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O 02 de fevereiro em Natal (RN) demonstra a força da cultura afro-religiosa na cidade

Pedro Feitoza

Parangolé

Felipe Nunes é ativista social, cantor, músico, compositor, poeta, artista gráfico, historiador e mestrando em Antropologia Social pela UFRN. Desenvolve pesquisa relacionada à constituição da identidade, subjetividade, negritude, etnomusicologia, construção das tradições, arte e cultura, entre outros temas. Tem se dedicado a pesquisa de sonoridades afro-ameríndias no Brasil e América Latina. Realizou pesquisas musicais em cinco cidades cubanas, trocando experiência e coletando sonoridades dos artistas locais. Escreve ao Esquerda Online sobre temas relacionados a produção artística no Brasil e no mundo.

O sol já esquentava a areia da Praia do Meio quando centenas de pessoas, em sua maioria, filhos e filhas de axé chegavam a Praia do Meio por um motivo especial. Deixarei Caymmi dizer por mim, “Dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar, eu quero ser o primeiro, a saudar Iemanjá”. Inúmeras casas de candomblé amanheceram na praia para deixar os seus presentes e saudar Yemanjá, Rainha do Mar.

Esse ano, o evento ganhou uma conotação ainda mais especial. Tratava-se da inauguração da nova estátua de Yemanjá, localizada na praia. A escultura vinha sofrendo depredações constantes por conta da intolerância religiosa ainda latente em nossa sociedade. Por essa razão, os povos de terreiro da cidade se mobilizaram e conseguiram articular a construção e instalação de um monumento mais resistente. Além disso, a estátua conta com um esquema de segurança composto por iluminação noturna e câmeras de vídeo funcionando 24 horas.

Voltando aos festejos, o dia foi repleto de celebrações que começaram com os presentes entregues ao mar, seguido por apresentações de grupos culturais como Folia de Rua Potiguar, Nego Zambi, Coco de Zambê, Coco Juremado as Flechas, a cantora Analuh Soares, dentre outros. Nem mesmo o sol escaldante de 31 graus na cidade foi capaz de afastar as centenas de pessoas que compareceram e saudaram Yemanjá durante todo o dia.


Foto: Felipe Nunes.

Cortejo para Rainha do Mar

O ápice do dia ocorreu durante o tradicional cortejo realizado pela Nação Zambêracatu que há oito anos desfila pelas ruas da Praia do Meio com seu “Batuque para Rainha do Mar”. O público, mais uma vez, compareceu em peso para participar da caminhada liderada pelo Batalhão Azul. Ao som dos agbés, ferros, caixas, alfaias e as loas entoadas aos orixás, um verdadeiro exército sonoro se espalhava pela faixa litorânea da praia. Cerca de 600 pessoas se espremiam umas nas outras entre a rua e a calçada, cantando e dançando ao som do maracatu potiguar. Esse ano, o cortejo contou com a participação especial do Ogan Douglas Viana da Nação Maracatu Porto Rico de Recife (PE). O que começou com um tímido cortejo em 2012 com 16 batuqueiros, transformou-se numa poderosa manifestação cultural e religiosa de matriz afro-brasileira na cidade do Natal. É impressionante ver a capacidade de atração e encantamento causado pelo desfile da Nação Zambêracatu. Seus agbés soavam como os ventos de Oyá, enquanto as alfaias estrondavam como os raios de Ogum, tendo como pano de fundo o imenso mar azul de Yemanjá.

O 2 de fevereiro em Natal (RN) demonstrou mais uma vez a força e resistência da cultura afro-religiosa na cidade, patrimônio cultural dos negros e negras potiguares.