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O neoliberalismo nasce e morre no Chile

Reprodução

Rejane Hoelever

Rejane Carolina Hoeveler é historiadora. Mestre e doutoranda em História Social na Universidade Federal Fluminense (UFF). Ativista feminista no Rio de Janeiro. Co-organizadora do livro A onda Conservadora: ensaios sobre os atuais tempos sombrios no Brasil (Rio de Janeiro, Mauad, 2016).

“Que levantem mais cedo”. Assim respondeu o (ex-)ministro da Economia do Chile, Juan Andrés Fontaine, quando perguntado sobre o aumento de 30 pesos nas tarifas do metrô no período de pico. “Ninguém protesta quando sobe o preço pão ou do tomate”, afirmou Juan Enrique Coeyma, membro do comitê de “expertos” que decidiu pelo aumento das tarifas e “casualmente” diretor de um fundo de pensão, a AFP Modelo – acusando que haveria “política” por trás dessas manifestações. Andrónico Luksic, um dos homens mais ricos do Chile e do mundo, tuitou contra o “vandalismo” – naquilo que era o discurso oficial de todas as esferas do governo, junto com a grande mídia, nos primeiros dias dos protestos, e que culminou na desastrosa declaração do presidente Sebastián Piñera de que o Chile estava em “guerra”.

Os grandes empresários e a direita chilena, ao assim responder os protestos, praticavam seu cinismo e sadismo de sempre. O que não esperavam é que, dessa vez, não sairiam incólumes – ainda mais em se tratando de sujeitos que personificam tão explicitamente as continuidades históricas agora em xeque.

Apenas pra ficar em dois exemplos, o (ex-)ministro do Interior Andrés Chadwick, o homem por trás da violência estatal no Chile, “casualmente” primo do presidente, é um homem com as mãos sujas de sangue há muito tempo. Chadwick (UDI) foi da juventude pinochetista (Frente Juvenil de Unidad Nacional) e membro da comissão legislativa da Junta Militar de Governo do general Pinochet. Em julho de 2005, descobriu-se que ele foi um dos políticos de direita que tinham acesso livre à tristemente famosa Colônia Dignidad (campo de concentração erigido pelo nazista Paul Schafer durante a ditadura de 1973). O braço direito de Piñera é um antigo fã de ditadores, amigo de nazistas, cúmplice dos maiores crimes contra a humanidade.

Por sua vez, Javier Iturriaga, o general que declarou o Estado de Emergência, também carrega um histórico sombrio: filho de torturador, sobrinho de torturador, já era oficial do Exército de Pinochet na ditadura, nos anos 1980; esteve a cargo da repressão aos mapuches em Temuco e Cautin (sul do Chile) nos anos 2000, e chegou a ser adido militar no Brasil em 2014.

A transição democrática chilena, bem como a brasileira, manteve bem felizes os grandes beneficiários do regime sanguinário de Pinochet, seguiu reproduzindo os velhos manuais da Doutrina de Segurança Nacional, continuidade coroada com a manutenção da própria Constituição da ditadura e todos seus mandamentos neoliberais. O ponto é que o signo anti-neoliberal do movimento de outubro é inegável, porque todas as reivindicações presentes das manifestações (saúde, transporte, educação, direitos trabalhistas, previdência, serviços públicos) se chocam, objetivamente, com o modelo implementado pela ditadura de 1973 e continuado pelos governos da Concertação.

Se é certo que a direita mais sagaz, tanto no governo como na mídia empresarial, alguns dias depois da eclosão da revolta, já começou a tentar disputar a narrativa sobre o motivo do descontento (tentando, assim, estabelecer a agenda para uma acomodação conservadora), também não há dúvidas que será muito difícil seqüestrar o caráter anti-privatista das reivindicações, ou apropriar-se dos protestos tentando modificar a sua pauta, como vimos acontecer no Brasil de 2013.

Quanto de Junho de 2013 há no Outubro de 2019?

É impossível aos ativistas brasileiros que viveram Junho de 2013 não ver diversos paralelos com o que está acontecendo no Chile. As semelhanças são muitas. Lá como cá, os grandes meios de comunicação não apenas omitem a gravidade da repressão, deliberadamente não reportando casos gravíssimos de terrorismo de Estado, como também procura, como verdadeiro partido político que a mídia empresarial sempre constitui, disputar conteúdo e forma dos protestos, ao propositadamente confundi-los.

