Três táticas dividem a esquerda diante do governo Bolsonaro

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Existem três táticas em disputa na esquerda brasileira. Vai ser necessário discutir, honestamente, para sairmos do “grau zero” de reflexão estratégica, agora que a conjuntura “esquentou” um pouco. Podemos denominá-las a tática quietista, a tática do desgaste e a tática da ofensiva permanente.

São três, também, os partidos com audiência de massas, PT, PSol e PCdB, se considerarmos como critério aqueles que conquistaram representação parlamentar, embora o PT seja, evidentemente, muito maior. Outros partidos têm legalidade e influência no movimento sindical, estudantil ou popular, e muitas organizações têm graus distintos de implantação social. Algumas são importantes, mesmo sem terem deputados. Dezenas de outros coletivos de diferentes tamanhos e grau de maturidade atuam nos sindicatos e movimentos sociais, embora a imensa maioria tenha somente dimensão local. Mas são somente três táticas.

A tática quietista consiste em disputar o espaço de oposição, com maior ou menor retórica radical no Congresso, e aguardar as próximas eleições. Quietismo deriva de ficar quieto, na moita. O quietismo fundamenta-se na apreciação, que pode ser mais ou menos explícita, de que teria ocorrido uma derrota histórica. Aceita Bolsonaro como legítimo porque, sumariamente, venceu as eleições. O governo representa, portanto, uma alternância nos marcos do regime presidencial. A oposição deve aproveitar as posições institucionais que ocupa, nos governos estaduais, prefeituras e nas Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional para a melhor redução de danos possível. A unidade de ação no Parlamento com os partidos do centrão, sob o mínimo denominador comum, deve ser priorizada. A esquerda não deve desafiar, frontalmente, o governo, porque pode provocar um endurecimento das tendências bonapartistas.

A tática da ofensiva permanente defende que as mobilizações de 15 e 30 de maio e o dia de greve nacional de 14J colocaram na ordem do dia o “Fora Bolsonaro”. Considera que existem condições para iniciar um movimento para derrubar o governo. Avalia que prevalece no Brasil a tendência à polarização social e política. Polarização significa dizer que há, crescentemente, dois polos com posições, relativamente, equivalentes, que terão que medir forças diante da gravidade da crise econômica e o agravamento da crise social. Apesar da vitória eleitoral de Bolsonaro, não se abriu uma situação reacionária. As derrotas acumuladas desde o impeachment de 2016 não permitem concluir que se impôs uma relação social de forças desfavorável. As posições da classe trabalhadora estariam intactas.

A tática do desgaste consiste em procurar posições de vantagem relativa, enfrentar o governo em conflitos parciais, pela corrosão, fricção, erosão, atrito, ruína, e acumular forças com vitórias parciais, porque elas são possíveis, e criar as condições para sair da defensiva, e passar à contraofensiva. A tática do desgaste reconhece que há uma situação reacionária e a política deve ser defensiva, ou seja, deve-se evitar aventuras, mas não considera que aconteceu uma derrota histórica.

Admite que não há, por enquanto, condições de mobilizar para derrubar o governo. Porque o governo ainda tem apoio na maioria da população. Por isso, o Fora Moro, Lula Livre. Não o Fora Bolsonaro. Afirma que devemos agir para enfraquecer ao máximo o governo, até que haja condições de tentar derrubá-lo, e passar para a tática de ofensiva permanente. No vocabulário marxista clássico, de inspiração gramsciana, trata-se de defender posições nas trincheiras, ou guerra de posições. No vocabulário dos quatro primeiros Congressos da  III Internacional, trata-se da tática da Frente Única, própria de situações defensivas.

Os três maiores partidos não são homogêneos. Curiosamente, existem defensores de pelo menos duas, ou até das três táticas, em maior ou menor grau de clareza, nestes três partidos. O debate é, portanto, transversal. PT e PSol admitem o direito de expressão de correntes internas organizadas que se manifestam, publicamente, em polêmicas permanentes. O PCdB nunca foi, a rigor, monolítico e suas discussões internas deixaram de ser, estritamente, reservadas.