As raízes indígenas mapuches do Chile

Henrique Carneiro

Ativista Antiproibicionista e professor de História da Universidade de São Paulo (USP)

Espremida nessa “geografia insólita”, como Benjamín Subercaseaux chamou o Chile, comprida e estreita, permeada de desertos e fiords, geleiras e vulcões, a nação chilena constitui-se na luta pela conquista do sul, e lá estão até hoje, falando em sua língua nativa, os índios que mais tempo resistiram à conquista espanhola na América: os guerreiros araucanos mapuches. Apenas em 1883, a “pacificação da Araucanía” foi obtida, não nas batalhas, mas na mesa de negociações. Desde Lautaro, o chefe indígena que matou o conquistador Pedro de Valdívia, fundador de Santiago, que os mapuches lutam bravamente.

Os libertadores de 1811, os republicanos e independentistas San Martin, O’Higgins, Manuel Rodrigues, Carrera, reconheceram nos mapuches uma das essências da nação chilena, dando o nome de Lautaro para uma das quatro fragatas da esquadra chilena que ajudou a libertar o Peru e expulsar os espanhóis da América. Os espanhóis nunca aceitaram essa ousadia e até 1865 continuavam declarando guerras ao Chile.

O termo arauco, que denominou o povo ao sul do rio Bio-Bio, vinha do quechua e significava “bravo guerreiro”. Os próprios araucanos chamavam-se em sua língua “mapuches”, ou seja, gente da terra. Supõe-se que sejam de origem guarani, inclusive por parentescos linguísticos. Tribos desgarradas das regiões onde hoje é Paraguai, Brasil e a província argentina de Entre-Rios migraram para além da cordilheira instalando-se nas ribeiras do rio Mapocho.
Em Temuco, capital mapuche, a estátua da xamã, a machi, com seu kultrun, tambor cerimonial, ascende acima de todos os personagens que constituem a nacionalidade: o colono, o soldado, o cacique Kallfulifan e Alonso de Ercilla, autor de La Araucania, primeira obra épica sobre esse confim do planeta, encravado na faixa estreita que forma o corredor entre a segunda mais alta cordilheira da terra e o mais largo e profundo oceano.

O Chile possui 148 vulcões, muitos deles ativos ou adormecidos, alguns outros extintos. O mais alto é o Ojos del Salado. Ao lado dos desertos e das geleiras perfilam-se nessa estreita faixa uma das fronteiras mais altas do mundo.
Uma outra montanha famosa no extremo sul do Chile, são as torres do Paine, que significa “azul” em língua puelche (os mapuches do leste). Os mantos de gelo azulado das geleiras pendentes das escarpas ou do mar imóvel e pétreo de resplandescências azuladas e troar de terremotos em seus despreendimentos de avalanches de água congelada deram o nome para o maciço de montanhas, entre lagos e o campo de gelo continental sul.

Há cerca de onze mil e quinhentos anos mudanças climáticas levaram a extinção de 35 gêneros de megafauna, marcando o fim do Pleistoceno. A descoberta em Monte Verde, perto de Puerto Montt, no sul do Chile, dos mais antigos restos de povoamento humano no continente americano, há cerca de 12.500 anos, derrubou o chamado “paradigma Clóvis” na arqueologia, que identificava em pontas de flecha da cultura Clóvis do Novo México, há 11.200 anos atrás, o mais antigo vestígio de seres humanos na América, que seriam originários da passagem de Bering. Em Monte Verde, devido ao clima frio e à existência de um solo de turfa, conservaram-se restos de mastodontes, boleadoras de pedras, pegadas humanas e até mesmo artefatos de madeira.

Como parte da fronteira sul do Império Inca, os antigos habitantes do Chile também partilharam de elementos da cosmovisão andina. Pacha é um conceito chave na cosmovisão andina. Vocábulo comum das duas principais línguas andinas, o quechua e o aymara, significa espaço e tempo simultaneamente, Pacha é o universo. Pachamama, a terra, divide-se em três esferas, denominadas em quechua: Janaj pacha, o céu; Kai pacha, a superfície da terra; e Uku pacha, o mundo subterrâneo. Em aymara, estas três esferas seriam, respectivamente, Alaj pacha, Jicha pacha e Manka pacha. A cosmogonia andina identifica em Pachamama, a mãe terra, a origem de tudo, pois ela é não criada ou cria-se a si mesma.

