Crianças, arquitetos e a consolidação da ocupação Guarani Kaiowá, em Contagem (MG)

Por: Frederico Lopes e Manoel Pupim, de Belo Horizonte (MG)

Matagal, entulho, dengue e insegurança. Esse era o cenário do grande terreno de 30.000m2 situado no bairro Ressaca, em Contagem (MG). Durante mais de 30 anos o local ficou abandonado, sem os pagamentos dos impostos, sem cuidados e sem proprietário. Entretanto, no dia 09 de março de 2013, a realidade mudou. De forma organizada nasceu a Ocupação Emanuel Guarani-Kaiowá.

Deixando o passado para trás, o lugar se transformou em uma comunidade, um espaço de moradia para mais de 150 famílias, que sem ajuda da Prefeitura ou de empresas, construíram, com planejamento e cooperação de movimentos sociais, um bairro inteiro.

Muitas coisas se passaram desde 2013. Revoltas populares, Copa do Mundo, Olimpíadas, golpe institucional, crises. Mas a ocupação, carinhosamente chamada de GK, se estruturou, e apesar das muitas dificuldades, hoje se organiza para melhorar os espaços coletivos e as casas, consolidando a comunidade.

Uma experiência de cooperação entre estudantes, crianças e demais moradores da GK ocorreu neste mês. No dia 6 de setembro de 2018, por volta das 09 horas, chegaram na ocupação, de ônibus, cerca de 30 estudantes de Arquitetura e Urbanismo de todo o Brasil. O propósito era vivenciar, por um dia, a realidade do local, assim como a realização de uma pequena intervenção – a construção de um parquinho – logo abaixo da sombra de uma grande mangueira, árvore que se tornou símbolo da ocupação, espaço preferido das crianças e o centro da comunidade.

Crianças e estudantes de arquitetura, no mutirão

Crianças e estudantes de arquitetura, no mutirão. Foto: Lara

A experiência foi idealizada pelas estudantes Renata Segatto e Bárbara Tavares, e teve o apoio da comissão organizadora do Encontro Regional de Estudantes de Arquitetura (EREA), evento que reuniu mais de 600 participantes das cinco regiões do País. Um grupo de organizadores, alguns que, inclusive, já trabalhavam com a ocupação antes do evento, foi ao local para conversar com as crianças sobre o que elas gostariam que fosse desenvolvido naquele espaço, trazendo-as para o processo criativo do projeto. Os estudantes então, na véspera do dia 6, ouviram explicações sobre a história da ocupação Guarani Kaiowá, o local da intervenção e as sugestões das crianças. Foram desenvolvidos croquis para a confecção dos brinquedos, além da preparação das matérias-primas, majoritariamente pedaços de bambu e pneus usados.

No dia seguinte, os 30 estudantes embarcaram na sede do Encontro e desembarcaram na ocupação, levando as ferramentas e os materiais para fazer a intervenção. A primeira providência foi a limpeza do local, enquanto outros participantes arrumavam os materiais e interagiam com os moradores, que receberam o grupo com muito carinho. Com a movimentação, as crianças rapidamente chegaram e, sem timidez, já começaram a brincar e trabalhar junto com os estudantes. As crianças da GK, como sempre ativas e interessadas, faziam perguntas a pedido de terceiros, outras questionavam se os brinquedos continuariam ali ou se seriam levados embora, outras buscavam a atenção dos estudantes a qualquer custo.

Como já trabalhei com crianças e sou admirador da espontaneidade delas, tomei para mim a função, ali no “canteiro”, de ser o “Manoel das brincadeiras”, mantendo distraídas as crianças mais travessas. Distribuí folhas de papéis com lápis de cor, fiz alguns desenhos para colorir e, de tempos em tempos, separei algumas brigas com violentas agressões físicas, que surgiam subitamente, evidenciando a dualidade comportamental da inerente ternura infantil e a circunstancial violência que a desigualdade social acarreta no cotidiano das crianças.

Crianças participam do mutirão

Crianças e estudantes de arquitetura, no mutirão. Foto: Lara / EREA

O almoço foi servido ali na praça, debaixo da sombra fresca do Pé de Manga, por volta do meio-dia, preparado pela Nancy, 59 anos, que habita a ocupação desde os 53. Ela contou ter ficado toda a noite anterior preparando a refeição, um delicioso Tropeiro, que contava com opção vegana, vegetariana e com carne. Além disso, a comida foi feita para sobrar porque, segundo Nancy, “sempre terá alguém para comer”. Dito e feito: poucos minutos após colocar as panelas de comida nas mesas sob a árvore, alguns moradores que ali passavam pararam para comer junto com os estudantes e as crianças. Depois do almoço, algumas crianças foram para a escola, algumas chegaram e outras cabularam aula para continuarem acompanhando o andamento da intervenção.

A confecção dos brinquedos terminava na medida em que o sol se aproximava da linha do horizonte. Os estudantes testaram o funcionamento e rapidamente organizaram o local, retirando as ferramentas e as sobras de materiais, deixando o espaço livre para as crianças. O dia ia chegando ao fim e a Nancy gentilmente cedeu a cozinha da sua casa para os estudantes tomarem um café com bolo antes de deixarem a ocupação. Todos aplaudiram, agradeceram a recepção acolhedora e despediram-se dos moradores e das crianças. Voltaram ao ônibus os 30 estudantes, levando consigo recordações que acaloram o desejo de atuar em uma arquitetura a quem precisa.

A construção do parquinho, mesmo que uma intervenção modesta, contribui para a consolidação da Comunidade GK. A organização não pára, as obras de construção do Centro Social avançam, e a comunidade, próxima a completar 6 anos de existência, espera ansiosamente, e com determinação, a regularização fundiária junto ao poder público, com o reconhecimento do trabalho coletivo desenvolvido, e o início das obras de urbanização de captação de água e esgoto, energia elétrica e calçamento, garantindo o que todo bairro tem direito.

Transformar espaços abandonados em moradias é a solução para diminuição do déficit habitacional e a garantia do direito constitucional de todas as pessoas terem um lar. Dengue, entulho e insegurança ficaram no passado, hoje a Comunidade GK mira o futuro. E a cidade de Contagem agradece.

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