Relações entre China e Brasil no governo Bolsonaro

Por: Jorge Almeida*

Uma das questões exploradas na campanha de Jair Bolsonaro foi a política de relações exteriores dos governos do PT e até mesmo de outros governos anteriores do Brasil. Elas foram consideradas por ele, de modo geral, como “ideológicas”.

Entre as mais questionadas, esteve a relação com a China, que, segundo ele, estaria sendo realizada devido a posições ideológicas próximas entre os governo do PT brasileiro e do PC chinês. Também destacou que a China estaria dominando o Brasil, sendo um “predador” que pretenderia “comprar” nosso país. E ele, como “patriota”, pretenderia defender nossa pátria, se livrando dos chineses.

Com sua retórica anti-China, chegou ao ponto de visitar Taiwan, o que é considerado uma afronta à integridade territorial da China, que considera a ilha parte da China temporariamente fora do seu controle.

Bolsonaros em Taiwan

Mas o que há de verdade e de pura ideologia no discurso de Bolsonaro?

A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil e nos últimos três anos foi o maior investidor de capitais no país.  As relações de trocas comerciais tem um saldo positivo para o Brasil mas, de fato, a China tem hoje uma posição estrategicamente vantajosa sobre o Brasil.

Contraditoriamente com o discurso anti-China da extrema-direita, foi a Operação Lava Jato que facilitou a entrada de capitais chineses no Brasil. E foi a política anti-China de Donald Trump que facilitou um aumento das exportações brasileiras para China depois dos governos do PT.

No primeiro caso, porque a Lava Jato quebrou as empreiteiras brasileiras que mais ocupavam o espaço nas privatizações do setor de infraestrutura do país, tanto nas obras como na posse ou administração de concessões privatizadas.

Assim foi que o Brasil celebrou, no início de 2015, um pacote de acordos com a China, assinados pela presidente Dilma Rousseff e o primeiro ministro chinês Li Keqiang que esteve visitando o Brasil.

Os acordos envolveram US$ 53 bilhões em investimentos através de “35 acordos bilaterais nas áreas de planejamento, infraestrutura, comércio, energia, mineração” e outras, entre eles, US$ 7 a 10 bilhões na Petrobras.

Os acordos foram vistos como a salvação da lavoura diante da crise econômica e política, do ajuste e dos cortes que começaram a ser feitos pelo governo do PT.

Além desses investimentos, a China se propôs também a financiar, via o banco estatal ICBC, US$ 50 bilhões em obras de infraestrutura como portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, habitação e energias renováveis.

E ainda foi criado um “fundo bilateral de cooperação”, de cerca de US$ 20 bilhões, para investimentos na produção e infraestrutura.

A soma de tudo, entre investimentos e financiamentos, previa um total de US$ 123 bilhões.

Nem tudo estava muito bem definido, mas boa parte disso começou a ser a ser colocado em prática ainda sob o governo Dilma e continuou com Temer, consolidando a posição da China como o maior exportador de capitais para o Brasil.

E isso significa consolidar uma posição do tipo imperialista da China em relação ao Brasil, através de suas grandes empresas monopolistas produtivas, seus bancos e seu estado.

O Brasil já tinha a China como principal parceiro comercial desde 2006, num comércio bilateral que hoje é de cerca de 80 bilhões. Ele foi se tornando vantajoso para o Brasil em termos de saldo comercial, mas é desfavorável estrategicamente, pois quase toda exportação chinesa é de produtos industrializados e quase toda exportação do Brasil é de bens primários, principalmente o agronegócio e mineração. Enquanto a China vende para o Brasil principalmente mercadorias industrializadas.

A política econômica estabelecida no Brasil no período petista de governo, durante os “bons momentos” do chamado neodesenvolvimentismo, abriu espaço para o fortalecimento dos interesses econômicos da China, com base principalmente nas trocas comerciais. Mas, especialmente a partir do esgotamento do modelo neodesenvolvimentista, do aprofundamento da crise econômica e do enfraquecimento das empreiteiras nacionais, passou a se aprofundar a exportação de capitais de lá pra cá.

