Há 100 anos, o primeiro filme com tema LGBTQI


Publicado em: 22 de junho de 2019

Travesti Socialista, colunista do Esquerda Online

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Este é o primeiro de sete textos desta coluna para o Especial Stonewall 50.

O filme alemão “Diferente dos outros” (Anders als die Andern) fez 100 anos. Um grande escândalo: um filme que mostrava que a homossexualidade não é um crime, é apenas um jeito de ser. Magnus Hirschfeld, homossexual e mais conhecido médico sexólogo da época, representa a si mesmo apresentando uma palestra. Ao apresentar pessoas homo e transexuais, Magnus afirma, sem a menor vergonha: não há nada de errado.

Magnus Hirschfeld, um precursor de vários debates LGBTQIs

Quando analisamos um filme antigo, temos de imaginá-lo em sua época. As visões sociais e teóricas do famoso sexólogo, que escreveu o filme com Richard Oswald, eram muito ousadas para a Europa de 1919. Em vários trabalhos, Hirschfeld explica que há diversos tipos de homossexualidade, já mostrando as diferenças entre orientação sexual, identidade de gênero e uso de roupas do sexo oposto, ainda que não com esses termos.

Em seu livro de 1910, “Die Transvestiten” (As Travestis), argumenta que existem vários tipos de “transvestiten” (pessoas trans* ou transformistas). Dizia ele que pode-se usar roupas do “sexo oposto” por mera vontade, por causa da existência de gênero interior ou, ainda, porque a pessoa interiormente pertence ao sexo oposto. Hirschfeld afirma que, no último caso, o termo “transvestite” não era tão adequado e sugere o termo “transexualismus”. Este foi muito pouco utilizado até ser ressuscitado a partir da metade do século XX, adquirindo a conotação de doença.

Um pouco de contexto

Após a Revolução Russa de 1917 e o fim da Primeira Guerra, a Europa entrou em ebulição. A Revolução Alemã em 1918, protagonizada por socialistas revolucionárias, levou à queda do regime autoritário do Kaiser Guilherme II e ao surgimento da República de Weimar. Não foi alcançado o socialismo, mas foram conquistados vários direitos sociais como a liberdade artística e de expressão.

A revolução impulsionou também o movimento homossexual da época, particularmente o Instituto Científico-Humanitário, dirigido por Hirschfeld, e seu abaixo-assinado lançado em 1897. Este demandava a revogação do Parágrafo 175, lei que criminalizava a “sodomia” (termo ofensivo para homossexualidade). Entre os assinantes estavam o socialista August Bebel (que apresentou a petição no parlamento 1898), o físico Albert Einstein, os escritores Leo Tolstoy e Thomas Mann. Foram mais de 6 mil assinaturas!

Aliás, o próprio filme “Anders als die Andern”, escrito por Richard Oswald e Magnus Hirschfeld, era uma bandeira ambulante contra o Parágrafo 175. A cena final mostra o Código Penal alemão aberto na página desta lei e uma mão aparece riscando-lhe um X. Ousadia das ousadias, tudo é ousadia!

Inimigos da liberdade deixaram cair suas máscaras. O parlamento alemão, apesar de uma minoria socialista e comunista, escandalizou-se pelos filmes que estavam sendo produzidos em decorrência da liberdade artística. O centro da discussão era “Anders als die Andern”. Os hipócritas, que só defendem a liberdade quando convém, giraram 180 graus e censuraram o filme.

A destruição do movimento homossexual pelo fascismo e pelo stalinismo

Na União Soviética, a criminalização da “sodomia” foi removida do código penal de 1922. O seu Comissário (ou Ministro) da Saúde, Nikolai Semashko visitou o Instituto e assistiu ao filme, estranhando sua censura. Semashko comentou, aliviado, que a homossexualidade já não era mais crime em seu país.

Entretanto, a ideologia stalinista foi tomando conta do Partido Comunista soviético. Semashko foi substituído em 1930. Outro comissário, Georgi Chicherin, homossexual, já afastado em 1926, foi difamado e até esquecido no movimento comunista. Em 1934, a “sodomia” voltou a ser crime na URSS. Estudos sobre sexologia foram queimados, escritores homossexuais foram presos, até mesmo muitos documentos bolcheviques envolvendo o tema foram destruídos.

Paralelamente, na Alemanha, o nazismo assumiu o poder e destruiu o Instituto e sua enorme biblioteca. Muitos homossexuais haviam apoiado o partido nazista por causa do dirigente e oficial Ernst Röhm, assumidamente homossexual. Entretanto, dirigentes do partido nazista o acusaram de querer implantar uma “ditadura homossexual”. Ele foi executado na famosa Noite dos Longos Punhais, em 1934 – que coincidência! O nazismo condenou 50 mil homens e enviou entre 5 e 15 mil aos campos de concentração ou de extermínio por serem homossexuais.

Dora Richter

Por isso que poucos conhecem toda essa história. Não se sabe que a primeira mulher transexual a passar por cirurgias modernas de transgenitalização foi Dora Richter, no próprio Instituto. Sua história não virou filme, como a de Lili Elbe em “A garota dinamarquesa”. Hollywood não parece se interessar na história de uma faxineira.

Nem mesmo “Anders als die Andern” sobreviveu em sua totalidade, mas foi reconstituído. O curioso trailer que mostra o estudante Körner desinteressado nas garotas está neste link. O filme reconstituído, em inglês, está neste link.


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