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Quatro fatos (e uma interpretação) sobre o “RenovaBR”

Cerca de 50 pessoas posam para foto. Ao fundo, um painel, com a logo do RenovaBR
Divulgação

Curso do RenovaBR

Rejane Hoeveler

Rejane Carolina Hoeveler é historiadora. Mestre e doutoranda em História Social na Universidade Federal Fluminense (UFF). Ativista feminista no Rio de Janeiro. Co-organizadora do livro A onda Conservadora: ensaios sobre os atuais tempos sombrios no Brasil (Rio de Janeiro, Mauad, 2016). Professora na Escola de Serviço Social da UFRJ.

Na iminência das eleições municipais de 2020, volta à tona o debate sobre organizações como o RenovaBR, das quais pouco se sabe e pouco se pesquisou até o momento. Este artigo apresenta apenas alguns pontos fundamentais destacados da minha tese de doutorado, defendida recentemente, com a intenção de trazer elementos que ajudam a compreender organizações desse tipo. 

A constituição do RenovaBR nos sugere que estamos diante do que René Dreifuss chamou de “pivô político-eleitoral” voltado, inicialmente, para as eleições de 2018; e, como veremos, com a perspectiva de consolidar no Brasil um novo patamar de privatização da política disfarçado com a fantasia da “renovação”. 

Quem é Eduardo Mufarej?

O empresário Eduardo Mufarej foi sócio da Tarpon Investimentos, entre 2004 e outubro de 2017, quando foi lançado oficialmente o RenovaBR. Presidiu também o Conselho de Administração do conglomerado de educação privada Somos Educação, controlado pelo fundo de investimentos desde 2015, quando o Grupo Abril vendeu a totalidade de suas ações. Mufarej também é, segundo o próprio site do RenovaBR, membro dos Conselhos do Centro de Liderança Pública e da Escola de Negócios da Universidade de Yale. 

É interessante observar três pontos sobre esse currículo: 1. O tamanho deste grupo educacional; 2. a ligação com a BR Investimentos, do ministro Paulo Guedes, (que acena constantemente para a privatização da Educação); e 3. Mufarej foi um dos cotados ao próprio posto de ministro da Educação no governo Bolsonaro quando sua equipe estava sendo formado em novembro de 2018, contando com o apoio explícito de Paulo Guedes. (1)

Mufarej é o tipo ideal de uma nova geração de empresários engajados no Brasil: (neo)liberal na economia e liberal nos costumes, ele não esconde sua  proximidade com o partido Novo, mas aposta em uma “frente mais ampla”, supostamente acima e ao mesmo tempo com bom trânsito entre distintas legendas eleitorais. Uma das suas tarefas é arregimentar outros empresários, isto é, convencer politicamente seus colegas de classe a depositar fichas (e cheques) em uma determinada novidade política; no caso, o RenovaBR. Em uma entrevista ao jornal Correio Braziliense, em setembro de 2018, Mufarej demonstrou clareza sobre esse seu papel ativista junto ao empresariado quando respondeu à pergunta “Como vencer a barreira que separa empresários e sociedade”? (2)

Para o RenovaBR, Mufarej arregimentou, entre as personalidades mais conhecidas, nomes como o do apresentador de TV Luciano Huck, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, da atriz Maitê Proença e do técnico de vôlei Bernardinho. Interessante notar que, desde a época do lançamento do movimento, Luciano Huck vem sendo cotado para candidato à Presidência, e quem o assessorou por alguns meses foi o sócio de Mufarej, Paulo Guedes. 

Na mesma entrevista, Mufarej usa a mística do “empreendedorismo” para afirmar que no Brasil os empresários são muitos: “São 26 milhões de empreendedores no Brasil, que são empresários. Não estamos falando de um grupo de 300 indivíduos, os empresários são muitos”. Considerando como “empresário” praticamente qualquer trabalhador autônomo, Mufarej tentava se fazer porta-voz de uma base social muito mais larga, dada a conhecida concentração da propriedade no Brasil. 

