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Chico Buarque de Hollanda e a simbiose entre palavra e canção

Reprodução

Chico Buarque

Parangolé

Felipe Nunes é ativista social, cantor, músico, compositor, poeta, artista gráfico, historiador e mestrando em Antropologia Social pela UFRN. Desenvolve pesquisa relacionada à constituição da identidade, subjetividade, negritude, etnomusicologia, construção das tradições, arte e cultura, entre outros temas. Tem se dedicado a pesquisa de sonoridades afro-ameríndias no Brasil e América Latina. Realizou pesquisas musicais em cinco cidades cubanas, trocando experiência e coletando sonoridades dos artistas locais. Atualmente trabalha na produção do seu primeiro álbum, bem como no seu livro de poesia a serem lançados em 2019. Escreve quinzenalmente para o Portal Esquerda Online sobre temas relacionados a produção artística no Brasil e no mundo.

Criado em 1988, a 31º edição do Prêmio Camões dado a autores com grande contribuição a literatura de língua portuguesa premiou ontem o multiartista brasileiro Chico Buarque de Hollanda, juntando-se a Jorge Amado, João Cabral de Mello Neto, Rachel de Queiroz, Saramago, Shopia de Mello Breyner Andersen, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo, entre outros.

Não entrarei em debate sobre a importância do prêmio, a lista de homenageados por si só é um poderoso argumento. Mas, voltando ao nosso homenageado, resgatando Stephen Greenblatt, todo bem cultural precisa encontrar uma ressonância junto a seu público, ao analisar a obra “examinando a maneira como nossa cultura apresentada a si mesma, não os vestígios textuais de seu passado, mas os vestígios visuais e materiais que dela sobrevivem”. Como bem menciona o mestre Antônio Candido no livro Formação da Literatura Brasileira ao discutir os elementos da compreensão:

“Uma obra é uma realidade não-autônoma, cujo valor está na fórmula que obteve para plasmar elementos não-literários: impressões, paixões, ideias, fatos, acontecimentos, que são a matéria-prima do ato criador. A sua importância quase nunca é devida à circunstância de exprimir um aspecto da realidade social ou individual, mas a maneira por que o faz. No limite, o elemento decisivo é o que compreendê-la e apreciá-la, mesmo que não soubéssemos onde, quando, por quem foi escrita”.

Inegavelmente, a obra de Chico Buarque atravessou as fronteiras do tempo e erigiu poderosos hinos que retratam memórias coletivas sobre o amor, do desamor, da luta contra o autoritarismo. Além disso, Chico como ninguém, usou e abusou com exímia maestria dos recursos linguísticos da língua portuguesa em suas canções. O seu primeiro disco lançado em 1966 já prenuncia na sua composição a estruturação milimétrica entre letra e canção. Neste disco, além dos sucessos “A Banda”, “A Rita”, “Tem Mais Samba”, chamou atenção do seu amigos na época, incluindo o saudoso psicanalista Roberto Freire a canção “Pedro Pedreiro”, a primeira que cantou quando conheceu Tom Jobim no mesmo ano e que, segundo ele, deu segurança pela primeira vez estar compondo algo que não era Bossa Nova, pois todos só pensavam nesse poderoso gênero que teve na voz e violão de João Gilberto seu momento inaugural com o disco “Chega de Saudade” em 1959. “Pedro Pedreiro” já mostrava a voz altiva de Chico contra a ditadura recém-imposta no Brasil, contando a história de um operário de obras desesperançado à espera de algo “a festa, a sorte, a morte, o norte, o trem que já vem”. Além da poderosa narrativa social alegórica e incompleta, anunciando a espera de algo que não vem, é encantador o uso do ritmo, da sonoridade, cada palavra organizada disciplinadamente na cadência da canção. Encontraremos ao longo da obra de Chico Buarque, um dos compositores mais bem sucedidos na difícil tarefa de relacionar música e palavra, combinou como ninguém a força das palavras com o poder visceral do ritmo da canção.

Chico Buarque não se contentou com a gravação de álbuns de canções, foi além, usou o seu talento para além das fronteiras da canção, gravou João Cabral de Mello Neto, montou peças, óperas, escreveu livros, foi e ainda é uma das vozes do país contra o autoritarismo. Em mais de 50 anos de carreira, possui uma obra vigorosa e que percorreu décadas sem perder a força da estrutura que revolucionou a música brasileira. Nas palavras de Adélia Bezerra de Meneses, autora de um livro fabuloso sobre a obra de Chico, Desenho Mágico – Poesia e política em Chico Buarque, a obra pode ser pensada em torno de três grandes linhas: lirismo nostálgico, variante utópica, vertente crítica.

Chico Buarque é a manifestação efusiva da palavra através da canção. É um dos compositores mais criativos da música brasileira. Tenho dificuldade a encaixar a genialidade dele em apenas uma caixinha dos segmentos artísticos. Chico é cantor, compositor, escritor, dramaturgo, ensaísta. Tudo isso está refletido em sua obra, capaz de criar canções como “Cala Boca Bárbara” que pode ser lida ao mesmo tempo como um belíssimo poema de amor erótico, ao mesmo tempo como uma mensagem contra a imposição do silêncio pelo autoritarismo. O prêmio Luís de Camões não poderia ser mais justo. Chico Buarque de Hollanda é um dos nossos mestres da canção e das palavras. É resistência, poesia e utopia! Em tempos tão sombrios e com sobressaltos do autoritarismo sobre o mundo. É dever de cada um de nós exaltar a obra de Chico!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CANDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. 6 ed. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia Ltda, 2000.

GREENBLATT, Stephen. O Novo Historicismo. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 4, n. 8, p. 244-261, 1991

MENESES, Adélia Bezerra de. Desenho mágico: poesia e política em Chico Buarque. 2. Ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

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