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Foi Estaline que derrotou Hitler?

Rui Borges e João Moreira, Lisboa (Portugal)

Batalha de Stalingrado (URSS) contra a invasão nazista

“Sei como o povo alemão ama o seu Führer, e por isso bebo à saúde dele.”

(Discurso de Estaline durante a Assinatura do Pacto Germano-Soviético)

A Segunda Guerra Mundial e a luta contra o nazismo ocupam um lugar especial na mitologia da burguesia ocidental. Todas as gerações nascidas após a guerra se habituaram a filmes de ação sobre a luta heroica de americanos e britânicos contra as tropas nazis, a ponto de a maior parte da população na Europa Ocidental e nos Estados Unidos ser da opinião que foram esses dois países, os principais responsáveis pela vitória sobre Hitler. Mas isto é apenas um reflexo extremamente deturpado da verdade histórica. Evidentemente os EUA e o Reino Unido tiveram um papel importante, mas foi na frente oriental (assim designavam os aliados a zona de combate entre nazis e soviéticos) que se decidiu parte significativa da sorte do projeto nazi de dominação da Europa.

Foi nesta zona do mundo, a frente oriental, que Hitler empenhou cerca de 70% das suas tropas. E foi precisamente a União Soviética, ao contrário dos EUA e do Reino Unido, que teve vastas porções do seu território ocupado e destruído. Na verdade, a frente oriental foi o mais extenso e brutal campo de batalha da história da humanidade. E, sem dúvida, foram as tropas soviéticas que derrotaram essa gigantesca máquina de guerra nazi, num esforço que só terminou na conquista de Berlim e na rendição incondicional da Alemanha em 9 de Maio de 1945.

A resposta à questão do título é pois que a União Soviética (e vamos considerar que Estaline poderia personificar o país) foi o principal responsável pela derrota do nazismo. Mas dizer apenas isso seria também uma deturpação da verdade histórica. Hitler não caiu do céu, nem o nazismo foi uma evolução natural do povo alemão.

Os anos que antecederam a chegada de Hitler ao poder foram marcado pelo sectarismo da Internacional Comunista (IC) – e, no caso concreto, do seu Partido Comunista Alemão (PCA) – em relação aos principais partidos socialistas e sociais-democratas. Num contexto marcado pela mais grave crise econômica até então e pela ascensão do nazismo, longe de procurar alianças táticas com o Partido Social Democrata alemão – o maior partido operário do mundo – a IC e o PCA procuraram a sua denúncia constante, chegando mesmo a equipará-la ao fascismo. Desvalorizando os perigos da futura ditadura nazi, Estaline lançou a confusão e a divisão no movimento operário alemão, que assim ficou impotente para barrar o caminho a Hitler.

Depois da consolidação do nazismo na Alemanha e, portanto, da destruição física da social-democracia e do comunismo alemães, a IC abandonou o sectarismo, mas a sua política voltou a tomar forma de suicídio. Depois de 1933, mais precisamente, quando do VII Congresso da IC, Estaline e Dimitrov haveriam de instituir a política de Frente Popular. Mais uma vez, a tática não se materializou na procura da unidade da classe trabalhadora para o combate ao fascismo, mas a unidade da classe… com a burguesia liberal. Exemplo paradigmático dessa orientação foi a política levada a cabo durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Os Comunistas espanhóis, seguindo as orientações de Estaline, desmoralizaram e enfraqueceram a revolução para não assustarem a burguesia liberal. O assassinato de revolucionários espanhóis, entre eles, Andreu Nin, foi a face mais depravada da política conciliatória com o capitalismo.

Por essa época, matar comunistas deixou de ser um privilégio exclusivo de Hitler, Franco e Mussolini. Em 1936, Estaline lançou os processos de Moscou e o consequente assassinato dos históricos dirigentes do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) – Kamenev, Zinoviev, Radek, Pyatakhov, Bukharine, entre outros – e em 1937 mergulhou o Partido numa espiral de denúncias, repressão e assassinatos que liquidaria muitos milhares de revolucionários.

A paranoia de Estaline atinge o próprio Exército Vermelho, com o julgamento secreto dos mais valiosos quadros militares do período da guerra civil e com uma purga generalizada dos oficiais. Em dois anos, Estaline cortou praticamente todos os laços do PCUS com a Revolução de Outubro. Com o caminho livre de qualquer potencial oposição podia então negociar mais abertamente com Hitler.

Em 1939, Estaline estabeleceu o cada vez mais previsível acordo com o fascismo alemão e milhares de revolucionários abandonaram os partidos comunistas. No entanto, o pacto Germano-Soviético, também conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop, não só estabeleceu a divisão da Polônia e a ocupação soviética dos estados do Báltico (Lituânia, Letónia e Estónia, a quem o governo bolchevique de Lenine concedera a independência em 1920): muitos comunistas alemães e austríacos, exilados em Moscou, foram entregues à polícia alemã, a Gestapo.

Estaline acreditava tanto no seu acordo com Hitler que foi apanhado de surpresa pela invasão nazi em 1941. E o Exército Vermelho, incapaz de se opor à ofensiva, sofreu pesadas derrotas durante a primeira fase da guerra. Desde aí até ao hastear da bandeira soviética sobre o Reichtag em 9 de Maio de 1945, a União Soviética pagou com 25 milhões de vidas pela benevolência de Estaline para com os fascistas.

A ascensão do fascismo na Europa representou uma enorme derrota para a classe trabalhadora. Por trás de cada uma destas derrotas, semeando a divisão e a desmoralização, esconde-se o nome de Estaline. Mais de uma década antes de ser responsável pela derrota de Hitler, Estaline foi um dos principais responsáveis pela sua ascensão.