Já em entrevista à IstoÉ Dinheiro, realizada na sede do RenovaBR – no centro Ruth Cardoso, nos Jardins, em São Paulo – Mufarej explicou o porquê da criação do RenovaBR com uma crítica ao financiamento público via fundo partidário, e fez um mea culpa sobre uma suposta “ausência do setor privado na política”. Fazendo uma referência positiva à Fundação Estudar, do empresário Jorge Paulo Lemann, Mufarej disse concordar com este na avaliação de que os empresários em geral deveriam ter “influenciado mais na política brasileira”.

Como o RenovaBR se apresenta?

“Uma iniciativa que nasceu na sociedade civil, com o objetivo de preparar novas lideranças para entrar para a política. Não somos um partido político, nem apenas um movimento. Somos uma iniciativa de formação de lideranças e de engajamento cívico.”

Além da auto-descrição acima, a página eletrônica do RenovaBR afirma que a iniciativa conta com 17 “parceiros”; 49 “professores”; 483 “doadores” e 6.800 “voluntários”. Entre os “parceiros” do Renova BR, encontramos tanto empresas como outros aparelhos privados empresariais: GOL, CLP (Centro de Liderança Pública), Kallas, Kroll, Locomotiva Pesquisa e estratégia; Politize!; pwc; Semparar; Sociedade Brasileira de Coaching; ENGAGE (Aprendizagem para resultados); Comunitas; Mindsight (people performance); Printi; Zune Denim e moip. Percebe-se aí uma rede bastante interessante de conexões políticas e empresariais, que mereceria uma análise à parte. 

Entre os valores que diz defender o RenovaBR, estão: honestidade, diálogo e dedicação. Entre seus coordenadores, estão: Eduardo Mufarej, Izabella Mattar, Thomaz Pacheco, Gabriel Azevedo, Fernanda Pedreira, Rodrigo Cobra, Erick Jacques e Pedro Simões.

Conforme diversas declarações do próprio Mufarej, o RenovaBR, lançado em outubro de 2017 (um ano antes das eleições) abriu um processo seletivo para captar “jovens lideranças” pelo Brasil (havia um limite de idade de 45 anos, e um dos critérios na seleção era se tais lideranças já possuíam alguma base social); para “capacitá-las” com os treinamentos em diversas matérias –  que segundo reportagem do Nexo Jornal, teriam ficado a cargo do Centro de Liderança Pública (CLP) – e, depois de alguns “testes”, seriam escolhidos aqueles que seriam candidatos para cargos legislativos em 2018. 

Os candidatos a candidatos teriam, segundo pesquisei, recebido bolsas de R$ 5.000 a R$ 8.000 desde janeiro de 2018; mas, além dos recursos financeiros e cursos, os candidatos vinculados ao Renova Brasil teriam recebido recursos especificamente para “gestão de redes sociais e mídia”, para que, quando a campanha eleitoral se iniciasse, já fossem conhecidos do público. A idéia do RenovaBR, segundo seu fundador, teria sido inspirada no sucesso eleitoral do movimento francês “En Marche!”, que elegeu o presidente Emmanuel Macron e conseguiu 64% das cadeiras do parlamento francês. 

Segundo a própria entidade, o RenovaBR formou 133 lideranças de janeiro a junho de 2018. Após o fim do primeiro módulo de formação, 120 delas se lançaram ao pleito por 22 partidos diferentes. Alessandro Vieira (REDE) foi o senador formado pelo RenovaBR eleito por Sergipe. Em São Paulo, Tábata Amaral (PDT) e Vinicius Poit (NOVO) foram eleitos deputados federais. Já Daniel José (NOVO), Heni Ozi Cukier (NOVO), Marina Helou (REDE) e Ricardo Mellão (NOVO), vão ocupar vagas na Câmara Legislativa de São Paulo.

