Novas manifestações dos Coletes Amarelos na França

Por: Renato Fernandes, de Campinas (SP)

O movimento dos “coletes amarelos” continua a agitar a França. Neste último sábado, 24, ocorreram atos por todo o país, sendo o principal em Paris.

Esse ato 2 – o primeiro tinha sido o do sábado anterior, 17[1] – foi menor em números: segundo o governo francês, tiveram 106 mil por todo o país, sendo 8 mil em Paris. Porém, os manifestantes mantiveram a radicalização: bloquearam rodovias e avenidas, abriram pedágios e, em algumas cidades como Paris e Bordeaux enfrentaram a proibição imposta pelo governo que não permitia as manifestações em determinados locais.

Em Paris, o governo fechou a Torre Eiffel – um dos pontos turísticos mais visitados do mundo – e também o perímetro próximo à sede do governo, local onde os manifestantes queriam chegar.

Para impedir o protesto de chegar no seu objetivo, a polícia reprimiu a manifestação violentamente na Avenida Champs-Elysées e uma batalha campal, com pedras, grades e outros objetos, aconteceu durante horas.

A vida está cara

A razão inicial das manifestações foi o aumento do preço dos combustíveis devido a uma “taxa carbono” que visa, segundo o governo, uma transição ecológica, isto é, a diminuição da utilização de combustíveis fósseis.

Para piorar, esse aumento do imposto se combina ao aumento do preço do barril do petróleo no mercado internacional: quando o presidente Emmanuel Macron assumiu o poder, em maio de 2017, o barril estava U$ 50,87 e atualmente está U$ 64,14 [2].

Além do preço dos combustíveis, os franceses sentem que em geral a vida está mais cara: transportes, cesta básica, etc. Para se ter uma ideia, a inflação entre 2013-2016 aumentou aproximadamente 0,4% ao ano. No ano passado, primeiro ano do governo Macron, aumentou 1,19%. Este ano está previsto um aumento de 1,87% [3].

A baixa popularidade do presidente, com apenas 25% de muito satisfeitos e satisfeitos [4], e o grande apoio às manifestações – cerca de 8 em cada 10 pessoas apoiam as ações dos coletes amarelos – dão um impulso para continuar as manifestações.

De acordo com os analistas, nas manifestações se encontram perfis variados: desde pequenos empresários, que reclamam dos impostos e da vida mais cara, até trabalhadores. De acordo com Olivier Besancenot, dirigente do NPA, 3 em cada 4 trabalhadores não moram na mesma cidade no qual trabalham, dependendo muito do seu veículo para chegar no trabalho[5].

As forças políticas e os coletes amarelos

Existe um consenso entre os analistas políticos e as forças políticas de que o movimento dos coletes amarelos não tem uma “direção consolidada”, isto é, nenhuma força política o controla. Porém, existe uma clara disputa entre as forças políticas para assumir essa direção.

O ministro do Interior, Christophe Castaner, logo após a repressão em Paris deste sábado, declarou que as manifestações estavam ligadas a extrema direita. Sem dúvida há grupos de extrema direita por todo o país[6]. Marine Le Pen, principal representante da extrema direita, tenta ser a “porta voz” política do movimento e ontem, 25, pediu para que o presidente Macron responda sobre as demandas levantadas pelo “povo”[7].

Por outro lado, as forças políticas da esquerda, como a França Insubmissa, também buscam disputar o movimento. Jean Luc Mélenchon dedicou seu programa semanal na internet para falar sobre o movimento e exigir respostas do governo, além de que diversos militantes insubmissos estiveram presentes na organização. Uma questão interessante levantada por Mélenchon é que antes dos primeiros atos, do 17 de novembro, aconteceram diversas reuniões e atividades que organizaram o movimento  nas cidades[8].

As forças da extrema esquerda, como o Novo Partido Anticapitalista (NPA) e Luta Operária, também estão participando das manifestações, porém seu peso nas mesmas é muito menor.

Apesar dessa presença política dos partidos, a maior parte dos manifestantes entrevistados pelas mídias que estão cobrindo as manifestações, se declararam como apolíticos, sem partidos. Estão contra o sistema partidário como um todo.

A combinação entre as reivindicações do movimento, sua oposição à política neoliberal de Macron, sua composição social entre a pequena burguesia e a classe trabalhadora, nos leva a considerar que a princípio este é um movimento progressivo. É um movimento que busca alterar as relações de forças sociais, ainda que não tenha uma direção clara em relação às forças políticas.

Duas questões centrais se colocam diante dos próximos passos para o movimento: é possível derrotar a política de Macron de aumento de impostos? Qual força política se beneficiará deste movimento?

Como dissemos anteriormente, a extrema direita de Le Pen está bem posicionada para se beneficiar do movimento, porém a dinâmica do próprio movimento e a presença de sindicalistas, trabalhadores, militantes socialistas podem colocar em disputa essa direção. Neste momento essa deve ser a aposta da esquerda revolucionária.

 

Leia mais:

[1] https://esquerdaonline.com.br/2018/11/19/manifestacoes-na-franca-uma-jacquerie-contra-macron/

[2] https://www.indexmundi.com/pt/preços-de-mercado/?mercadoria=petróleo-bruto-brent&meses=60

[3] https://fr.inflation.eu/taux-de-inflation/france/inflation-historique/ipc-inflation-france.aspx

[4] https://www.lci.fr/social/manifestation-des-gilets-jaunes-samedi-24-novembre-a-paris-carte-perimetres-seront-interdit-a-la-circulation-2105479.html

[5] https://www.youtube.com/watch?v=jFCqgyJ1688&t=478s

[6] http://lahorde.samizdat.net/2018/11/24/gilets-jaunes-ni-macron-ni-fachos/

[7] https://www.sudouest.fr/2018/11/25/gilets-jaunes-marine-le-pen-appelle-macron-a-repondre-5597342-10530.php

[8] https://www.youtube.com/watch?v=zUPGqsM3urs&t=571s

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