A dicotomia que passa a se estabelecer entre “vândalos” e “pacíficos”, uníssona na mídia empresarial, também é bem conhecida por nós. É possível inclusive notar uma mudança na posição da mídia ao longo dos dias das Jornadas no Chile muito similar à que vimos acontecer aqui no Brasil. Da condenação às “Jornadas de Violência”, na sexta-feira dia 18 e sábado dia 19, a TVN chilena, por exemplo, passou a exaltar as “marchas familiares”, pacíficas, ordeiras e respeitadoras das regras do Estado de emergência – relegando a um espaço criminalizante as cenas de barricadas e a desobediência civil (massiva) ao toque de recolher.

Ainda assim, o apoio popular a ações radicalizadas seguiu considerável, lembrando para nós uma cena muito emblemática de 2013, quando um apresentador de um programa televisivo policialesco de direita fez uma pesquisa ao vivo sobre a “violência nos protestos” e a maioria de seu próprio público afirmou ser favorável. Por outro lado, uma pesquisa do Pulso Ciudadano mostrou que havia um considerável apoio ao Estado de Emergência, o que mostra uma deflagrada disputa de consciências.

As diferenças entre esses processos, entretanto, são muito maiores. Tanto pela própria magnitude e radicalidade do movimento, como pela truculência da repressão – ambas qualitativamente maiores no país vizinho. Ainda que a repressão a 2013 no Brasil tenha incluído um forte terrorismo de Estado, acionamento da Lei anti-terrorismo, etc, o que vemos acontecer no Chile agora é de outra ordem: são mortos na casa das dezenas; feridos na casa dos milhares; detidos/desaparecidos na casa das centenas; lideranças estudantis sendo seqüestradas pela polícia de dentro de suas casas, jovens sendo “crucificados” em antenas. Cenas de barbárie que seguramente não se via no país andino desde os piores anos da década de 1970.

Neste contexto, torna-se ainda mais acertada a reivindicação de uma Assembléia Constituinte que finalmente enterre a Constituição herdada de Pinochet, bem como todo seu nefasto legado social. O que se desata é também, neste sentido, um processo de justiça de transição a posteriori. As várias cenas em que se derrubam monumentos de generais e conquistadores não deixam sombra de dúvida quanto a isso.

Lá como cá, a extrema-direita certamente possui recursos para colocar em funcionamento sua máquina política, utilizando os mesmos sórdidos mecanismos praticados no Brasil desde 2015, como a propagação de fake news. Como se sabe, foi no período que vai de 2013 a 2015 que se forjaram, no Brasil, movimentos que lograram canalizar a indignação popular legítima expressa nas Jornadas de Junho para “Meu partido é o Brasil” – e logo para Bolsonaro. Mas o terreno para a extrema-direita, no Chile, parece ser bem menos fértil: a própria memória popular da repressão da ditadura, bem como a tônica latente nos protestos contra a desigualdade/injustiça social e contra o modelo privatizante, como mencionamos, constituem obstáculos enormes pra isso.

Assim, ainda que o pinochetismo tenha ganhado novo fôlego no último período, com o fortalecimento da extrema-direita em todo continente, a dificuldade em um movimento à la Bolsonaro capitalizar politicamente no Chile é muito menor. Além disso, é digno de nota que a esquerda organizada tem muito mais possibilidades, comparado ao que tínhamos no Brasil, de pressionar por uma saída radical à esquerda. O posicionamento do mais interessante partido da esquerda chilena, o Frente Amplio, em não negociar enquanto fosse mantido o Estado de Emergência, é digno de nota.

Mais importante que isso, a convocação de Juntas Vecinales (juntas de vizinhos) e Cabildos (organismos democráticos de deliberação popular) é uma mostra que, apesar de sua inorganicidade inicial, o movimento chileno tem o potencial de construir reais espaços de organização e quiçá, em uma visão otimista, de duplo poder – algo que esteve muito longe de se concretizar no nosso junho de 2013.

Nem à direita nem à esquerda? Para onde vai o Chile?

Observando os modos de dominação política dos últimos anos na América Latina e em outras partes do mundo, parece haver uma espécie de revezamento entre, por um lado, governos baseados numa “direita para o social” (com seus múltiplos mecanismos de refreamento do conflito, como as políticas de gotejamento social do Banco Mundial) somada a uma “esquerda para o capital” (partidos como o PS chileno e o PT brasileiro, que possibilitaram concessões maiores ou menores dentro nos marcos da estrutura neoliberal); e, por outro lado, governos de uma direita autoritária sem máscaras.