A potência asiática, que já vinha investindo pesadamente em outros países latino-americanos, não tomou uma decisão aligeirada. A exportação de capitais faz parte de um grande esforço expansionista chinês, especialmente nos últimos anos.

Esta nova ofensiva chinesa no Brasil, portanto, promoveu um salto de qualidade favorável aos asiáticos. Trata-se de exportação de capitais, na forma de investimentos e financiamentos, uma das características principais de um país imperialista. Isso fortalece a hegemonia da China e a dependência do Brasil, que já existia, inclusive dentro do bloco dos BRICS, onde a nossa posição é subordinada.

Isso, é claro, se situa num contexto internacional no qual a China despontou como principal país desafiante dos EUA, numa competição de tipo interimperialista.

Portanto, ver partidos de esquerda ou originados na esquerda saudarem entusiástica ou moderadamente a maior presença de capitais chineses o Brasil é uma contradição.

Pois, pensando num projeto nacional que se proponha a construir uma verdadeira independência nacional em transição ao socialismo, essa presença e seu aprofundamento não é um avanço, mas um reforço da dependência econômica do Brasil. Uma dependência mais diversificada, mas dependência mais profunda.

Bolsonaro e seu discurso patriótico furado

O discurso de retórica patriótica de Bolsonaro, tem uma base claramente farsesca. Na verdade, é um modo de fazer o discurso anticomunista pois, ao mesmo tempo, ele é um defensor escancarado de uma política entreguista em relação aos EUA.

Essa é a linha do setor do seu governo orientado pelo guru Olavo de Carvalho e que tem como principal expoente no seu governo, além do próprio presidente, o alucinado ministro das Relações exteriores Ernesto Araújo.

Sua pauta real é de alinhamento automático e atrelado à política externa de Donald Trump e aos interesses econômicos do grande capital estadunidense. Privatizações, arrocho interno para pagar juros extorsivos dos banqueiros, maior abertura econômica, leilões de petróleo, base militar dos EUA no Brasil, base aeroespacial dos EUA em Alcântara, venda da Embraer à Boeing, transferência da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, apoio ao golpe na Venezuela e até insinuações de intervenção militar naquele país, entre outros.

Bolsonaro, a China e as contradições com sua base social burguesa

Diante das sinalizações e ameaças explícitas de Bolsonaro com vistas a restrições nas relações econômicas com a China, governantes, empresários e órgãos da mídia daquele país reagiram, tanto com articulações institucionais, como com lobbies, declarações públicas, reportagens e editoriais “semi-oficiais” na mídia chinesa.

Mas o principal obstáculo à aplicação de seus desejos e discurso ideológicos vem da própria base social interna de Bolsonaro, os setores da burguesia brasileira interessados em manter e até ampliar as relações econômicas com a China.

A visita de uma delegação de deputados e senadora do partido de Bolsonaro (PSL) à China foi a ponta do iceberg do problema. O grupo foi, a convite dos chineses, para conhecer produtos e serviços de exportação chineses, especialmente um sistema de segurança. É um sistema de reconhecimento facial digital top de linha de tecnologia e fabricação do país asiático. Isso gerou um vexame público no Brasil.

O guru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho, logo desferiu duros ataques ao grupo de deputados, chamando-os de analfabetos, caipiras e porcarias. Mas recebeu respostas igualmente agressivas e com xingamentos dos parlamentares e assessores, que argumentaram em favor de “relações racionais” e lucrativas com os chineses.

O aviso é claro, um dos setores mais importantes da base social de Bolsonaro, o agronegócio e outras frações do capital, seus empresários e seus representantes no Congresso, não vão aceitar trocar seus interesses materiais por discursos ideológicos doentios.

Querem continuar com uma relação pragmática com a China, impulsionada desde o governo Lula. Ou seja, manter o mercado para a exportação de suas commodities e importação de capitais chineses através de financiamentos e investimentos diretos na construção e administração de uma infraestrutura privada para reduzir seus custos de produção e no escoamento da produção. Que é tudo que a China também quer, é claro, contanto que sua exportação de mercadorias e capitais não seja prejudicada.

* Jorge Almeida é professor de Ciência Política da UFBA

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