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(Re) afirmando as cores de nossa(s) história(s)

Politiza

Jovem e mãe, Iza Lourença é feminista negra marxista. Iza tem 26 anos, trabalha no metrô de Belo Horizonte e coordena o projeto Consciência Barreiro – um cursinho popular na região onde mora. É ativista do movimento anticapitalista Afronte e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

O final do mês de junho é marcado pela afirmação do espectro das nossas cores, cujo arco-íris reflete uma multiplicidade de lutas e de trajetórias históricas. Em especial, a Revolta de Stonewall, em 28 de junho de 1969, dia que ficou cravado na memória histórica de nosso movimento, quando em um pequeno bar em Nova York, LGBTQI+, lideradas pelas trans (nunca é demais relembrar), se rebelaram contra as sistemáticas investidas policiais contra o local de confraternização da comunidade. 

As décadas de 1960 e 1970 são marcadas pelas lutas de direitos civis no EUA, pelo maio de 1968 em Paris, pela Primavera de Praga, mas também pelos atos da contra-cultura, que foram grandes movimentações que transcenderam a sociedade estadunidense e mobilizaram milhares de pessoas em diversos países na luta pelos direitos civis da comunidade LGBTQI+ (lembrando que essa sigla e conceito ainda não existia na época).

Por mais que a classe dominante tente negar, sistemicamente, seja em estudos científicos sérios, seja no dia a dia, verifica-se que a sociedade capitalista foi (e ainda é) desenvolvida e atravessada pelas opressões. As estruturas sociais, amparadas pela blindagem universalizante fornecida por um sistema jurídico, machista, racista e LGBTQI+ fóbico, constroem simbologias e concretudes que, diariamente, encerram milhões de vidas humanas no mundo inteiro. Me explico, o fazem pela violência policial, pelos crimes de ódio, pela violência psicológica, pelas guerras, pela fome.

Mas grandes movimentações ao longo da história têm lutado para acabar com essa lógica. Aqui, é necessária a mea culpa histórica da esquerda hegemônica no século passado, em especial do stalinismo e de suas variantes, que não simplesmente secundarizaram a pauta LGBTQI+, mas por vezes as criminalizaram. Esse tipo de atraso não pode ser repetido, sob a pena da esquerda perder mais uma vez o respeito (com razão) entre a nossa comunidade. Para além de Stonewall, os movimentos pela efetivação dos direitos civis da comunidade LGBTQI+ também ocuparam as ruas do Brasil em contextos e conjunturas bastante diferentes.

Na década de 1970, por exemplo, as revoltas contra-cultura e os atos pela diversidade gay nos EUA desencadearam efeitos nos países latino-americanos, mobilizando grupos políticos em plena ditadura militar. Entre as décadas de 1960 e 1970, algumas movimentações de resistência começaram a ganhar maior visibilidade – o movimento feminista, o movimento estudantil, o movimento negro e o movimento homossexual (como se auto-intitulava na época). As propostas, com planos de transformação social concretos, integravam um conjunto de ações marcadas por sua natureza anti-autoritária, em evidente oposição à ditadura militar. 

À época, alguns veículos de comunicação social foram formulados e desenvolvidos. Essas mídias que são parte de nossa história e motivo de orgulho, tinham como objetivo ampliar a reflexão e de reivindicar a inclusão do respeito à orientação sexual em diplomas legais e na Constituição Federal. O Jornal Lampião da Esquina e as publicações do Chana com Chana, já no final da década de 1970 e começo dos anos 1980, são grandes exemplos que registram as lutas e as ações para pressionar o Estado brasileiro na construção de políticas públicas para efetivação dos direitos civis para a comunidade LGTBQI+.

As lutas se difundiram em várias frentes de atuação, sejam elas pela abertura de locais de sociabilidade da comunidade, seja para a garantia de ações contra a discriminação e contra a violência. Inclusive, em um âmbito bastante significativo, as reivindicações também avançaram âmbito da medicina. O Brasil, empurrado pela força de sua comunidade LGBTQI+ e do movimento pela redemocratização, foi pioneiro nessa luta e conseguiu que o Conselho Federal de Medicina deixasse de considerar a homossexualidade uma doença, antecipando essa mesma decisão pela OMS em cinco anos.

Ao mesmo tempo, as décadas de 1980 e 1990 foram marcadas pelo surgimento da AIDS, epidemia que foi utilizada pelo conservadorismo e pelo atraso, como elemento de depreciação da comunidade LGBTQI+. Mas esse tema necessitaria de todo um outro e profundo debate que não teremos tempo de abordar por aqui. As duas décadas passadas, 2000 e 2010, são permeadas por avanços e conquistas, do ponto de vista da legitimidade de nossas demandas. A ampliação da audiência para as reivindicações da comunidade LGBT, no entanto, veio acompanhada da reação. É sintomático também, que o conservadorismo LGBTfóbico tenha crescido na medida em que pautas nossas, como o direito ao casamento, tenham se efetivado.

A verdade é que nossa história tem muito a nos dizer. Ela revela que muitas Marshas P. Johnson adubaram o solo e construíram o terreno no qual lutamos. Foi isso que permitiu que váries de nós pudéssemos florescer. O horizonte nos sugere muitos desafios e nossa vantagem é que os inimigos do amor e da liberdade, hoje, se apresentam sem mediações. Sabemos agora, mais do que nunca, contra quem e o que lutamos. Não podemos nos esquecer do que conquistamos até aqui, de nossas vitórias nas últimas décadas. Mais do que nunca, é necessário reafirmar o brilho de nossos afetos, o espectro de luz de nossas identidades e as cores inerentes às nossas lutas. Eles não vão vencer!

 

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