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Série Revolução Espanhola: como Stálin e a Frente Popular abriram portas da Espanha ao fascismo – Parte 2

Da ofensiva fascista de julho de 1936 à revolução espanhola

Bruno Rodrigues*

Coluna de milicianos antifascistas

Julho de 1936: os fascistas lançam a ofensiva e explode a guerra civil

Francisco Franco e Emilio Mola (à dir.) foram os principais generais a encabeçar o golpe de julho de 1936. Foto: Domínio Público

Amplos setores da classe dominante já vinham tirando conclusões políticas diante dos incidentes que sacudiram o país nos anos anteriores, ao perceberem que a esquerda moderada e os republicanos eram cada vez menos capazes de conter o movimento dos trabalhadores. Assim, a burguesia e os generais fascistoides, que já estavam conspirando desde o resultado favorável à Frente Popular, chegaram a uma decisão categórica: era necessário recorrer à via da contrarrevolução aberta. Assim descreve Felix Morrow (1963), em seu livro Revolution and Counter-Revolution in Spain:

Em 17 de julho de 1936, ao amanhecer, o general Franco assumiu o comando dos mouros e legionários do Marrocos espanhol e lançou um manifesto ao exército e à nação, chamando-os para se juntarem a ele para estabelecer um estado autoritário na Espanha. Nos três dias seguintes, quase todas as 50 guarnições do exército espanhol, um após o outro, se declararam a favor do fascismo.

Ao tomar parte em favor do golpe, Franco atravessou o estreito de Gibraltar rumo à península hispânica levando consigo milhares de soldados marroquinos em aviões cedidos pelos alemães. Francisco Franco, o mesmo general responsável pelo violento massacre sobre os operários das Astúrias dois anos antes e, até então, tido como um oficial de perfil estritamente profissional, era agora o chefe do golpe contra o governo republicano, nomeado generalíssimo pela junta de oficiais golpistas e chefe de estado nas zonas sob controle fascista.

Entretanto, segundo aponta o pesquisador da Universidade Central de Barcelona, Enric Martinez (1994, p. 156),O governo, na intenção de chegar a um acordo com os golpistas, reteve as notícias, para evitar a reação das massas. Apenas um dia depois, quando já era impossível ocultar os fatos, divulgou uma nota tranquilizadora, assegurando que tinha controle da situação”. Embora acossado por uma ofensiva fascista que batia às portas, a mensagem oficial emitida pelo governo da Frente Popular a todo o país, de fato afirmava:

Reina a absoluta tranquilidade em toda a península. O governo reconhece as ofertas de ajuda que tem recebido das organizações operárias e, agradecendo, declara que a melhor ajuda que podem prestar é garantir a normalidade da vida diária para dar assim um alto exemplo de serenidade e de confiança aos meios do poder militar do Estado. Graças às medidas de provisão aprovadas pelas autoridades, foi dissolvido um amplo movimento de agressão contra a República; este movimento não encontrou apoio na península, tendo conseguido partidários somente em um setor do exército no Marrocos (apud Morrow, 1963).

Todavia, não era esse o mesmo estado de espírito entre as massas populares que, atropelando todas as tentativas de conciliação com os golpistas por parte da Frente Popular, reagiram furiosamente.

Soa o alarme antifascista e Barcelona convoca: a las barricadas, a las barricadas

Milicianas antifascistas

Franco não contava com a resistência do povo em armas e, por isso, apostava em uma guerra rápida. Contudo, teve que lidar com uma série de dificuldades impostas pela resistência dos operários. Na capital catalã a reação contra o golpe, a despeito das vacilações por parte da Frente Popular, foi fulminante. Em pouquíssimos dias a região já estava em mãos dos operários que, com sua insurreição, conseguiram contagiar o restante do país. Ondas de greve se espalharam por Valência e nas Astúrias, de onde saiu uma coluna de cinco mil operários rumo à Madrid a fim de impedir a queda da capital nas mãos dos fascistas. Ao chegarem em Madri, em 20 de julho, os operários armados com dinamites assumiram a guarda da cidade. Três outras colunas sob o comando da CNT e do POUM, vindas das cidades de Barcelona e Valência, tomaram o rumo de Aragão para combater nos fronts de Huesca, Teruel e na capital, Zaragoza.

Na tarde de 19 de julho de 1936, a limpeza contra os fascistas culminou na captura do general Manuel Goded, o responsável pelas operações militares na Catalunha. Ao ser capturado, Goded foi obrigado a transmitir uma ordem de rendição ao restante de suas tropas e, alguns dias depois, foi posto diante de um pelotão de fuzilamento e executado. Os golpistas sofreram outro revés com a captura e execução do general Fanjul, responsável pelo golpe em Madrid, onde se encontrava aquartelado.

