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MUNDO

Veja como foi o Acampamento Internacional de Jovens Anticapitalistas

Carol Coltro, de Lisboa

Entre os dias 21 e 28 de julho ocorreu no Estado Espanhol, em La Granja, Segóvia, o Acampamento Internacional de Jovens Revolucioná[email protected] O espaço é organizado por várias organizações políticas anticapitalistas que estão conhecendo ou já se reivindicam da Quarta Internacional. Estive representando a Resistência, corrente interna do PSOL, no evento.

O acampamento foi uma reunião bastante viva, com a presença de ativistas que organizaram as principais lutas que têm ocorrido no mundo, como as greves feministas, os atos do 8 de março e a greve estudantil pelo clima. Também compartilhamos as experiências e análises sobre o fenômeno da extrema direita, a luta em defesa dos imigrantes e a reflexão de como organizar a juventude em trabalhos precários.

O acampamento contou com espaços de formação que ocorreram todas as manhãs, com grupos de debates e oficinas, além de festas e várias oportunidades de convivência e troca de experiências entre as delegações dos países. 

 

A questão climática

Como sabemos, desde 2016 as emissões de gases com efeito estufa – responsáveis pelo aquecimento global – têm aumentado: 2018 foi o ano com mais emissões desde sempre. 

No final do ano passado, um relatório do IPCC (Painel Internacional para as Alterações Climáticas da ONU) informou que o “teto” de aquecimento médio da atmosfera em 2°C até ao final do século, limite assumido pela pelos governos que firmaram em dezembro de 2015, o Acordo de Paris pelo Clima, está superestimado. Baseados em novos modelos mais complexos, os especialistas afirmam que o máximo a que pode chegar a subida média da temperatura atmosférica é 1,5°C. Com um aumento superior a este, os riscos de desencadear um cenário de desregulação climática global são enormes. O fato alarmante é que hoje já atingimos  uma subida média da temperatura de 1°C face aos valores anteriores à era industrial.

Já o relatório da Assessoria Nacional para o Clima, dos EUA, ressalta que as medidas tomadas até hoje pelos vários governos têm sido ineficientes. No atual ritmo chegaremos ao final do século perante um aumento médio da temperatura, não de 1,5°C, nem de 2°C, mas de 5°C. Isso aceleraria brutalmente o derretimento dos polos, a submersão da maioria das grandes metrópoles, secas e cheias extremas, que tornariam regiões inteiras do globo inabitáveis, a desregulação das correntes oceânicas, a perda de grandes áreas agrícolas férteis, crises migratórias acrescidas.

Ciente dessa realidade, o debate sobre a questão climática certamente foi uma das mais importante no acampamento e exigirá artigos a parte para transmitir tanto as elaborações e debates, a estratégia ecossocialista e a organização da greve pelo Clima que já tem nova data marcada para setembro.

O debate parte do fato A abordagem foi em contraposição ao ecologismo sem programa de alguns governos e setores burgueses, numa perspectiva anticapitalista. Foram apresentadas medidas necessárias para um enfrentamento efetivo a questão que inclui parar imediatamente a extração de combustíveis fósseis, baixar 50% da emissão de CO², proibir a exploração de 90% das reservas de petróleo. Nesse sentido, a ideia seria mostrar que na verdade a burguesia, apesar de falar em transição energética em alguns países, aumenta esses níveis de destruição. Isso é assim, porque a transição energética é incompatível com as necessidades de acumulação do capitalismo. Por isso o programa da extrema direita é a negação das mudanças climáticas.

No encerramento João Camargo, ativista pela justiça climática no movimento Climáximo e pesquisador em mudanças climáticas, de Portugal, que fez a exposição sobre o tema alertou:

“Buscamos paralelos históricos para solução política e técnica para a crise climática. Nós os procuramos em momentos muito difíceis da História da Humanidade, mas temos que ser claros: precisamos fazer mais do que nunca. Terá de ser mais do que um New Deal, mais do que uma Revolução Francesa, Russa ou Cubana, mais do que uma Guerra Mundial. Mobilização total. Nenhum programa social ou político pode resolver a crise climática sem destruir a estrutura do poder capitalista. Realismo político hoje em dia significa colapso. Retiro significa catástrofe. O capitalismo nos empurrará para o confronto, nunca desistirá de seu poder. Nós não podemos desistir. Devemos aceitar esse confronto e nos engajar na ação revolucionária. Nós viveremos uma nova era de revoluções. E talvez, no final, vamos vencer. Como aqueles que vieram antes de nós, não escolhemos o tempo em que nascemos e o tempo em que vivemos. Tudo o que podemos fazer é escolher o que fazer com o tempo que temos.”