O elemento novo que vimos surgir nos últimos anos é uma direita que disputa e ganha as ruas: assim foi a partir de 2015 no Brasil, assim tem sido há muitos anos na Venezuela (ambas direitas extremamente golpistas e pró-imperialistas); e assim também podemos entender o caso das manifestações impulsionadas por Carlos Mesa na Bolívia, bem como da campanha anti-kirchnerista na Argentina, todos impulsionados e dirigidos inegavelmente pelas classes mais altas da sociedade – com maior ou menor alcance popular. Entretanto, neste Outubro de 2019, Equador, Peru, Haiti, Honduras, Costa Rica – e agora a famosa “Suíça” da América Latina, como regurgitavam os neoliberais – os ventos contrários voltaram a soprar com força.

Quem tirou as lições do Junho brasileiro de 2013 também sabe muito bem onde desaguou a rejeição aos partidos e a política. A frase “Nem direita nem de esquerda, os de baixo lutando contra os de cima”, apesar de seu implícito conteúdo classista/anti-capitalista, produz um efeito colateral perverso ao descolar a esquerda dos “de baixo”. Essa fórmula, que esteve e está presente em várias partes do mundo (Espanha, Argentina, Brasil) é sintomática de uma derrota ideológica profunda, selada pelas ditaduras e diariamente reconstruída pela despolitização da política típica do neoliberalismo, que nega a política em nome de diversas tecnocracias. É particularmente triste, para aqueles ativistas pertencentes a organizações de esquerda que nunca fizeram parte dos espúrios acordos em nome da “governabilidade”, escutá-lo. Em resumo, se é verdade que as massas não são de direita nem de esquerda, também é fato que quem as ataca é a direita, e quem as defende é a esquerda.

As reafirmações “anti-política” causam uma enorme confusão no movimento, porque retiram as lutas populares, feministas, estudantis, etc como parte da esfera da “esquerda” (enquanto uma visão de mundo igualitária e libertária); e consolidam o discurso hegemônico que equivale “esquerda” aos partidos institucionais que foram co-artífices dos sucessivos pactos. No Chile essa “esquerda” é representada por figuras como Michelle Bachelet, cuja política progressista não chegou nem perto de atacar as bases do modelo neoliberal; e cuja tentativa de uma nova Constituinte não saiu do papel. O posicionamento de Bachelet neste momento, é, aliás, bastante emblemático dessa “esquerda” institucional: depois de uma larga demora em pronunciar-se sobre o que estava acontecendo em seu país, quando o fez, chamou por “conciliação nacional” – tudo que o povo chileno quer romper neste momento.

Não é casual que temos visto, exemplo atrás de exemplo, quando mais se repete essa idéia (“nem de esquerda nem de direita”) é justamente quando mais cresce a extrema-direita, cujo cinismo e descompromisso com a verdade permite vender-se, com base na xenofobia e nos ressentimentos sociais mais retrógrados, como uma saída supostamente por fora do stablishment político. A deslegitimação das organizações de esquerda que sempre estiveram organicamente ligadas às lutas populares serve como uma luva ao propósito dos inimigos dessas lutas.

Karla Rubilar, a intendente de Santiago (cotadísssima para compor o novo gabinete de Piñera), que na sexta-feira, dia 18, repetia o discurso de Chadwick sobre os “atos vandálicos”, sete dias depois, não cansa de repetir que os atos “não têm líderes”; “não têm partidos”; e que quem está nas ruas não é “nem de direita nem de esquerda”…convenientemente apagando a segunda parte daquela frase – como se espera de quem está, indubitavelmente, com “os de cima”.

O governo chileno, por um fio, vai tentar retomar o controle principalmente através de medidas que não mexam no bolso dos grandes empresários – o que, por óbvio, não vai resolver as reivindicações populares que são majoritariamente por um conjunto de direitos sociais, serviços públicos e pela estatização da água e os transportes. Os partidos e lideranças políticas que estiveram alinhadas com o governo vão apostar no figurino da “direita para o social”, atendendo parcialmente as demandas populares sem quebrar os pilares do neoliberalismo, mas não conseguirão uma trégua tão fácil. A esquerda chilena está diante de um desafio histórico: se sua postura for a da “conciliação nacional”, estará fadada à derrota; mas, se dobrar a aposta na força do povo organizado, poderá estar à frente do enterro do neoliberalismo, no país que foi o seu berço.

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