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Vida versus política de morte: a resistência das favelas e periferias na luta contra a covid-19

“Estou fisicamente cansada porque os dispositivos de proteção incomodam, o capote que não é impermeável me faz suar e, uma vez vestida, não posso mais ir ao banheiro ou beber água por horas e horas de plantão. Confesso que estou colocando fralda descartável para não precisar tirar tudo, desabafa enfermeira de UBS”

Reprodução / TV Globo

Relatos da linha de frente

Esse espaço se propõe a receber relatos das trabalhadoras e trabalhadores dos serviços essenciais. Devemos ouví-los, aprender e lutar com eles. Essa iniciativa se inspira no espaço aberto pela nova Revista Marxista estadunidense Spectre, que, sob a coordenação de Tithi Bhattacharya, tem recebido uma série de relatos em língua inglesa dos trabalhadores do cuidado de todo o mundo, chamada Dispatches from the Frontlines of Care. Pretendemos nos somar à iniciativa de Bhattacharya, mas também contribuir para que a sociedade brasileira possa ouvir e compartilhar esse momento de crise tão profunda com aquelas e aqueles que estão todos os dias se expondo para garantir nossa sobrevivência. Se você trabalha na linha de frente e quer compartilhar seu cotidiano para que essa história seja conhecida, envie um e-mail para [email protected]. Os relatos enviados podem ser anônimos.

Logo quando começamos a receber relatos da cidade do Rio de Janeiro, conversamos com profissionais da rede pública de saúde que atendem áreas periféricas onde o racismo estrutural demonstra-se diretamente em sua forma institucional. Sua dinâmica é perceptível no reduzido número de equipamentos e de profissionais disponíveis para o atendimento da população. Muitas vezes, sua localização é pouco acessível aos moradores – seja por uma questão territorial, seja por uma questão de insuficiência da razão unidades/por habitantes -, o que reflete uma política pública não pensada nem para o povo, nem pelo o povo. 

Em territórios compostos histórica e, principalmente, por pessoas negras e nordestinas, somam-se formas de violência institucional que se complexificam a partir da disputa por poder entre vários grupos armados, inclusive do Estado. A utilização de equipamentos para garantia de direitos como educação e saúde, esbarra, não somente na sua manutenção, no que diz respeito ao subfinanciamento estatal a recursos humanos e materiais, mas na garantia de funcionamento dos que já existem em meio a disputas territoriais e operações policiais, cada vez mais violentas e cotidianas. Neste sentido, a reprodução cotidiana e geracional dos trabalhadores que moram nestes territórios, espacialmente e racialmente segregados, não se dá da mesma forma do que a de trabalhadores que habitam outras partes da cidade. Isso não só determina diretamente a sua posição precária no mercado de trabalho, como faz com que esses trabalhadores tenham que desenvolver estratégias específicas de sobrevivência e resistência. Esta dinâmica desigual é indispensável para a acumulação capitalista.

Se uma incursão leva uma unidade de saúde a fechar suas portas no meio da tarde, ou o sobrevoo de um helicóptero atirando nas comunidades leva pânico às escolas e locais de atendimento; como observar se o atendimento está ocorrendo com número de profissionais necessários ou da forma que deveria? As urgências passam a ser outras, não somente as dos usuários, mas as dos profissionais de saúde também. 

Se uma incursão leva uma unidade de saúde a fechar suas portas no meio da tarde, ou o sobrevoo de um helicóptero atirando nas comunidades leva pânico às escolas e locais de atendimento; como observar se o atendimento está ocorrendo com número de profissionais necessários ou da forma que deveria? As urgências passam a ser outras, não somente as dos usuários, mas as dos profissionais de saúde também. 

