A conciliação encarcerada: os socialistas e a liberdade de Lula

Por: Felipe Demier, colunista do Esquerda Online

Quer se tratasse do direito de petição ou do imposto sobre o vinho, da liberdade de imprensa ou da liberdade de comércio, de clubes ou da carta municipal, da liberdade individual ou da regulamentação do orçamento do Estado, a senha se repete constantemente, o tema permanece sempre o mesmo, o veredito está sempre pronto e reza invariavelmente: socialismo! Até o liberalismo burguês é declarado socialista, o desenvolvimento cultural da burguesia é socialista, a reforma financeira burguesa é socialista. Era socialismo construir uma ferrovia onde já existisse um canal, e era socialismo defender-se com um porrete quando se era atacado com um florete […]

A burguesia tinha uma noção exata do fato de que todas as armas que forjara contra o feudalismo voltavam seu gume contra ela, que todos os meios de cultura que criara rebelavam-se contra sua própria civilização, que todos os deuses que inventara a tinham abandonado. Compreendia que todas as chamadas liberdades burguesas e órgãos de progresso atacavam seu domínio de classe, e tinham, portanto, se convertido em “socialistas”.1

A prisão de Lula é parte de um processo de recrudescimento antipopular da democracia blindada brasileira, no qual seus traços bonapartistas, togados e fardados, se intensificam gradativamente. Necessitando de agudas contrarreformas e de uma austeridade sem precedentes, o grande capital, uma vez assestado o Golpe do impeachment, não se dispôs mais a tolerar o pacto, ou melhor, a concertação social que, com relativo êxito – para o capital – vigorara por quase toda a duração dos governos petistas. Partido da concertação social por excelência, o Partido dos Trabalhadores, e seu líder máximo, Lula, tiveram de ser retirados celeremente do jogo político, e todos os meios necessários para isso, legais ou ilegais, foram devidamente usados. Depois do Golpe, as amarras constitucionais foram rompidas, os pudores democráticos foram dispensados e para a burguesia tudo parece então ser possível. O seu desejo anda solto, e seu flerte com o fascismo já não é só virtual.

Neste cenário, o caráter político da prisão de Lula é indisfarçável, e a indumentária do disfarce teve sua última peça atirada ao chão quando Sérgio Moro aceitou, de pronto, o cargo de Gendarme-mor no novo governo. A máscara caiu, o rosto foi revelado, e os sujeitos minimamente letrados que seguem acreditando que a corrupção foi o leitmotiv da condenação do ex-presidente não o fazem senão por mistificação ideológica, assim como algumas crianças podem continuar a crer em Papai Noel mesmo após presenciarem o tio se fantasiando no quarto ao lado. Nesse sentido, não é escusado lembrar que embora a adequação do PT à lógica do capital tenha criado as condições para que práticas ilícitas pudessem servir de azo para a prisão de Lula, este não está encarcerado porque se adequou à tal lógica – tendo traído, em última análise, os interesses históricos da classe trabalhadora –, e sim porque, no atual momento brasileiro (e em quase todo o mundo), é justamente a mesma lógica do capital que não tolera mais sequer a concertação social e, por conseguinte, não se dispõe a engolir o líder máximo dessa concertação, por mais “traidor” que este possa ser. Diz o velho adágio que “os traidores não merecem piedade”, e a sentença parece perfeitamente adequada ao caso brasileiro atual, com a significativa diferença de que não são os traídos, e sim o outro lado, o daqueles que cooptam, que parece não mais aceitar sequer a traição e os traidores, mesmo que aquela e estes, sejam e estejam, respectivamente, a seu favor. Tal qual nos versos do conhecido samba de Beth Carvalho, Lula pode ter pago com traição a quem sempre lhe deu a mão – e, decerto, o fez -, mas tal fato não impediu a burguesia de traiçoeiramente trair a quem, por fidelidade monogâmica a ela, havia traído os seus.

