anos). Nós tínhamos um fluxo intenso de pacientes que agora, com a questão da quarentena, realmente caiu muito. Caiu por a gente não fazer mais os atendimentos presenciais. Eu tinha grupo de familiares e grupos em parceria com o CAPS […] . Tão logo começou a questão do vírus e a quarentena, antes até do governo do estado decretar quarentena ou o prefeito, a gente suspendeu os atendimentos em grupo. Em relação ao suporte de trabalho, é quase zero, nós definimos tudo entre nós mesmos, psicólogos, porque não veio nenhuma determinação da secretaria de saúde, não teve suporte nenhum […] Temos os EPI’s, isso realmente nós temos, álcool em gel, as máscaras, basicamente isso. Roupas de equipamento, como jaleco, não, mas o resto dos materiais nós temos, e até o momento em abundância, não faltou. […] Eu até mandei alguns áudios para o diretor de saúde, para secretária, [perguntando] como que a gente deveria conduzir, ofereci o trabalho, por exemplo, para fazer teleatendimento para os profissionais da saúde do hospital municipal, pessoas que estão com fluxo de trabalho mais intenso do que o meu, e aí eles falaram que iam ver, e não viram nada. Então, não tem nenhum suporte em relação a isso […] Sem dúvidas, essa questão da quarentena e da contaminação têm afetado o trabalho sim. Vou te dar um exemplo: eu tenho atualmente dois atendimentos presenciais que eu não interrompi, depois eu vou dar uma olhada no número que eu tinha antes por dia, era muito superior a isso. Esses dois eu mantive. Eu defini esse protocolo por mim mesma, eu mantive atendimentos que pareciam graves, encaminhados pelo juizado, pelo sistema judiciário, e eu pensei que eu não ia suspender os atendimentos presenciais de violência sexual, com possibilidade de suicídio, ou algum outro tipo de violência mais grave. […] Durante as sessões, você vai percebendo do paciente se ele toma ou não toma os cuidados necessários com a contaminação. E desses dois, eu percebi que um tomava esses cuidados, que ele estava preocupado com a higienização e tudo, e da outra paciente não, e isso atrapalha no andamento da sessão, porque antes era uma questão que eu não precisava pensar sobre ela, eu estava focada no que o paciente estava me dizendo a respeito da vida dele, a respeito das emoções dele, o contexto terapêutico todo

REINVENTANDO OS ATENDIMENTOS DURANTE A PANDEMIA

Eu tenho feito atendimentos por telefone, esse foi um ponto também que é bastante diferente para gente. Estávamos acostumados a fazer atendimentos pessoalmente, e aí com esse advento, foi passando uma semana, duas, e eu pensei “nossa, a gente precisa fazer alguma coisa”, porque estava muito ocioso o tempo de trabalho lá. E aí eu comecei com alguns atendimentos por telefone, alguns deram bem certo. Não temos equipamentos, a Internet temos, mas oscila um pouco, mas não temos um computador, apenas um na recepção, mas não dá para usar para vídeo chamada, então eu propus por telefone, o que também não é bom, o consultório das famílias não tem telefone. No espaço, […] dos adolescentes, tem um telefone, que foi um funcionário que levou esse aparelho, e não é um bom aparelho, ele é um pouco chiado. É um telefone só para cinco pessoas, então cada vez que eu faço uma consulta, que dura em média meia hora a 50 minutos, às vezes até uma hora de telefonema, as outras pessoas estão sem usar esse telefone. A estrutura tecnológica é extremamente precária para a gente propor alguma coisa. Fiz alguns atendimentos, com alguns pacientes que já estavam em atendimento antes, não fiz teleatendimento com gente que não tinha vínculo anterior, estou pensando em começar a fazer, já que a quarentena está se estendendo bastante e nós temos uma média de 70 pessoas na fila de espera. […] Temos praticamente crianças, é muito inviável um atendimento por telefone com uma criança de 10, 11, 12 anos, então tem essas dificuldades que a gente está tentando ultrapassar. […]

O MEDO DE IR TRABALHAR E DE CONTAGIAR OUTRAS PESSOAS E A HIGIENIZAÇÃO PRECÁRIA DO AMBIENTE DE TRABALHO

Acho que o medo de ir trabalhar é constante, a tensão é muito grande, eu particularmente estou atendendo muito pouca gente e estou muito mais cansada pensando o tempo todo na contaminação… o nosso ambiente de trabalho não é limpo, a faxineira não faz a limpeza, ela limpa uma vez por semana, no máximo, não tenho confiabilidade nenhuma. Eu chego limpando o meu consultório, limpo a maçaneta.. muito tenso tudo isso. Então a gente se cansa muito mais e, efetivamente atende muito menos pessoas.

Tenho o privilégio de ir trabalhar de carro, eu não consigo nem imaginar o que seria eu ter que pegar um transporte público para ter que ir trabalhar. […]… muito assustador mesmo.