Trabalhar na precariedade é terrível. Vê-la recortada por violência cotidiana é muito mais. A ocupação, pelas forças armadas brasileiras, em diversos períodos (na Maré, de abril de 2013 a junho de 2015, por exemplo), trazendo soldados de diversas regiões do país, sem qualquer vínculo com a cidade e seus territórios, agrava a precariedade da vida nesses territórios, na medida em que  restringe o acesso a estes equipamentos públicos.

O relato a seguir é parte desta realidade. 

Nos foi enviado pela profissional Daniela*, que atua em uma das áreas mais populosas e pauperizadas do Rio de Janeiro, a Maré. A Maré é do tamanho de um bairro e podemos dizer, tão grande como um “coração de mãe”. Ali cresceram, junto com seus primeiros moradores, lutas importantes, como a pela água, por creches, pela garantia de serviços em saúde, vendo mulheres se tornarem líderes, famílias nordestinas terem seu pedaço de chão, enchendo as ruas de cheiros variados, como o do cuscuz amarelo, o beiju (tapioca) o baião de dois e o feijão de corda, que foram se misturando à cozinha afro-brasileira, revezando com a feijoada regada a samba, crescendo com o funk, se expandindo tão rápido como ele – um   complexo de 16 favelas, surgiram em determinado momento e possuem características próprias, totalizando 139.073 moradores, distribuídos em 47.758 domicílios, de acordo com o Censo Maré de 2013¹.  

Em relação aos equipamentos, existem quatro Clínicas da Família, dois Centros Municipais de Saúde, uma única Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e um hospital de alta complexidade, em localidade próxima, que há muito sofre com sucateamento e má gestão por parte do governo. 

O Hospital Geral de Bonsucesso, que é uma referência para o estado, deveria atender à população local diante dos casos de  urgências e alta complexidade, além da maternidade em casos de gravidez de risco. Durante a pandemia, foi tido como um dos locais prioritários para internações por covid-19. Mas segue sem abertura dos leitos prometidos pelas autoridades e sem os insumos necessários, falta de profissionais e com denúncias sérias por parte de seus trabalhadores. Uma precariedade anterior à da pandemia.

O Hospital Geral de Bonsucesso, que é uma referência para o estado, deveria atender à população local diante dos casos de  urgências e alta complexidade, além da maternidade em casos de gravidez de risco. Durante a pandemia, foi tido como um dos locais prioritários para internações por covid-19. Mas segue sem abertura dos leitos prometidos pelas autoridades e sem os insumos necessários, falta de profissionais e com denúncias sérias por parte de seus trabalhadores. Uma precariedade anterior à da pandemia.

Cabe à UPA o pronto atendimento para os sintomáticos, e de acordo com denúncias e com a reportagem de 28 de abril do jornal “O Globo”, a fila crescia de forma desenfreada, faltavam médicos para atendimento e corpos se acumulavam nos corredores informando que a “UPA do Complexo da Maré tem rotina de falta de médicos e corpos acumulados”³

A UPA é gerida por uma Organização Social, estratégia adotada pelos governos de entrega do fundo público para a iniciativa privada, para gerir equipamentos do Estado. Há anos isso vem sendo denunciado por profissionais da saúde, usuários e defensores do SUS, como uma política de privatização indireta, por desvio de recursos e má administração, além da falta de recursos humanos pela não realização de concursos, contratos temporários e até suspensão de pagamentos salariais, mesmo a prefeitura tendo feito os repasses. Este ano, entre as mudanças de contratos, estima-se que a saúde perdeu 5 mil profissionais. É nesta realidade que Daniela trabalha. A enfermeira de 33 anos, celetista do Complexo da Maré,  relata: 

 

“Me chamo Daniela, tenho 33 anos e sou enfermeira em caráter celetista em uma Unidade Básica de Saúde da Zona Norte. Atualmente, moro no Rio de Janeiro e estou trabalhando na linha de frente no enfrentamento da covid-19. 

