100 dias de governo Bolsonaro e a catástrofe sócio-ambiental

Henrique Carneiro

Ativista Antiproibicionista e professor de História da Universidade de São Paulo (USP)

Os primeiros cem dias do governo Bolsonaro foram alguns dos piores da história brasileira do ponto de vista sócio-ambiental.

O colapso da barragem de Brumadinho que matou mais de 300 pessoas, das quais cerca de uma centena permanecem desaparecidas, foi a pior tragédia humana e ecológica do Brasil.

Centenas de mortos, um rio destruído, mananciais de captação de água potável contaminados, e, como se isso não fosse pouco, ainda há diversas outras barragens em situação de risco. Centenas de famílias vêm sendo obrigadas a abandonar suas casas, sirenes tocam em meio da noite e obrigam a fugas desesperadas.

Nas capitais, e especialmente no Rio de Janeiro, estes últimos meses também foram de enorme destruição causada por chuvas torrenciais e ausência de medidas de prevenção que levaram a mortes, inundações e a decretação de estado de crise na cidade.

Estas catástrofes têm duas causas: uma é o aumento do aquecimento global e da temperatura média dos oceanos contribui para tempestades cada vez piores e vem provocando situações climáticas extremas. A outra é a inépcia governamental em investir e adotar medidas de prevenção.

O hemisfério norte está vivendo as maiores altas de temperatura já verificadas e o derretimento das geleiras e da camada congelada do solo, chamada de permafrost, vai piorar ainda mais a emissão dos gases que provocam o efeito estufa.

A atitude de qualquer governo minimamente responsável deveria ser a de buscar diminuir as emissões de carbono, alterar a matriz energética baseada em combustíveis fósseis, investir em transportes públicos de massa em alternativa aos automóveis e tomar medidas preventivas com investimento em infra-estrutura para minimizar as catástrofes anunciadas.

O governo federal se caracteriza, entretanto, por ser negacionista do aquecimento global e inimigo das medidas protetoras da floresta amazônica. O ministério do Meio-Ambiente, após ser cogitado de desaparecer, foi entregue a um lobista anti-ambiental. Após ameaçar retirar o país do Acordo de Paris, retrocedeu, mas seu programa se assemelha ao de Trump: incentivar a ampliação das emissões de carbono, flexibilizar a legislação ambiental, intensificar o desmatamento florestal, aumentar o uso de agrotóxicos e dar sinal verde para as intimidações e execuções de ativistas ambientalistas.

O futuro da humanidade tem elementos sombrios no que se refere ao desequilíbrio sócio-ambiental. As secas e as inundações vão aumentar. O acesso à água potável está diminuindo. O nível dos oceanos vai subir. A poluição atmosférica vai adoecer e matar cada vez mais. A biodiversidade vai diminuir com a extinção de muitas espécies. Os insetos em geral, e as abelhas em particular, sofrem uma dizimação cada vez maior. Os oceanos estão cheios de plástico e derramamentos de óleo e produtos químicos.

O atual governo brasileiro, ao invés de se preocupar e tomar medidas para prevenir ou amenizar estes graves efeitos da intervenção humana na biosfera planetária no sentido de diminuir o impacto dessa influência que marca a nossa época como a do “antropoceno”, ou seja, da ação humana com efeitos geológicos e biológicos irreversíveis, é defensor de um modelo de capitalismo cada vez mais predatório.

A destrutividade desse modelo, baseado num agronegócio de monoculturas extensivas de exportação com altos insumos de agrotóxicos e de fertilizantes sintéticos e com uso cada vez maior de sementes transgênicas, faz o Brasil retroceder para um modelo econômico neocolonial e desindustrializante.

O que está ocorrendo não é apenas a redução do país a uma plataforma de produção de gêneros primários agropecuários e minerais para exportação, como também a espoliação dos seus recursos humanos e naturais.

É preciso que se diga, no entanto, que não foi o governo Bolsonaro que iniciou esse modelo, embora ele agora o aprofunde como nunca antes. Os governos petistas foram também promotores desse mesmo modelo e seu monumento mais mórbido continua sendo a usina de Belo Monte e outras que estão em construção. O estímulo aos “campeões nacionais” na sojicultura, na produção de cana, na indústria da carne, nos megaprojetos de construção de estádios, representaram a ausência de qualquer veleidade de independência e soberania nacional no sentido de um desenvolvimento ecologicamente sustentável e com prioridade no desenvolvimento humano por meio da distribuição de renda.

O governo atual aprofunda aquilo que se atribuiu como um consenso compulsório ao capitalismo periférico: tornar-se uma zona de alta remuneração para investimentos predatórios que ampliam a apressam a catástrofe ecológica, por meio da espoliação da mineração.

O combate ao governo Bolsonaro no campo sócio-ambiental é uma questão de sobrevivência planetária. O socialismo do futuro será ecossocialista ou apenas repetirá as farsas trágicas do crescimentismo sem limites que marcam a distopia contemporânea como uma acumulação irracional de capitais especulativos e predatórios.