Eu moro sozinha, então também tenho um conforto em relação a isso, de chegar em casa e não transmitir esse vírus pra ninguém.[…] Vou até os meus pais para levar as compras, e aí sempre tenho medo de transmitir alguma coisa pra eles também, então eu deixo as compras ali na calçada, converso com eles de longe e vou embora. Esse é o único convívio social que a gente tem.

O NEGACIONISMO NO TRABALHO

Eu tenho convívio social com as pessoas que trabalham comigo. Sinto que poucas delas estão se cuidando de verdade. Três pessoas que trabalham ali no serviço público com os adolescentes, não acreditavam na força desse vírus, nas possibilidades de contágio, e começaram a usar máscara só quando o prefeito bateu fortemente nessa tecla, e começou a ficar um incômodo para elas politicamente, porque elas são cargos de confiança, mas não pela real consciência do problema de saúde, mas pelo papel político que elas ocupam ali, pelo cargo, por causar algum problema de imagem pro prefeito, mas não pelo cuidado em si. Então, você conviver com pessoas que pensam dessa forma nos dá mais medo, porque você não sabe, ou imagina como elas estão agindo fora do ambiente do trabalho […]


Sueli, 45 anos, Terapeuta Ocupacional – 16/05/2020

Trabalho em um serviço de média complexidade do SUS, que é o CAPS infantil6. CAPS infantil atende transtornos mentais severos e persistentes em crianças e adolescentes, até 18 anos e às vezes um pouco mais, e com isso quer dizer que a gente atende autismos, esquizofrenias, depressões severas, tentativas de suicídio, uso intenso de drogas e álcool, enfim, pessoas com sofrimento mental importante, que atrapalha no ser e estar da vida. Logo no começo, quando foi declarada a quarentena, a gente questionou o por que a gente teria que continuar aberto com a equipe inteira trabalhando. É uma equipe que hoje conta com 19 profissionais, entre teraputa ocupacional, psicólogo, técnico de enfermagem, enfermeiro, fonoaudiólogo. A gente questionou… bom, a gente não pode atender, porque foi declarado que a gente não precisaria ficar atendendo nos casos com a frequência que vinha, semanal, duas vezes por semana, que as terapêuticas poderiam ser suspensas, mas a gente não poderia revezar a equipe. E aí logo de cara a equipe questionou, eu questionei bastante também a chefia, pelo seguinte: se a gente não está recebendo pacientes, seria lógico diminuir o número de profissionais circulando para ter que ir até o trabalho… tem gente como eu que tem filho pequeno, tem gente que convive com pessoas idosas, tem gente que pega ônibus para ir pro trabalho, então a gente tem uma infinidade de pessoas se colocando em risco por um atendimento que é essencial, porém não é linha de frente nesse momento.

Aí a gente questionou bastante, e a resposta da secretaria da saúde é que a gente tinha sim que continuar lá. Eu entendo que é meio como “olha, a hora que precisar vocês vão para a linha de frente”, meio como uma reserva, exército de reserva, não sei que nome dar para isso. E atendendo crise. Então a gente está atendendo os pacientes que estão com sofrimento mais agudo por motivos diversos. Estamos, neste momento, com adolescentes com tentativas de suicídio bastante importantes, estamos com três que estão indo mais frequentemente efazendo contato, monitoramento por telefone e vídeo chamada, quando se aplica ao caso.

O RESPALDO QUE OS PROFISSIONAIS RECEBEM (OU DEIXAM DE RECEBER)

Quanto ao que nós temos de respaldo, o que eu coloco é que é uma situação toda muito ímpar, de estar para todo mundo. Então, as recomendações, a princípio, mudavam. De manhã era uma, à tarde era outra, mas eu não via isso, a princípio, como uma questão de uma incompetência política, eu via como uma coisa assim “isso é tão novo que ninguém sabe o que fazer”, a gente não sabe reagir ao que na época era uma ameaça de pandemia. Até que veio, de fato, a orientação dos EPI’s, que também mudava com muita frequência, e isso cria rusgas na equipe, tem gente que acha que tem que se encher de equipamento, tem uma médica que trabalha com a gente que também é médica de UTI, e ela fala “não gente, não precisa de tudo isso, é desperdício de material, a gente não vai ter material pra quando, de fato, precisar, a situação ainda vai piorar”, enfim, é tudo muito confuso.