Antifascistas partindo de Barcelona para a frente de Aragão (08/36)

Comitês operários também surgiram em outras grandes cidades como Málaga, Múrcia e Bilbao. Já os fascistas se apoderaram de uma faixa de território que ia Salamanca até La Coruña, chegando a alcançar Aragão. Não foi por acaso que a zona territorial controlada pelos fascistas (mapa) no início do conflito fazia fronteira com Portugal em quase toda sua extensão. Portugal estava sob a ditadura de Salazar, que permitia o livre trânsito dos generais fascistas em seu território no período de preparativos do golpe.

Mapa da guerra civil espanhola no começo do conflito

A reação operária, camponesa e popular ao golpe de 17 de julho foi tamanha e seu impulso tão profundo que ela se voltou não só contra os generais fascistas, mas contra a própria burguesia e o capitalismo espanhol, desencadeando por todo o país uma onda revolucionária que de fato colocou em xeque a propriedade privada sobre as terras, fábricas, bancos, transportes e serviços, além do próprio poder burguês republicano.

Guerra civil e revolução na Espanha

Os anos anteriores haviam sido de intensa agitação política e de profundas lições para o proletariado. A propaganda socialista e anarquista havia educado a classe trabalhadora com as ideias de igualdade e solidariedade. Os mais dramáticos episódios como a repressão de Casa Viejas, Castelblanco e Arnedo no começo da década, e o massacre de 1934 nas Astúrias, ajudaram o movimento operário a tirar conclusões políticas fundamentais. Foi se forjando no curso de todas essas experiências que o movimento operário se levantou na sequência do golpe de julho de 1936.

Na esteira do levante revolucionário antifascista, muitos patrões abandonaram suas propriedades para buscar refúgio nas zonas sob controle de Franco. Para a economia das zonas republicanas não colapsar, era necessário estabelecer o controle operário sobre as empresas e assim foi feito. Igrejas e casas abandonadas foram convertidas em locais culturais, creches ou armazéns públicos, assim como hotéis e restaurantes de luxo foram abertos ao povo. Ao mesmo tempo a polícia regular foi dissolvida e substituída por milícias operárias, ao passo em que chega-se a avançar na legalização do aborto e na eliminação da prostituição.

Em 21 de julho de 1936, formou-se o Comitê Central das Milícias Antifascistas, um órgão encarregado de centralizar e dirigir todas as milícias operárias da Catalunha que, naquela altura, já havia se convertido no coração da revolução em toda a península. O Comitê Central funcionava como uma verdadeira frente única de partidos e sindicatos, e sua natureza era cada vez mais de um poder alternativo ao poder burguês republicano, na medida em que seus decretos iam passando a ser a única lei reconhecida na Catalunha. Como assinala Pierre Broué:

A Espanha que rejeitou o empreendimento dos generais está coberta deles: comitês populares de guerra ou de defesa, comitês revolucionários, executivos, antifascistas, comitês operários, comitês de salvação pública exercem por toda parte o poder em escala local. […] Todos, logo após o esmagamento da sublevação militar, se atribuíram, com o consentimento ou sob a pressão das massas operárias e camponesas, todas as funções legislativas e executivas (1973, p. 71).

Assim, na prática, nas zonas republicanas a Frente Popular não era mais que um gabinete suspenso no ar e obrigado a ter que lidar com a ação dos comitês operários.

De fato, como afirmou M. Casanova:

Quando os generais e todos os canalhas reacionários deram o golpe em 18 de julho, os trabalhadores compreenderam instintivamente o significado do golpe. Eles foram às barricadas. O proletariado, e somente ele, salvou a situação. O aparato burguês passou em sua a maior parte para o lado dos fascistas… Mas os trabalhadores não foram às barricadas por causa dos belos olhos da democracia burguesa. Eles deram início à revolução socialista. Nas grandes capitais e nas pequenas cidades, eles capturaram os burgueses e os proprietários de terras e apreenderam suas propriedades (1939, p. 26).

Poucos dias depois de iniciada a insurreição, uma comitiva da CNT foi convocada no gabinete da Generalitat, a sede do governo catalão, para uma reunião com Lluís Companys, que declarou diante dos líderes anarco-sindicalistas:

Vocês sempre foram severamente perseguidos e eu, com muita dor, porém forçado pela realidade política, [], mais tarde me vi obrigado a opor-me a vocês e a persegui-los. Hoje vocês são os donos da cidade e da Catalunha, porque vocês sozinhos venceram os fascistas. […] Vocês venceram e tudo está sob o poder de vocês. Se não precisam de mim ou não me querem como presidente da Catalunha, digam-me agora, e eu me tornarei em um soldado a mais da luta antifascista. Se, do contrário, acreditam que neste posto posso ser útil nesta luta, podem contar comigo, com minha lealdade de homem e de político (apud Morrow, 1963).
“1° ganhar a guerra. Menos palavras vãs”, diz o cartaz da Frente Popular

