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Bolsonaro, ideologia anticientífica e o conflito entre Ciências Exatas e Humanas

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas. Travesti socialista que adora debates polêmicos, programação e encher o saco de quem discorda (sem gulags nem paredões pelo amor de Inanna). Confira o canal no Youtube.

Bolsonaro e apoiadores, de forma oportunista e sem qualquer formação ou estudo, deslegitimam algumas teses científicas dizendo que são contaminadas por ideologias. É isso que ocorre na denúncia contra a suposta “ideologia de gênero”, na afirmação que o Regime Militar não foi uma ditadura, na defesa do terraplanismo, do criacionismo, da negação da eficácia da vacina, etc.

As várias Teorias de Gênero são baseadas em muitos estudos sociológicos e antropológicos, em particular envolvendo sociedades nativas da América e da África. Os religiosos fundamentalistas fazem críticas sem estudar essas sociedades. O fato do Golpe de 1964 ter criado uma Ditadura Militar a partir de uma justificativa mentirosa também é comprovado por inúmeros documentos e estudos históricos, enquanto os “críticos” fundamentam-se em relatos pessoais de alguns civis e até mesmo (pasmem) de coronéis torturadores.

Igualmente, o fato de que a Terra é redonda, a Teoria de Darwin, a eficácia da vacina e a Mecânica Quântica são dados com inúmeras evidências e comprovações. O computador, por exemplo, não funcionaria se a Mecânica Quântica fosse mentira, como defende o Olavo de Carvalho – que não fez uma experiência num laboratório de Física.

O conflito entre Ciências Exatas e Ciências Humanas

Alguém poderia questionar por que existem muitos estudantes e professores universitários, majoritariamente homens, que defendem o político extremista e obscurantista e inclusive votaram nele. A razão para isso é um conflito existente há décadas entre as Ciências Exatas e as Ciências Humanas e que divide as Ciências Biológicas e da Saúde. É óbvio que essa divisão não é binária, há inúmeras exceções e meios-termos. Ela é uma média, não uma regra.

Há uma fundamentação epistemológica para esse conflito. Karl Popper formulou a teoria de que o que diferencia a ciência da pseudociência é o critério da falseabilidade. Esse critério se encaixa perfeitamente para o desenvolvimento das Ciências Exatas, com exceção da Matemática. Por exemplo, é possível testar a Mecânica Clássica em um laboratório colocando objetos em movimento e verificando se esses movimentos seguem as fórmulas e as teses elaboradas pela teoria.

Entretanto, esse critério é rígido e simplista, portanto incapaz de lidar com a fluidez e a complexidade da existência humana. Obviamente, muitas teorias das Humanas podem ser falseadas. Por exemplo, existem vários dados e fatos que desmentem as ideias do Bolsonaro sobre gênero e a ditadura. Porém, muitos acontecimentos na História são debatíveis, assim como explicações sobre por que os gêneros são tão diferentes na nossa sociedade do que em inúmeras sociedades nativas.

Assim, quando pessoas das Exatas criticam teorias das Humanas com sua cabeça de Exatas, só falam bobagem – e vice-versa. É por isso que, no meio das Exatas, Olavo de Carvalho é visto como um gênio quando fala asneiras sobre teorias das Ciências Humanas e é visto como tolo quando fala asneiras sobre teorias das Ciências Exatas.

A composição social dos cursos

Mas a razão mais de fundo deste conflito é, por um lado, a proximidade que as Ciências Exatas têm dos bancos e das empresas, particularmente as de tecnologia, enquanto as Ciências Sociais estudam a população, muitas vezes visitando pessoalmente os bairros mais pobres e os povos indígenas. Outro fator que acentua essa polarização é a composição social dos cursos universitários: cursos de exatas são, em média, mais elitizados, brancos e masculinos do que cursos de humanas (com uma exceção dos cursos de licenciatura nas exatas). Os conflitos de classe e os que envolvem opressões repercutem dentro da universidade. As posições de direita ganham maior influência nas Exatas, enquanto as de esquerda, nas Humanas.

