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O esquerdismo e as eleições

Gabriel Casoni

Gabriel Casoni, de São Paulo (SP), é professor de sociologia, mestrando em História Econômica pela USP e faz parte da coordenação nacional da Resistência, corrente interna do PSOL.

Há, por vezes, na vasta diversidade de posições políticas, curiosas identidades. Observemos esse estranho fenômeno na extrema esquerda brasileira.

O PSTU tem como eixo de campanha o chamado à revolução socialista. Para este partido, excetuando Vera Lúcia, todos outros candidatos – de Bolsonaro a Guilherme Boulos – são “farinha do mesmo saco”. Diferentemente, o MRT, sem assumir, até aqui, apoio a nenhuma candidatura presidencial, tem como centro de sua política eleitoral a denúncia do caráter fraudulento das eleições em razão da perseguição a Lula, que vem acompanhada, sempre, de furiosos ataques ao PSOL.

Partindo de pontos opostos, o primeiro do programa máximo, e o segundo do mínimo, convergem ao mesmo destino: a afirmação autoproclamatória de suas próprias organizações e a denúncia implacável de todas outras alternativas de esquerda.

A revolução e o oportunismo

A única maneira de atribuir um sentido racional ao chamado à “rebelião” socialista,  enquanto eixo de campanha, é se se acredita que estamos na iminência de uma autêntica revolução social, o que pressuporia a existência de uma ofensiva revolucionária da classe trabalhadora ao lado de uma brutal crise do regime de dominação capitalista. Nem uma nem outra condição estão presentes na realidade, porém. Bem distante disso.

Na vida real, a grande maioria da população trabalhadora, à espera das urnas, está se definindo pelo voto em Lula ou Bolsonaro. A ascensão do lulismo, de um lado, e do bolsonarismo, de outro, é o principal fenômeno político do pós-golpe, de 2016 pra cá. Enquanto o primeiro canaliza o amplo descontentamento popular à esquerda, o segundo capitaliza a crise social pela extrema direita.

A emergência de ambos, por razões diferentes, é sintoma do quanto a situação politica é defensiva. Expressa, também, a ausência de uma alternativa à esquerda em condições de lutar, neste momento, pela maioria política no proletariado. Numa dimensão mais profunda, demonstra a dificuldade na construção de uma representação política independente dos explorados e oprimidos.

Nos últimos anos, existiram valiosas lutas defensivas, quer dizer, mobilizações e greves para manter posições perante a investida do inimigo. Mas não há qualquer processo de mobilização revolucionária que transborde a ordem dominante, tampouco existe uma única organização revolucionária com peso político relevante entre os trabalhadores. Em verdade, aqueles e aquelas que defendem a derrubada do sistema capitalista pela via revolucionária encontram-se em extrema minoria, infelizmente.

As incontáveis evidências que brotam da realidade negam as teses idealizadas do PSTU. A classe trabalhadora sofre com a ofensiva burguesa. Por isso, uma parte significativa dela enxerga no retorno do PT ao governo, e, desse modo, da conciliação de classes, uma forma de reverter ou atenuar o cenário atual. Se estivéssemos a um passo da revolução, haveria um amplo deslocamento dos trabalhadores à esquerda do PT, e não o inverso: a recomposição do lulismo perante o fortalecimento da direita e da extrema-direita.

O PSTU adota um programa maximalista, quer dizer, agita como tarefa imediata a derrubada do capitalismo num contexto concreto em que não está colocado a tomada de poder pela classe trabalhadora. A forma da política adquire um tom ultraesquerdista clássico.

Contudo, por detrás do slogan ultra-revolucionário, há um conteúdo essencialmente oportunista. O PSTU convoca a revolução, mas apoia a prisão política de Lula; chama a rebelião, mas capitulou ao golpe parlamentar dirigido pela burguesia; faz ataques violentos ao PSOL, mas se curva de diante de Moro e da Lava Jato. Não é de se estranhar, por consequência, a aliança político-sindical deste partido com um vereador da direita que lidera a campanha de Bolsonaro em Itabira (MG).

O oportunismo e a revolução 

O MRT, no inverso da rigidez envelhecida do PSTU, é conhecido por oscilações bruscas na linha, pulando de um lado para outro com muita velocidade. Ora destila brutais denúncias contra o PT e o PSOL, ora rebaixa ao mínimo sua política perante esses partidos. Se fossemos traçar com um lápis esta evolução confusa, haveria um movimento quase incompreensível em zigue-zague.

Recentemente, em mais um lance repentino, esta organização adotou a linha de hierarquizar sua política pela denúncia da perseguição político-judicial contra Lula. O erro não está nesta posição tomada isoladamente. Mas naquilo que a acompanha. O MRT resolveu priorizar os ataques ao PSOL e a Boulos, justamente aqueles que reconhecidamente, fora do PT, mais defendem o direito democrático da candidatura de Lula, e que foram às ruas contra o golpe. Desde 2016, o protagonismo do MTST nos combates democráticos é incontestável.

Porém, a questão principal não está neste ponto, por si só bastante problemático. Ninguém sabe a posição política do MRT a respeito da eleição presidencial: voto nulo, voto crítico em Boulos, voto útil em Lula ou voto em Vera? Com uma linha  eleitoral, até aqui, abstencionista, esta pequena organização faz uma junção oportunista inusitada: de um lado, agita com centralidade a perseguição contra Lula e o PT, de outro, desfere ataques furiosos contra o PSOL (o curioso é que, enquanto o PSTU critica o PSOL por defender demais Lula, o MRT  acusa de defender pouco).

A crítica do MRT caminha na direção de denunciar as eleições como uma fraude. A consequência coerente desta radicalização seria o boicote e uma campanha para que a esquerda retire as candidaturas. Mas os editores do Esquerda Diário ainda não deram esse passo.

No desequilíbrio dessa linha, é difícil identificar qualquer consistência na política aplicada. Sobra o oportunismo vestido de palavras vermelhas emprestadas da Argentina.

* Imagem: quadro “O grito”, de Edvard Munch.

Marcado como:
eleições 2018