Para a aplicação de um inclemente programa ultra-neoliberal, que inclui a retirada de direitos sociais, o desmonte e privatização dos serviços públicos, e a eliminação, quando necessária, de certas franquias democráticas, a burguesia deixou claro – e a última eleição o demonstrou de forma apodítica – que não há mais espaço no seu Estado para filhos bastardos, para representantes de origem popular tardiamente aburguesados, para quem quer que seja que possa exalar, mesmo que em baixos teores, o aroma popular nos palácios, para ninguém que possa anelar a conciliação com os de baixo, ainda que para mais sofisticadamente atacá-los. Do governo neofascista de Jair Bolsonaro e seu ministério de albigenses, a burguesia não espera “a paz, e sim a espada”, e clama para que, finalmente, o ataque seja frontal, direto, sem tergiversações, “na exata”, como diriam os mais antigos. Assim, se o cavalo agora deve ser montado nu, qual é a necessidade de uma cela revestida de pelego? Se a manipulação agora deve ser meramente ideológica, sem nenhum hegeliano “momento de verdade”, sem nada a oferecer em troca, sem colaboração alguma com os manipulados, qual é a valia para a burguesia de um colaborador, ainda que hábil?

Desse modo, não seria equivocado afirmar que o Lula que está preso em Curitiba não é propriamente o Lula que se afastou de um projeto emancipatório da classe trabalhadora, e sim aquele que se dispôs a oferecer três refeições diárias para ela dentro do periférico e dependente capitalismo brasileiro. O Lula que está em uma cela da Vendée tropical é menos o adversário de um projeto socialista e mais o defensor de um capitalismo com menos miseráveis. É nítido como um girassol de Fernando Pessoa que Lula não está sendo castigado pelos trabalhadores em sua luta pela emancipação social, e sim pelos mais cruentos adversários desta, e que ele não está preso por ter miseravelmente abandonado as ideias e projetos de esquerda, e sim porque para a desapiedada e miserável burguesia brasileira, com sua sede e fome de anteontem, ele ainda é visto como “de esquerda demais”. Tementes a Deus, as pessoas da sala de jantar bem sabem que, no atual contexto do país, é a sua mão esquerda, e não a direita, que deve ser cortada, pois “é preferível que um só membro seu pereça a que vá parar na geena o seu corpo inteiro”.

Pode-se dizer, portanto, que a manutenção de Lula em uma cela por todos estes meses encerra inegavelmente um conteúdo político reacionário, sendo parte constituinte do atual processo de bonapartização do regime democrático-blindado, processo que, se não for freado pela resistência das forças populares, conduzirá a ataques cada vez mais numerosos e lancinantes contra a esquerda e os movimentos sociais, assim como contra os oprimidos de todo o tipo (negros, mulheres, indígenas, LGBTs etc.). Sobre isto não podem restar quaisquer dúvidas, sob pena de sermos cúmplices do anátema nacional que é arquitetado às claras contra todos os setores antifascistas do país.

A defesa da liberdade de Lula deve ser inegociável para a esquerda socialista. Se tal defesa será central ou lateral nesta ou naquela plataforma sindical, neste ou naquele ato, é algo de ordem meramente tática. Sua presença, contudo, é estratégica diante do ominoso cenário político do país. O poeta Puchkin disse certa feita que “o gênio é amigo dos paradoxos”, mas não é preciso ser nem um pouco genial para perceber que não há paradoxo algum em defender firmemente a liberdade de Lula e, simultaneamente, criticar implacavelmente Lula, a direção do PT, seus burocratas no movimento sindical, seus prestidigitadores nos movimentos sociais e todos aqueles que, “olhando sem ver e ouvindo sem ouvir”, atrasam a construção da resistência popular pois usam da moderação em tempos de guerra, insistindo em nova tentativa de colaboração com os seus algozes do andar de cima, os quais, é claro, têm a nós, os socialistas, como principal alvo.

Foto: Lula em São Bernardo do Campo, em protesto contra sua prisão | Por: Carol Burgos – Esquerda Online

1 MARX, K. O 18 brumário de Luís Bonaparte. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 61-62. Grifos do autor.

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