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Trump é responsável pelo crescimento da violência racista nos EUA

Supremacista branco, de 17 anos, armado com um AR-15, sem ser impedido pela polícia, atira contra manifestação antirracista e mata dois ativistas

André Freire

Historiador e membro da Coordenação Nacional da Resistência/PSOL

Uma nova imagem revoltante, vinda dos EUA, choca o mundo. Na pequena cidade de Kenosha, no Estado de Wisconsin, um supremacista branco, de 17 anos, armado com um fuzil AR-15, atira contra uma legítima manifestação antirracista, que protestava contra mais uma ação criminosa e racista da polícia estadunidense.

Na mesma cidade, no último domingo, um policial branco deu 7 tiros – a “queima-roupa” e pelas costas – em Jacob Blake, de 29 anos, um homem negro, que apenas tentava entrar em seu automóvel. Dentro do carro estavam os 3 filhos de Blake (com idades de 3, 5 e 8 anos), que assistiram seu pai ser violentamente baleado. Ele segue internado e já se sabe que ele ficou paraplégico.

Desde a noite do próprio domingo, vem ocorrendo protestos diários nesta cidade, cobrando justiça para Blake, exigindo no mínimo a demissão e a prisão dos policiais envolvidos em mais esta operação policial racista e criminosa.

Na noite da última terça-feira, um grupo formado por supremacistas brancos atacou uma manifestação em Kenosha. Como parte deste bando de ultra direita neofascista estava este jovem de apenas de 17 anos, identificado como Kyle Rittenhouse. Ele viajou para cometer o crime nesta cidade, portando um fuzil AR-15 atirou contra manifestantes, matando 2 ativistas e ferindo pelo menos um terceiro.

Vídeos que comprovam o crime já circulavam nas redes sociais na mesma noite. As cenas lembram um cenário de guerra campal. E, o que é mais revoltante, policiais já haviam visto que ele estava na manifestação portanto este armamento pesado e nada fizeram, reforçando as suspeitas sobre um tipo de colaboração de setores da polícia local com a ação racista e criminosa.

Trump é o principal culpado

O fato grotesco acontece menos de 48 horas depois da abertura da Convenção do partido Republicano, onde foi confirmada a candidatura à reeleição do atual presidente Donald Trump. Nesta convenção, houve o incrível e bizarro depoimento do casal que ameaçou com armas em punho uma manifestação antirracista que passava em frente a sua mansão, em St. Louis.

Portanto, o fato está longe de ser mera coincidência. Quando um presidente e um dos principais partidos políticos do país se confraternizam com racistas que se vangloriam de ameaçar atirar contra manifestantes legítimos, acabam por estimular conscientemente ações brutais e criminosas, como esta que ocorreu no Estado de Wisconsin.

Trump vem adotando uma estratégia de confronto permanente contra as manifestações antirracista e os setores mais à esquerda do partido Democrata, tentando reverter a sua desvantagem eleitoral contra Joe Biden – cenário apontado em todas as pesquisas de opinião.

Para que não reste dúvidas da responsabilidade direta e criminosa de Trump, sua reação nas redes sociais frente ao ocorrido é apenas uma confirmação da relação direta entre seu projeto político e os grupos supremacistas brancos. Trump apenas disse que enviaria tropas federais para impor “a lei e a ordem” em Kenosha. Nenhuma solidariedade com os manifestantes assassinados.

Manifestações antirracistas voltaram a crescer e chegam com força aos esportes

Como já era esperado, após a ação racista e criminosa da polícia e dos assassinatos desferidos por supremacistas brancos, em Kenosha, os protestos antirracistas voltaram a ser fortalecer e se espalhar pelo país.

Na noite desta quarta-feira, além de Kenosha, manifestações numerosas e radicalizadas ocorreram pelo menos em Minneapolis (mesma cidade onde George Floyd foi assassinado, em 25 de maio), Oakland e Portland. Nesta última cidade, ocorrem protestos diários a mais de 90 dias.

Mas, o que mais chamou a atenção na noite de ontem, foi o incrível protesto de atletas. Tudo começou com a interrupção do campeonato de Basquete masculino (NBA), depois que os jogadores se negaram a entrar em quadra em pelo menos três partidas previstas para ontem.

Numa incrível reação em cadeia, o torneio de tênis de Cincinnati cancelou as partidas previstas para hoje, depois que a tenista Naomi Osaka anunciou que não disputaria a partida válida pelas semifinais do campeonato. O boicote de atletas aconteceu também em outros esportes, como baseball, futebol e basquete feminino.

O país imperialista, com a maior economia do mundo, segue conflagrado por 3 processos combinados: a pandemia da covid-19, onde os EUA mantém a marca de mais mortes e infectados do planeta; a fortíssima crise econômica, com suas evidentes consequências sociais; e, principalmente, a força e legitimidade do Levante Antirracista, que segue forte e mantendo apoio popular majoritário.

Ao que tudo indica, as tensões sociais e a polarização política devem ainda crescer nos EUA nas próximas semanas, principalmente até a realização das eleições presidenciais, confirmadas para o dia 3 de novembro.

Mas, uma questão vem sendo cada vez mais demonstrada: apenas o voto em Biden contra Trump não tem tido força para conter a onda de mobilizações, até porque grande parte dos manifestantes sabe muito bem que o partido Democrata não é de fato uma alternativa política contra o racismo estrutural e a terrível desigualdade social presentes no DNA da sociedade estadunidense.

A esquerda e os movimentos sociais devem intensificar uma campanha política internacional em defesa das manifestações antirracistas, denunciando as ações criminosas dos supremacistas brancos e a repressão racista e de extrema direita ordenada por Trump.