No Rio de Janeiro, Marcelo Calero (PPS), Paulo Ganime (NOVO) e Luiz Lima (PSL) foram eleitos para o Congresso Nacional, assim como os mineiros Tiago Mitraud (NOVO) e Lucas Gonzalez (NOVO), e o capixaba Felipe Rigoni (PSB). Fábio Ostermann (NOVO) foi o postulante eleito para a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Na região Norte, Joênia Wapichana (REDE) foi eleita deputada federal por Roraima. Já na região Nordeste, David Maia (DEM) conquistou uma vaga na Câmara Legislativa de Alagoas.

É no mínimo curioso ver entre os citados no site do RenovaBR, na lista de “líderes” – denominação daqueles que concluíram o curso –, o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero e Fred Luz, diretor geral do Flamengo.

Lendo as matérias publicadas no site RenovaBR, observamos um inusitado teste psicológico anti-corrupção. O RenovaBR contou com a parceria da S2 Consultoria, – startup especializada em prevenir e tratar atos de fraude e assédio nas organizações – para testar a “a capacidade de resistência das 134 lideranças quando expostas a situações que abrem espaço para conflitos éticos”

O apelo “rebelde” do RenovaBR se propôe refutar “ideologias”, “rótulos” e conflitos ideológicos, o que aparece com frequência nas palavras de seus quadros. Uma sutilidade do discurso do RenovaBR é igualar transparência de gestão a responsabilidade fiscal, tornando assim, esta, um tópico da agenda moral.

Apresentados no New York Times como “novos nomes da política brasileira”, muitos dos bolsistas do RenovaBR provieram de vários movimentos, como MBL (Movimento Brasil Livre, criado em 2015), e o movimento “Acredito”, criado em 2017. Este último havia sido classificado pela Folha de S. Paulo como um “MBL progressista”, e teve bastante repercussão na imprensa brasileira. 

Na prática, o movimento Acredito se fundiu ao RenovaBR, como afirmou um dos participantes da mesa-redonda na sede novaiorquina do Conselho das Américas, e todos os seus quadros foram integrados aos bolsistas do RenovaBR. Entretanto, em matéria do jornal O Estado de São Paulo, Mufarej afirma que não foi esse setor o que teve êxito e se gaba de suas conquistas eleitorais (bastante modestas, se era verdadeiro o objetivo anunciado), admitindo que conseguiu surfar a “onda bolsonarista”.

Conexões internacionais do RenovaBR

Em evento realizado na sede do Conselho das Américas, em 16 de maio de 2018, intitulado “Renovação política e novas lideranças no Brasil” – também gravado e disponível em no site do conselho – lideranças do RenovaBR, entre eles o próprio fundador, Eduardo Mufarej, apresentaram-se como representantes de uma “nova geração de líderes do setor público”, destacando “o interesse de jovens e profissionais capazes pela política brasileira”. 

O Conselho das Américas, patrocinador dessa atividade com o RenovaBR, é uma organização empresarial que reúne as 200 maiores corporações, em sua vasta maioria de capital de origem estadunidense, as quais somadas são responsáveis por cerca de 80% de todos os investimentos externos diretos na América Latina. Foi criado em 1965 pelo magnata e filântropo David Rockefeller, teve participação no golpe de 1964 no Brasil e no de 1973 no Chile, apoiou as ditaduras, e nos anos 1980 se tornou o principal espaço de negociação das dívidas externas dos países latino-americanas, reunindo entre seus diretores os dois principais bancos privados credores das dívidas, o Chase Manhattan Bank e o First National Bank, de J.P. Morgan. Cumpriu papel de ser um centro pioneiro de elaboração de programas neoliberais para a América Latina, com estreitas conexões com o Departamento de Comércio e o Departamento de Estado dos Estados Unidos, tendo sido de sua criação até hoje o principal órgão privado que influencia o Congresso e o Executivo deste país em tudo que diz respeito à política externa para América Latina. 

Segundo a presidente do Conselho, Susan Segall, que abriu o evento, Eduardo Mufarej a teria contatado em março, e sua proposta teria sido recebida com enorme entusiasmo pela entidade, que viu no RenovaBR e na atuação de Mufarej à sua frente uma “excelente alternativa” para “transformar o dialogo [político]”, “formar novas lideranças políticas no Brasil e em toda a América Latina”; lideranças essas comprometidas com uma “política responsável” e com a “diversidade”; asseverando que isso deveria ser o “futuro da política”, em suas palavras. 