Trabalho em regime de plantão 30 horas semanais e a remuneração da categoria de enfermagem está muito abaixo do piso salarial. Além disso, não recebemos seguro saúde. Sinto que a instituição descarta nossa importância e força de trabalho dentro da organização. Os plantões estão mais difíceis do que imaginava. São 24 horas full time. Ao longo dos dias, tudo isso torna a rotina extremamente estressante e, consequentemente, muito desgastante. 

Reconheço o valioso poder do SUS, mas nosso sistema de saúde é incapaz de isolar os pacientes com segurança. E como estamos hoje nas Unidades de Saúde?

Superlotadas. As outras doenças continuam acontecendo e os pacientes doentes e idosos, que precisam de atendimento, mais cedo ou mais tarde estarão junto dos suspeitos de Covid-19. Toda enfermagem está trabalhando de forma incansável para prestar um atendimento de excelência aos pacientes. Os cuidados estão sendo adotados seguindo as normas técnicas do Ministério da Saúde para que possamos atender melhor nossa população.

Além disso, existe a demanda espontânea de pacientes que chegam nas unidades precisando de acolhimento, assustados e querendo saber se têm o coronavírus. Não posso esquecer deles, extremamente ansiosos com esse turbilhão de informações. O hospital não para. Chega paciente convulsionando, paciente com depressão que tentou suicídio, chega mulher vítima de violência doméstica e eu tenho que estar lá, firme e forte pra enfrentar toda essa demanda. No penúltimo plantão, tivemos muitos atendimentos, óbitos e inúmeras internações. A forma de solidariedade aos trabalhadores da saúde é que as pessoas continuem respeitando o isolamento domiciliar. Com menos pessoas circulando, podemos achatar a curva de contaminação e tentar evitar um colapso ainda maior no sistema de saúde.

Em um desses plantões, realizei a coleta do teste diagnóstico da covid-19 em um paciente e saí pra entregar no laboratório. Quando retornei, ele estava na sala vermelha e infelizmente foi a óbito. É tudo muito rápido. Agora pela manhã, acabei de receber a notícia que uma colega de plantão, de 25 anos, também foi a óbito. Meu coração está partido. Estou fisicamente cansada porque os dispositivos de proteção incomodam, o capote que não é impermeável me faz suar e, uma vez vestida, não posso mais ir ao banheiro ou beber água por horas e horas de plantão. Confesso que estou colocando fralda descartável para não precisar tirar tudo. Os equipamentos de proteção estão acabando e eu preciso economizar para que a equipe também tenha acesso. Comprei macacão impermeável e máscara face shield com meu próprio dinheiro, pois a instituição não disponibiliza para todos os profissionais. Estou psicologicamente cansada e, como eu, todos os meus colegas estão na mesma condição há semanas.

Felizmente, eu tenho apoio online de uma terapeuta particular para me ajudar a enfrentar a ansiedade e a pressão dos plantões e, ainda assim, conseguir fazer uma manutenção da minha saúde mental no geral. Muitos hospitais estão fazendo processo seletivo emergencial e o salário oferecido ao enfermeiro é drasticamente mais baixo do que oferecem para os médicos. Nós também estamos arriscando nossas vidas! Precisamos de assistência financeira e psicológica para encarar essa pandemia. Me sinto muito vulnerável e por isso penso todos os dias em desistir, mas preciso de dinheiro pra pagar minhas contas e infelizmente não posso abandonar o barco e cuidar de mim e da minha família.

 

*Nome fictício

 

NOTAS

1 – https://redesdamare.org.br/media/downloads/arquivos/CensoMare_WEB_04MAI.pdf

2 –  Idem.

3 – https://oglobo.globo.com/rio/covid-19-upa-do-complexo-da-mare-tem-rotina-de-falta-de-medicos-corpos-acumulados-1-24398596 

Clique aqui e saiba mais sobre a iniciativa Relatos da Linha de frente!


Equipe:
Rhaysa Ruas, Tatianny Araújo, Carolina Freitas,  Karine Afonseca, Milena Campos Eich e Bruna Martins