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A rebelião de massas no Chile abriu uma situação revolucionária?

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Os olhos da esquerda mundial devem se voltar para o Chile. Estamos diante de uma explosão de fúria popular que tem todas as características da abertura de uma situação revolucionária. Revolucionária, porque o governo Piñera treme dentro do palácio de La Moneda onde Allende foi assassinado. Hoje o medo mudou de lado. As imagens incendiárias que nos chegam de Santiago têm muita justiça poética histórica, porque hoje são os herdeiros de Pinochet que têm medo.

O traço definidor mais importante do grau de politização de uma revolta foi sempre a irrupção multitudinária das classes populares, e sua intervenção ativa na arena política. Em outras palavras, a abrupta elevação da intensidade das lutas de classes, porque milhões se colocaram em movimento, e desafiam o governo de plantão. O gatilho, a centelha, a faísca foi o aumento dos transportes. Mas a greve geral de hoje já colocou na ordem do dia a questão central: Piñera não deve governar. A classe dominante já está se dividindo. A classe média, o colchão de sustentação do regime, está paralisada.

Não é porque algumas sociedades têm mais pressa de realizar transformações do que outras, ou porque alguns povos são mais aguerridos do que outros que revoluções acontecem. Revoluções são provocadas porque, em algumas circunstâncias raras, porém, não inusitadas, há crises sociais que se demonstram insolúveis. Diante das crises, as sociedades podem recorrer ao método da revolução, ou seja, a ruptura da ordem, ou ao método das reformas negociadas, portanto, da preservação da ordem com algumas concessões, para resolver as suas crises.

Quando e por que prevalece um caminho ou outro deve ser o cerne da investigação marxista. Em algumas etapas históricas, excepcionalmente, transformações progressivas foram possíveis através do jogo de pressões e concertações sociais e políticas. Foi assim, por exemplo, no final do XIX na Europa Ocidental, quando da repartição do mundo colonial consagrada pelo Tratado de Berlim de 1885. Porque era possível uma divisão de migalhas com os proletariados europeus com a elevação da pilhagem do mundo colonial e semicolonial, e porque existiu o medo de novas Comunas de Paris como em 1871. Ou entre 1945/75 na tríade dos países centrais, EUA, Europa e Japão Que só pode ser compreendida no contexto da terrível destruição da Segunda Guerra Mundial, da estruturação da etapa de paz armada entre os EUA e a URSS, pela preservação do domínio do mercado mundial, mesmo após as independências asiáticas e africanas e, por último, mas não menos importante, como medida preventiva diante da possibilidade de novas revoluções de outubro, como na Rússia em 1917. Hoje as mudanças pela via de reformas ficou muito mais difícil.

Sim, levantes na escala do que estamos presenciando no Chile, muito mais poderosos do que protestos, são sempre espontâneos. Espontâneos, em um primeiro momento, porque não são uma obra construída por alguma organização. Nenhum partido tem capacidade de induzir a mobilização de centenas de milhares de pessoas desafiando um Estado de sítio, com o apoio de milhões. São uma autêntica onda de choque social que desloca as placas tectônicas da dominação. Espontâneas não quer dizer que não sejam a expressão de um movimento consciente. Na vida social não há ações coletivas sem consciência. O nível de consciência pode ou não estar à altura das tarefas. Mas as massas em luta aprendem rápido. Por isso, conclamam nas ruas: Fora Piñera.

Por mais aguda que seja a crise econômica, por mais severas as sequelas das catástrofes sociais, por mais dramática que seja a agonia de um regime político, sem que as massas entrem em cena não se abre uma situação revolucionária. Todas as revoluções começam como revoluções políticas (a luta pela derrubada de governos e regimes) e têm uma forte tendência à radicalização em revoluções sociais (a luta pela mudança das relações de propriedade).

O terreno das transformações históricas é sempre um campo de disputas que estão, por um longo período, mais ou menos dissimuladas, até que explodem de maneira vulcânica. Enganam-se aqueles que, engajados em suas preferências, só reconhecem como revoluções autênticas aquelas que tiveram direções que correspondem às suas escolhas ideológicas. Revoluções são processos muito complexos que não se definem somente a partir de uma variável.

O gigantismo heroico da luta camponesa indígena no Equador contra o governo de Lenín Moreno não deve ser desqualificada porque sua direção é a Conaie. A grandeza do processo revolucionário na Argélia, nestes últimos seis meses, não merece ser reduzida porque seus dirigentes não são marxistas. O mesmo pode ser dito sobre as mobilizações no Sudão há três meses.

Veremos se a esquerda chilena será ou não capaz de se legitimar diante das massas juvenis e trabalhadoras que são hoje a primeira linha dos combates em Santiago do Chile. Uma esperança do tamanho do mundo marcha ao lado deles.

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Reveja a live sobre a rebelião no Chile

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