Assim, estava aberto um impasse no âmbito da zona republicana, entre duas linhas que concorriam uma contra a outra: avançar nas medidas revolucionárias para, a partir delas, esmagar os fascistas e encerrar a guerra ou respeitar o pacto com burgueses do bloco republicano, selado pelo PSOE e pelo PCE em torno da consigna “primeiro ganhar a guerra” e, assim, postergar para depois a solução dos problemas sociais que marcavam a Espanha. Entretanto, as direções da CNT e do POUM se recusaram a destituir o governo de Lluis Companys e tomar o poder na Catalunha para instaurar um governo proletário capaz de assegurar as conquistas da revolução. Lamentavelmente, quase todos os setores, de fora e de dentro da Frente Popular, sejam eles anarquistas, socialistas moderados, stalinistas e republicanos em geral preferiram se manter nos marcos do eixo “primeiro ganhar a guerra”. No caso dos anarco-sindicalistas dirigentes da CNT, a possibilidade de tomar o poder e exercer um governo proletário por meio dos sindicatos e dos comitês foi duplamente descartada, em razão também das concepções teóricas antiestatistas e antiautoritárias que caracterizam o anarquismo.

Do exílio, Leon Trotsky, líder da revolução russa e atento observador dos acontecimentos na Espanha, defendeu junto aos partidários espanhóis da IV internacional uma linha totalmente oposta àquela dos partidos em torno da Frente Popular. Contra a estratégia de “primeiro vencer a guerra, depois fazer a revolução” Trotsky foi categórico:

Considero que esta fórmula é fatal para a revolução espanhola. Ao não ver as diferenças radicais entre os dois programas na realidade, as massas trabalhadoras, em especial os camponeses, caem na indiferença. Nessas condições, o fascismo vencerá inevitavelmente, porque a superioridade militar está ao seu lado. Reformas sociais audazes representam a arma mais potente na guerra civil e a condição fundamental da vitória sobre o fascismo (2014, p. 180).

Trotsky compreendia que a composição social de boa parte da base militar de Franco era de camponeses e filhos de camponeses pobres que, portanto, não poderiam ser indiferentes às medidas de revolução social no campo. Baseado em sua experiência à frente do exército vermelho durante os anos em que a Rússia soviética atravessou uma guerra civil, Trotsky afirmou:

Ao longo de nossos três anos de guerra civil, a superioridade em arte e técnica militares esteve muitas vezes ao lado do inimigo, mas no fim das contas foi o programa bolchevique que venceu. O operário sabia muito bem por que combatia. O camponês vacilou durante muito tempo, mas ao comparar a experiência dos dois regimes, finalmente ajudou o campo bolchevique (2014, p. 179).

E agregava:

É necessário proclamar que, de agora em diante, a terra, as fábricas e as oficinas passarão das mãos dos capitalistas para as mãos do povo. É necessário realizar esse programa naquelas províncias onde os operários tenham o poder. O exército fascista não poderia resistir à influência de tal programa nem por vinte e quatro horas; os soldados amarrariam seus oficiais pelos pés e pelas mãos e os entregariam ao quartel-general da milícia operária mais próximo. Mas os ministros burgueses não aceitarão tal programa (2014, p. 170).

O desenrolar dos acontecimentos nos meses posteriores provou, tragicamente, que de fato a estratégia frente populista criticada pelo velho revolucionário mostrou-se o caminho mais curto para se perder tanto a revolução como a própria guerra.

*Bruno Rodrigues é militante da Resistência-PSOL e editor do portal Esquerda Online.

*Siglas e referências

Generalitat – Governo catalão
Cortes – Parlamento espanhol
PSOE – Partido Socialista Operário Espanhol
CNT-FAI – Confederação Nacional do Trabalho-Federação Anarquista Ibérica
CEDA – Confederação Espanhola de Direitas Autônomas
UGT – União Geral dos Trabalhadores
POUM – Partido Operário de Unificação Marxista
PCE – Partido Comunista Espanhol
PSUC – Partido Socialista Unificado da Catalunha

Referências bibliográficas

BROUÉ, Pierre, La revolution espagnole (1931-1939), Paris, Flammarion, 1973. Trad. Bruno Rodrigues

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TROTSKI, Leon, A Revolução Espanhola – COMPILAÇÃO, São Paulo, Iskra, 2014.

 

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Parte 1 – Dos antecedentes ao surgimento da Frente Popular

Parte 3 – Da restauração burguesa à vitória fascista