Marcha dos migrantes é reprimida por EUA e México. Obrador aposta em acordo com Trump

Por: Gabriel Santos, de Maceió (AL)

No último domingo (25), após duas semanas em abrigos precários, migrantes oriundos de países da América Central realizaram uma marcha pela cidade de Tijuana, no México. A manifestação começou no albergue Benito Juáres, no qual cinco mil centro-americanos estão alocados após chegarem de diferentes caravanas nas últimas semanas.

Durante a manifestação, um grupo de centenas de refugiados tentou pular o muro que separa o México e os EUA, enquanto outros tentaram atravessar a fronteira por meio do rio Tijuana. Em resposta, a polícia norte-americana utilizou balas de borracha e gás lacrimogêneo para fazer o grupo recuar e permanecer no México.

Logo após o incidente, o governo Trump ordenou o fechamento de San Ysidro, o ponto de passagem mais movimentado da fronteira, o que coloca os migrantes que pedem asilo no país em uma situação angustiante de ainda mais espera, sem previsão para terem seus pedidos de visto confirmados.

O presidente norte-americano já havia dito que, se preciso, seria utilizada “força letal” para conter aqueles que tentassem entrar “ilegalmente” no país. A política de Trump consiste em tornar os imigrantes inimigos públicos, colocando argumentos para apontar que os refugiados querem “invadir” os EUA. Por meio deste discurso, consegue colocar parte da população contrária aos migrantes e legitimar o uso de força bruta contra aqueles que tentam cruzar a fronteira.

A espera destes imigrantes nas cidades fronteiriças mexicanas até que possam adentrar nos EUA e pedir visto pode durar meses. Esta espera, e a situação desumana à que são expostos, tem gerado justa impaciência por parte dos refugiados, que gritam a plenos pulmões: “Trump, não somos inimigos”.

Após semanas e até meses de caminhadas sobre sol e chuva, dormindo nas ruas e calçadas, cruzando países inteiros em situação de extrema vulnerabilidade, os refugiados centro-americanos ainda sofrem a criminalização por parte do governo Trump e o descaso do governo do México: depois de reprimir as manifestações, autoridades mexicanas prenderam e deportaram 98 imigrantes. Além disso, reforçou suas fronteiras.

O governo Obrador e a política para os imigrantes

Daqui a dois dias, no próximo sábado, 1º de dezembro, o novo presidente mexicano, André Manuel Lopez Obrador (AMLO) tomará posse. Existe grande expectativa das chamadas “forças progressistas” e de amplos setores da esquerda em toda América Latina no novo governo. Seu partido, o MORENA, terá força política e social para fazer importantes mudanças no país. Em termos de reformas progressistas, já se discute inclusive, por exemplo, formas de descriminalizar a maconha.

Mas existem contradições que impõe limites ao modelo que Obrador desenha para o país. Uma delas é a relação com o imperialismo norte-americano. AMLO já anunciou que não buscará se enfrentar diretamente com o governo Trump. Por outro lado, seu governo parece querer realizar mudanças por meio de um modelo neodesenvolvimentista, impulsionando a economia interna com obras públicas que, por sua vez, estimularia o aumento dos empregos. Isso incidiria sobre a política migratória.

De acordo com o jornal The Washignton Post, está em marcha um acordo entre México e Estados Unidos para que os migrantes permaneçam em solo mexicano enquanto os pedidos de visto são avaliados nos tribunais norte-americanos. Trata-se de uma mudança regressiva já que normalmente os solicitantes de asilo aguardavam o resultado do pedido de visto em solo estadunidense.

A futura ministra do interior, Olga Sánchez Cordero, afirmou que esta seria uma solução a curto prazo, e que não enxerga com bons olhos as caravanas vindas de países como Honduras. De acordo com ela, caso as caravanas continuem, isso gerará um problema para o país.

A médio e longo prazo, o futuro governo mexicano buscaria fazer uma série de acordos com Trump, no qual viriam dos Estados Unidos o valor de 20 bilhões de dólares (76 bilhões de reais) em investimentos privados nos próximos seis anos, para que sejam criadas as “cortinas de desenvolvimento”.

Estas “cortinas de desenvolvimento” são uma série de investimentos públicos em obras públicas na região sul do país, local mais precarizado do México e que faz fronteira com os países centro-americanos, dos quais a imensa maioria dos migrantes são originários.

Até agora, AMLO anunciou três destes planos de investimentos. Um em Chiapas, que geraria 400 mil empregos com uma política de reflorestamento de cerca de 1 milhão de hectares. O segundo seria uma estrada de ferro com 1.500 quilômetros, que atravessariam cinco estados do país. O terceiro megaprojeto da equipe econômica de Obrador é uma linha ferroviária que ligará a região de Oaxaca, à oeste, no Oceano Pacífico, a Veracruz, à leste, no Atlântico.

Muitas destas vagas de empregos seriam para os migrantes, que passariam a se enraizar no México evitando a ida em direção aos EUA. Obrador pretende também que Trump aumente a ajuda norte-americana aos países do triângulo norte da América Central. Após a última grave crise de migrantes na região, em 2014, foi criado o Plano Aliança pela Prosperidade, no qual deveriam ter sido destinados 600 milhões. Porém, por questões burocráticas do funcionamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, apenas 200 milhões foram colocados em prática.

De acordo com o futuro ministro do Exterior, Marcelo Ebrard, que lidera as negociações, até maio de 2019 estes acordos devem ser fechados. Caso não sejam concretizados até esta da, irão expirar e não poderão mais serem colocados em práticas.

Toda solidariedade aos migrantes centro-americanos

De acordo com as negociações de Trump-Obrador, o destino dos refugiados seria o México e não os EUA. Por sua vez, o México sinaliza fechar sua fronteira aos demais migrantes centro-americanos. Sem dúvida um acordo sinistro, já que envolveria um governo tido como de esquerda e um populista de extrema direita. Trump não esconde seu entusiasmo: deixará de participar do segundo e último dia da reunião do G20 em Buenos Aires para ir à posse de López Obrador no dia 1º de dezembro.

Assim, diante da difícil situação da marcha dos migrantes, é preciso cobri-los de solidariedade internacional. A palavra de ordem “Nenhum imigrante é ilegal” deve ser intensificada. Migrar é um direito humano e deve ser garantido. É preciso denunciar e repudiar a forma que Trump, com a anuência do governo mexicano, lida com os refugiados transformando estes em “invasores” e inimigos públicos.

Por outro lado, a política desenhada por AMLO, de fato, vai de encontro aos interesses de Trump, ainda que aparentemente tente tirar vantagem em relação aos investimentos norte-americanos no México. Não nos enganemos: a resultante será mais subordinação do México aos interesses dos EUA.

No imediato, em Tijuana, cidade ápice dessa crise atual, empresários divulgam vagas em linhas de montagens das industrias locais, porém com salários mais baixos do que estes refugiados receberiam nos EUA. Mais baixos, inclusive, que os recebidos pelos mexicanos que moram na cidade.

Seja em obras públicas, seja no setor privado, os migrantes centro-americanos devem ter o justo direito de receberem um salário digno. A mão de obra migrante não pode servir como mão de obra barata e/ou contratos precários.

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