 

A luta das mulheres

O feminismo foi debatido todos os dias, sua relação com os demais temas foi transversal em todos os espaços, além de ter um dia de trabalho todo dedicado a este tema. Laia Facet, dos Anticapitalistas do estado Espanhol fez a exposição abordando o fenômeno mundial de crescimento do feminismo no mundo no marco de uma reação contundente ao projeto de ofensiva burguesia. É um movimento de reação às políticas de aumento da exploração. 

O capitalismo nasce com as opressões e as colocam a seu serviço. As condições atuais exigem uma nova transformação em como utilizar as opressões. Essas novas condições são de produzir mais desigualdade com regimes menos democráticos. Por isso, há uma ofensiva sobre o direito do aborto, mais criminalização dos negros, ofensiva violenta contra LGBTs.

Essa redefinição ideológica e material das opressões que busca a burguesia, está em disputa porque há um movimento feminista a nível mundial. Esse movimento de resistência tem um salto qualitativo pois é massivo. Além da vanguarda das lutas gerais serem as mulheres, ela é também a expressão mais dinâmica da luta de classes.

As greves feministas que ocorreram na Europa e em alguns países da América Latina, como Chile, democratizaram o método grevista pois não está atrelado a burocracia sindical. Colocaram a greve como ferramenta para setores que estão excluídos do trabalho formal e, portanto, do próprio sindicalismo. Por isso também ajuda a questionar as burocracias sindicais reformistas. A greve também revela trabalhos essenciais invisibilizados como o cuidado com idosos e crianças, limpeza e etc. Ao final deste dia de debate, também houve uma festa das mulheres, que foi um espaço de fortalecimento muito importante.

 

Outros debates importantes

Além destes dois temas centrais houve o debate sobre LGBTQI+, no qual o centro foi o debate sobre a ofensiva da extrema direita sobre a sexualidade, a tentativa de disciplinar a classe trabalhadora e as diversas contradições que se apresentam. Diferente do Brasil, em alguns países da Europa como Dinamarca há relatos de que a extrema-direita busca dividir os setores oprimidos colocando os setores LGBTIQ+ contra os imigrantes como se defendesse esse setor diante de retrocessos associados de forma xenófoba aos imigrantes muçulmanos.

Houve também um debate bastante interessante sobre as experiências de organização dos trabalhadores precarizados que não estão abarcados pelas organizações sindicais clássicas, como são por exemplo, os trabalhadores do UBER, Rappi, etc.

A questão urbana também foi debatida, a partir do debate dos impactos da especulação imobiliária e seus efeitos, com ativistas da luta em defesa do direito à moradia, atingidos pelas hipotecas e pelos altos custos dos aluguéis.

O imigrante senegalês, emigrado em Portugal, Mamadou Ba, fez uma exposição sobre o tema da imigração e da luta contra a extrema direita que também pautou o tema da luta contra o racismo no marco da ofensiva atual.

 

Internacionalismo

O acampamento foi uma atividade de fortalecimento dos laços internacionalistas entre muitos jovens que acreditam que não há interesses nacionais que se sobrepõem a nosso interesse como oprimidos e explorados e nossa incansável luta por um mundo sem fronteiras. Sim, temos polêmicas e debates programáticos e táticos a serem feitos entre nós, mas foi importante sentir de perto que a juventude anticapitalista está presente nas principais batalhas de nosso tempo. A dureza dos tempos não trazem somente derrotas, mas também está forjando uma geração de jovens que não vê saída no capitalismo e que coloca sua energia e inteligência para a transformação social.

 

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