Manifestações na França: uma Jacquerie contra Macron?

Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP

Jacquerie é o nome atribuído às revoltas camponesas que lutavam, desde a Idade Média, contra a nobreza francesa. Nesses últimos dias, uma França profunda, não mais camponesa, porém com forte componente rural, levantou-se contra o governo do presidente Emmanuel Macron e do primeiro ministro Edouard Philippe. Segundo alguns institutos, participaram mais de 300 mil pessoas em 2000 manifestações por todo o país, resultando em confrontos com a polícia que levaram a uma morte e centenas de feridos. As manifestações continuaram no domingo (18) com mais de 160 bloqueios e também nesta segunda-feira (19)[¹].

Os manifestantes tem como reivindicação a redução dos aumentos sobre os combustíveis. De acordo com Renaud Honoré, as taxas sobre o diesel vão subir € 0,30/litro enquanto a da gasolina subirá € 0,16 durante o quinquenato de Macron (até 2022) – em 2018, subiram € 0,06 e € 0,04 e em 2019 subirá € 0,065 e €0,029 respectivamente [²].

Este aumento é justificado, segundo Macron ou Philipp, pela necessidade de uma transição ecológica para energias renováveis. O grande problema é que querem jogar os custos dessa transição nos setores populares que dependem diretamente dos combustíveis, principalmente nas áreas rurais, enquanto aumentam e garantem o lucro das grandes empresas do setor.

Três características desta jacquerie moderna são importantes. A manifestação foi convocada principalmente pela internet, assumindo uma característica que é própria dos movimentos sociais contemporâneos: a ausência de lideranças claras e a espontaneidade da revolta. Nem os grandes partidos, nem os sindicatos participaram como atores importantes no primeiro momento do levante. Apenas posteriormente que lideranças políticas e sindicais passaram a estar presente na revolta, tanto no espectro da direita (incluindo a extrema direita), quanto no da esquerda (incluindo a extrema esquerda).

Uma segunda característica é a identificação “gilets jaunes” ou coletes amarelos. Os manifestantes se identificam com os coletes usados por autoridades para atuarem de forma segura sobre avenidas e rodovias do país.

A terceira característica é justamente o método de ação: bloqueios de estrada, de pedágios e de grandes vias para impedir a circulação, incluindo o bloqueio das entradas de refinarias. Um método radicalizado e que tenta garantir a paralisação do país para atender as suas reivindicações que, dado o caráter espontâneo e não centralizado, são variadas, mas que tem como centro a revogação dos aumentos dos combustíveis.

Um governo fraco e para os ricos

Macron foi eleito com uma expectativa da burguesia nacional e internacional maior do que dos franceses. Sua eleição, apesar da novidade que representava, aconteceu principalmente por ser a única opção frente a extrema direita de Marine Le Pen. Do ponto de vista da burguesia, Macron está cumprindo fielmente sua agenda de austeridade neoliberal: baixa de impostos para os ricos, aumento das aposentadorias abaixo da inflação, congelamento de programas sociais, reforma trabalhista, etc. Todas essas medidas, por consequência, geraram um problema de fundo que afeta a maior parte dos trabalhadores e pequenos produtores franceses: a queda na renda e no poder aquisitivo.

Por conta disso, os sindicatos e movimentos sociais realizaram diversas mobilizações na França durante os dezoito meses de governo Macron. Apesar de nenhuma delas ter sido capaz de derrotar a política neoliberal do presidente francês, é fato que estas manifestações foram a base para o novo levante que ocorre agora. Atualmente, somente 25% da população apoia o governo – um índice consideravelmente baixo[³]. É essa baixa popularidade, somada às medidas neoliberais, que são o fermento da nova Jacquerie.

O problema da transição ecológica

A justificativa de Macron para o aumento dos combustíveis parece plausível: financiar a transição ecológica para uma energia renovável. Contudo, o problema é: quem deve financiar? Para se ter uma ideia, 60% do preço do combustível comprado na bomba na França é composto por impostos e pago pelo consumidor, enquanto apenas 10% é cobrado diretamente da empresa. Nesse sentido, quem paga a transição ecológica são os consumidores e não as grandes empresas.

Outro ponto necessário de discussão é sobre a questão dos transportes públicos. Para reduzir o consumo de combustíveis fósseis é necessário avançar no desenvolvimento de transporte coletivo. Porém, a última reforma ferroviária de Macron, aprovada em junho de 2018, prevê o fechamento de quase 9 mil km ferroviários por todo o país, principalmente para as áreas rurais. Uma medida que vai na contramão de qualquer transição ecológica.

Por isso, as principais organizações de esquerda na França, como o Novo Partido Anticapitalista, o Partido Comunista Francês e o Partido de Esquerda, entre outras, assinaram um manifesto no dia 15 de novembro apresentando uma alternativa para a transição ecológica que ataque os lucros das grandes empresas e dos ricos. São eles que devem pagar pelos estragos que seus próprios interesses causam ao meio ambiente.

É necessário que os partidos de esquerda, junto aos movimentos sociais como os sindicatos (que continuam sem ação) tomem mais iniciativas frente a revolta popular. No próximo sábado, 24/11, os coletes amarelos convocaram uma nova onda de manifestações, principalmente em Paris. É preciso se somar a mesma, exigindo a revogação dos aumentos do combustível, a recomposição da renda salarial e também uma alternativa política e ecológica para o país que priorize as energias renováveis com o transporte público amplo e de qualidade.

Leia mais:

¹ https://www.lesechos.fr/politique-societe/societe/0600171099762-gilets-jaunes-des-blocages-maintenus-ce-lundi-2222851.php

² https://www.lesechos.fr/economie-france/budget-fiscalite/0600151829637-les-taxes-sur-le-diesel-vont-grimper-de-30-centimes-sur-le-quinquennat-2222882.php#formulaire_enrichi::bouton_google_inscription_article

³ https://renovamidia.com.br/popularidade-de-macron-em-queda-livre-na-franca/

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