O painel foi uma realização da AS-COA (sigla para Americas Society/Council of the Americas) não apenas com o RenovaBR, mas também com a Brazil Foundation (3) e a Brazilian-American Chamber of Commerce. Os membros do Painel, além de Mufarej, eram três bolsistas da RenovaBR, selecionados, segundo Mufarej, entre 4.000 candidatos: Carlos Gomes, Felipe Rigoni e Juliana Cardoso. 

Não seria qualquer movimento político que a AS-COA escolheria, até porque, pela legislação americana, a AS-COA como organização isenta de impostos e com permissão para fazer lobby, não pode apoiar explicitamente partidos políticos diretamente. 

Questionamentos ao RenovaBR no Parlamento

Como captava doação empresarial e repassava a prováveis candidatos, o fundo do RenovaBR fere a legislação eleitoral, e assim que exposto na mídia, foi questionado também no Parlamento. 

O deputado Jorge Solla (PT-BA) tentou suspender o chamado “Fundo Cívico Para a Renovação da Política”, pedindo à então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, uma investigação sobre o mesmo. O argumento do deputado petista era o de que havia “fortes indícios de que o grupo empresarial liderado por grandes empresários pretende se organizar, por uma pessoa jurídica – ‘Fundo Cívico’, para burlar a Lei”.

Segundo uma reportagem da Isto é, além de Mufarej, faziam parte desse grupo (como coordenadores ou investidores) figuras como o publicitário Nizan Guanaes, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e o empresário Abílio Diniz. Segundo a matéria, a intenção do grupo seria a de tentar eleger de 70 a cem deputados federais nas eleições de 2018.

Até aqui, o que vimos foi que o RenovaBR levou ao pé da letra a democracia tal como definida pelo economista austríaco Joseph Schumpeter: seleção de lideranças. Preparou literalmente um “vestibular” para candidatos a candidatos e captou, entre esses, lideranças sociais legítimas, as quais poderiam fazer parte de uma base progressista ou mesmo de esquerda. Com um considerável fundo de financiamento composto por destacados capitalistas e um grupo estrategicamente heterogêneo, pôde transitar entre diversas legendas eleitorais e montar uma engrenagem de captação e formação de jovens líderes políticos numa escala provavelmente inédita no Brasil. 

Falamos, portanto, de uma sofisticada indústria de captação e conversão de legítimas lideranças sociais e populares – entre elas muitas mulheres, negros, indígenas, periféricos –, os quais, de forma consciente ou ingênua, tornam-se quadros políticos da direita liberal diluída em múltiplas siglas partidárias. Tal diluição não retira sua força. Ao contrário, sua capacidade de interferir no cenário político legitima-se reivindicando para si um mal costurado supra-partidarismo, enquanto funciona como o verdadeiro “partido” –  no sentido ampliado atribuído ao termo por Antônio Gramsci, pensador e militante comunista italiano. As legendas eleitorais tornam-se meros instrumentos temporários do projeto do RenovaBr alcançar governos e parlamentos. 

O deputado Chico Alencar (PSOL) expressou muito bem essa natureza do RenovaBR – uma ação organizada do capital que opera para esconder suas características de organização partidária – ao classificá-lo como uma iniciativa de “privatização da política”.

NOTAS

1 – https://istoe.com.br/a-equacao-de-bolsonaro/. Acesso em 14 de janeiro de 2018. 

2 – Reportagem Correio Braziliense Acesso em 14 de janeiro de 2019. 

3 – A Brazil Foundation é uma ONG criada por brasileiros em Nova York em 2004, que diz buscar “identificar e apoiar iniciativas que permitam um futuro de igualdade de acesso, justiça social e oportunidades para todos os brasileiros”. Como o RenovaBR, também atua na área de “seleção e capacitação de lideranças”.