Uma vitória nas ruas

Três notas sobre o primeiro domingo de junho

Guilherme Gandolfi / @MidiaNINJA

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

1 – Os Atos foram uma inequívoca vitória nas ruas. Eles fortaleceram a luta contra Bolsonaro. Estavam certos os que mantiveram o chamado à organização de Atos neste primeiro domingo de Junho. É bom lembrar que, embora o tema fosse tático, foi muito polêmico e era, realmente, delicado, em função do alto risco de contaminação. A posição diante dos Atos dividiu a esquerda. O PSol foi a favor, o PT se dividiu publicamente, e o PCdB não apoiou. Outras organizações como o PStu, o PCB e a UP estiveram presentes. Mas muitos dos seus compareceram. Prevaleceu a maturidade contra o perigo de provocações. Balanços honestos são construídos tendo como referência o que aconteceu. E não o que cada um pensava antes dos Atos. Foram manifestações de vanguarda, em geral com alguns milhares de ativistas jovens. Quais critérios permitem concluir que foram positivos e acumularam forças para a grande luta que é o combate para derrubar o governo Bolsonaro? Sugiro quatro: (a) desgastaram Bolsonaro, porque demonstraram que os neofascistas não têm o monopólio das ruas; (b) uniram a luta antifascista com a luta antiracista, garantindo a presença e visibilidade das bandeiras do movimento negro em um momento em que uma onda mundial se levanta; (c) levantaram a moral dos que foram, e a disposição de luta é um dos fatores decisivos para o desenlace do que virá; (c) repercutiram sobre a moral dos que apoiaram, mas não foram, porque ajudam a aumentar a expectativa de que é possível vencer. Será muito difícil, mas é possível. Ainda é incompleta a compreensão de que Atos necessitam de disciplina, mas a preocupação sanitária não foi ignorada. Os Atos confirmaram que uma nova geração jovem queria e iria sair às ruas, com a esquerda organizada ou sem ela. Melhor com ela. Os Atos ilustraram, também, que temos que ter cuidado com a omnipotência de pensar que a esquerda tem mais autoridade do que tem. Em algumas capitais e cidades como Belém e São Carlos a repressão impediu a realização de Atos, sinalizando até que ponto as liberdades democráticas já estão sendo destruídas.

2 – Os Atos fortaleceram a linha de que o Fora Bolsonaro deve ser a bandeira minima para a construção de uma ampla unidade de ação. Nada mais, mas também, nada menos do que isso. Não será possível mobilizar com um slogan ambíguo, dúbio, impreciso, abstrato, indefinido, como a “defesa da democracia”, esgrimido em manifestos com a oposição burguesa. A iniciativa saiu das mãos dos liberais, e voltou para as mãos da esquerda. Foi simbólico. Isso não é irrelevante, tem importância na disputa pela liderança da oposição.

3 – Os Atos confirmaram que a luta contra a ameaça de um autogolpe de Bolsonaro será poderosa. A linha quietista de não provocar, aguardar o tempo que for necessário, e nos prepararmos para derrotar Bolsonaro nas eleições demonstrou-se errada. Os Atos revelaram, também, como é errada a linha da ofensiva permanente. O tema ficou explícito com a decisão de alguns grupos que foram sozinhos para a Paulista. O papel do MTST e Boulos foi chave. Foi um gigante.