O Império Inca, o Tayuantisuyo, era composto por quatro regiões: o norte, Chinchasuyo; o centro cuzqueño e litoral, Cuntisuyo; as vertentes andinas tropicais, Antisuyo; e o altiplano boliviano, Collasuyo, o chamado Alto-Peru e depois a administração de Charcas da época da conquista, a atual Bolívia de hoje em dia. Em 1533, Atahualpa, o último Inca, foi executado pelos espanhóis em Cajamarca, no Peru.

Mesmo antes disso, em 1520, cinco naves já haviam atravessado pela primeira vez na história o passo extremo da latitude 50 sul, chamado então de “Passagem de Santa Úrsula e das onze mil virgens”, e conhecido atualmente como Estreito de Magalhães. O Cabo Horn, ponto efetivamente extremo da massa continental ao sul antes da Antártida, foi descoberto apenas em 1610 pelos holandeses Schouten e Le Maire.

Mas, foi apenas em 1843 que o Estado chileno tomou medidas efetivas para estabelecer e garantir a colonização do sul, construindo o forte Bulnes na margem norte do estreito. Cinco anos mais tarde, o local de povoamento transferiu-se para o Sandypoint, que veio a ser a florescente Punta Arenas. Em 1876, entraram na Patagônia chilena 300 ovelhas, em 1886 já eram 150 mil e em 1900 mais de um milhão. Os habitantes colonizadores eram bem menores em número. De cerca de mil e quinhentos em 1875, passaram para 17 mil em 1907.

A caça dos lobos do mar, até ser proibida em 1893, concorreu com a caça aos indígenas, e os descendentes dos grupos étnicos do extremo sul, prodígios da adaptação ao frio intenso, aonikenk, os ona, yamana, selk’nam foram exterminados com suas orelhas sendo compradas pelos fazendeiros.

A abertura do Canal do Panamá em 1914 liquidou com a glória de Punta Arenas que antes tinha sido o ponto obrigatório para todos os barcos que iam de Ocidente a Oriente e vice-versa.

Dom Manuel Montt Torres, presidente chileno entre 1851 e 1861, impulsionou a imigração alemã para o sul, fundando em 1853 a cidade que viria a se chamar Puerto Montt. Hoje centro de acuicultura, especificamente piscicultura de salmonídeos.

O Chile é uma imensa coluna vertebral rica de uma medula de cobre, que alimentou o mundo e gerou as fortunas Guggenheim. O salitre, o ouro branco era o outro produto que, desde 1851, tornou-se o primeiro e obrigatório fertilizante agrícola do mundo. Os nitratos e o cobre da cordilheira se somaram ao guano das ilhas da costa para despertarem as fúrias e as ambições dos capitais que levaram à Guerra do Pacífico em 1879, entre Peru, Chile e Bolívia.
A espoliação das riquezas naturais, minerais, das águas e dos bosques das populações originais foi o método que criou as fortunas da colônia espanhola no passado e da burguesia chilena desde a Independência.
Assim como a Amazônia, no sul do Chile subsiste ainda uma enorme área de florestas e geleiras e habitada por povos tradicionais, e cuja riqueza é cobiçada por megaempreendimentos capitalistas.

Hoje décadas uma intifada mapuche sacode a oitava e a nona regiões do Chile. A Araucanía se levanta em defesa das terras indígenas ameaçadas por projetos de instalação de grandes empresas, projetos de barragens e hidrelétricas no rio Bio Bio que só serviriam para a instalação de indústrias poluentes como a de celulose.

Um mapeamento genético da população chilena indicava 40% com herança genética mapuche. Nas regiões em conflito, 25% da população se reivindica como mapuche, ou seja, “a gente da terra”, significado do termo mapuche em mapugundum, a língua mapuche mais difundida.

Os nomes das doze regiões chilenas são: Tarapacá, Antofagasta, Atacama, Coquimbo, Valparaíso, B. O´Higgins, Maule, Bio Bio, Araucania, Lagos, Aizén, Magallanica e Antartica. O Maule é o rio limítrofe da fronteira sul dos mapuches, jamais conquistada militarmente, nem pelos incas nem pelos espanhóis. Também é o limite biológico de certa floresta temperada de altitude, Notophagus, as lengas, ñires, cohiues e outros.

Assim como ao longo de toda a cordilheira dos Andes, subsiste e se subleva no Chile um conjunto de populações de profundas raízes indígenas.

O emblema mais simbólico disso é o papel que vem tendo a bandeira mapuche nos protestos de outubro de 2019.