É por isso que Bolsonaro pessoalmente não ridiculariza teorias científicas das Exatas, das Biológicas e da Saúde, limitando-se a ridicularizar teorias das Ciências Humanas, enquanto apoiadores ridicularizam teorias de outras áreas. É uma jogada de marketing.

Entretanto, é tão anticientífico ridicularizar a Mecânica Quântica quanto negar que o interesse de lucro das empresas causam desastres sociais e humanos. É tão ridículo afirmar que a Ditadura Militar foi necessária para conter um suposto golpe comunista quanto afirmar que vacinas não funcionam. Permitir que o criacionismo seja ensinado nas escolas como se fosse ciência é tão absurdo quanto proibir debates sobre gênero, família, preconceitos e diversidade.

Foram a partir de estudos sociais que se questionaram as teorias pseudocientíficas que afirmavam que mulheres são inferiores aos homens, que pessoas negras têm maior tendência à criminalidade, que homossexualidade e transexualidade são doenças, etc. Não se pode negar as importantes contribuições das Ciências Humanas à nossa sociedade e ao conhecimento humano. Ciências Humanas não são “perfumaria”.

Enquanto os movimentos feminista, LGBTQI e negro cresciam na década de 1960 e 70 nos EUA e na Europa, derrubando várias teorias pseudocientíficas e leis discriminatórias, eles não repercutiram com a mesma força na América Latina devido às ditaduras militares. As Teorias de Gênero ganharam muita força nas universidades desses países, confrontando ideologias fundamentalistas religiosas.

As consequências disso são representadas numa frase de uma entrevista de Vivian Miranda, uma mulher trans pós-doutoranda em astrofísica: “No Brasil não me respeitam; nos EUA faço satélite”. Ela trabalha na Nasa.

O “efeito Bolsonaro” nas Ciências

O governo Bolsonaro não está fazendo ataques apenas às Ciências Humanas, mas à Educação e à Ciência como um todo.

Bolsonaro pretende criar mecanismos de controle estatal do que é ensinado. Imitando regimes absolutistas, Bolsonaro quer proibir a “doutrinação ideológica”. Mas quem vai determinar o que é “ideologia” e o que não é? O projeto Escola Sem Partido abre espaço não só para proibir que professores de Sociologia ensinem sobre os diversos conflitos sociais, como também que professores de Biologia ensinem a Teoria de Darwin – tudo vai depender da opinião pessoal de quem está na Presidência e no Ministério da Educação.

O projeto bolsonarista também é reduzir ainda mais a democracia nas universidades, fazendo com que reitores sejam escolhidos a dedo pelo governo. Ora, as ciências só se desenvolveram porque questionaram as ideologias impostas pelos governos, pelas religiões e pelo senso comum.

Além disso, com o corte de gastos na educação e nas universidades, a produção científica irá ladeira abaixo.

Em defesa da educação ampla e crítica e da liberdade científica

A ampliação do escopo e da qualidade da educação básica é fundamental. A população, ainda mais as cientistas, precisa saber o mínimo de todas as áreas. Vários dos grandes intelectuais da História dominavam mais de um campo do conhecimento humano.

Não se deve aceitar a ladainha de que “ideologias de esquerda” contaminam a sociedade quando, por exemplo, Paulo Freire é um teórico renomado mundialmente. Seu principal livro, “A pedagogia do oprimido”, é o terceiro mais citado no mundo em Ciências Sociais. A questão de fato é que ele defendeu uma educação crítica e questionadora, o que desagrada Bolsonaro. Na verdade, é ele quem quer impor suas ideologias políticas.

Uma educação ampla, crítica e interdisciplinar é fundamental para combater a divisão nas ciências e aproximá-las do próprio povo, combatendo ideias nocivas e anticientíficas do senso comum. A liberdade de produção científica é fundamental para que as ciências se desenvolvam pelos interesses da população e do conhecimento humano e não dos interesses do governo, das bancadas fundamentalista, rural e da bala.

Bolsonaro tem que tirar as mãos da Educação e da Ciência.