A gente tem recebido EPI’s semanalmente, e por EPI eu tô dizendo máscaras cirúrgicas, máscaras de TNT que a prefeitura está distribuindo, nós temos o avental descartável, nós temos touca, temos a face shield, que é aquela que cobre o rosto todo, indicado para ambiente hospitalar, quando tem respingo,. Eu acho que é uma situação bastante angustiante de estar lá, bastante adoecedora para os profissionais. Não acho que a gestão pública estivesse preparada para lidar com uma situação de crise grave assim. […] Ninguém sabe como lidar, então é muito angustiante estar lá e olha que eu nem estou na linha de frente, então eu fico me perguntando como que as pessoas que estão trabalhando [na linha de frente] estão. É muito ruim você ser cobrado a atender usuários, e se cobrar também, porque lógico que é a minha função, mas ao mesmo tempo tem muito medo, então eu me recuso, não estou fazendo mais visitas domiciliares como eu fazia, só se for em um caso absurdamente grave. Eu não faço, mas tem um colega que faz, porque é isso, não temos uma orientação consistente,. A gente tem ouvido de colegas que tem tido algumas perdas de profissionais da limpeza, é uma situação complicada, muito angustiante, às vezes parece que não vai ter fim nunca.

O MEDO DE CONTAGIAR OS FAMILIARES

Eu tenho uma filha de dois anos e meio, uma de nove anos e meio e uma sobrinha que mora comigo, de 17. A sobrinha agora está na casa da mãe dela, e a minha filha de 9 está na casa da minha mãe, porque a minha vontade, o meu desejo é que nenhuma delas conviva comigo, minha vontade é chegar em casa, tomar banho e não mexer tanto, até porque tem uma questão emocional que está pegando.. […] A questão das crianças, que é muito angustiante, agora está só a pequena comigo, só a de dois anos e meio, meu marido está em home office, então ele fica o dia todo com ela, mas é por falta de opção, porque por mim eles iriam pra longe também, eu gostaria que eles não estivessem perto de mim, até isso acabar, acho que eu ficaria mais aliviada. […] Então isso é realmente muito ruim, tanto emocionalmente, eu me vejo muito mais fragilizada, muito enfraquecida com um corpo acostumado ao movimento da dança, que transborda pela dança, e agora o meu corpo está adoecendo, […] E dificuldade imensa de ser responsável por 4 pessoas, sendo duas crianças, e que estão em casa, e que precisam de mim e eu não posso ficar, tenho que estar lá. […]

Considerações finais

Estes seis relatos de profissionais da Saúde Mental nos mostram como a pandemia desvela os problemas estruturais e de políticas públicas que já enfrentamos há anos em nosso sistema de saúde pública e como a atenção aos pacientes com transtornos mentais, ao mesmo tempo em que fica mais precarizada durante a pandemia, deixando-os em condição de vulnerabilidade, expõe os profissionais da saúde mental que precisam enfrentar o medo de se contagiar e contagiar seus familiares e nem sempre contam com orientações consistentes para poder realizar o seu trabalho.

Outro fato evidenciado por estes relatos é que, de seis relatos, cinco são relatos de mulheres. Fato que evidencia que a mulher, em nossa sociedade, é a responsável, de modo geral, pelas profissões que envolvem o cuidado. Além de serem as responsáveis pelo cuidado dos próprios familiares, são responsáveis pelo cuidado de seus pacientes. A mulher está na linha de frente da produção e da reprodução social.

Referências

COUTO, M. C. V.; DUARTE, S. C.; DELGADO, P. G. G. In: A saúde mental infantil na Saúde Pública brasileira: situação atual e desafios. Disponível em.

LÜCHMANN, L. H. H.; RODRIGUES, J. O movimento antimanicomial no Brasil. In: Ciênc. saúde coletiva vol.12 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2007. Disponível em.

Lei Federal n. 10.216, de 6 de abril de 2001. Disponível em.

Ministério da Saúde. Reforma Psiquiátrica Brasília, novembro de 2005. Disponível em.

COUTO, M. C. V.; DUARTE, S. C.; DELGADO, P. G. G. In: A saúde mental infantil na Saúde Pública brasileira: situação atual e desafios. Disponível em.

LÜCHMANN, L. H. H.; RODRIGUES, J. O movimento antimanicomial no Brasil. In: Ciênc. saúde coletiva vol.12 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2007. Disponível em.

1 Lüchmann, L. H.; Rodrigues, J. O movimento antimanicomial no Brasil. In: Ciênc. saúde coletiva vol. 12 n. 2, Rio de Janeiro, Mar./Apr. 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232007000200016&script=sci_arttext

2 Lei Federal 10.216, disponível em.

3 Todos os nomes que aparecem nos relatos são pseudônimos.

4 Núcleo Ampliado de Saúde da Família, criado em 2008, pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de apoiar a consolidação de Atenção Básica no Brasil.

5 Unidade Básica de Saúde (postinhos de saúde).

6Segundo COUTO, M.C.V.; DUARTE, S. C.; DELGADO, P.G.G in : Rev Bras Psiquiatr 2008: 30, (4) : 390-8: O CAPSi é responsável pelo “atendimento de transtornos mentais que envolvem prejuízos severos e persistentes) e o estabelecimento de diretrizes para articulação intersetorial da saúde mental com outros setores públicos (visando a cobertura de problemas mais frequentes que envolvem prejuízos mais pontuais) constituem, atualmente, os pilares da saúde mental pública para crianças e adolescentes.”